Solidariedade em loja de rua

Solidariedade em loja de rua

Estudantes do DF adotam o projeto The Street Store e propiciam a cerca de 150 pessoas sem moradia o prazer de escolher roupas, sapatos e brinquedos, como quem vai às compras no shopping. As mercadorias foram doações dos brasilienses que aderiram à iniciativa

» CAMILA COSTA
postado em 24/08/2015 00:00
 (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)


Os shoppings, os centros comerciais, as feiras e as boutiques estão quase sempre cheios. Comprar faz parte da rotina diária de milhões de pessoas. Seja roupa, seja brinquedo para o filho, seja refeição. Embora comum, essa realidade é inviável para muita gente. No Distrito Federal (DF), de acordo com levantamento da Secretaria de Desenvolvimento Humano e Social, 2,5 mil pessoas vivem em situação de rua. Para elas, ter roupa ou sapato novos, usar óculos escuros da moda e dar aos filhos um boneco que aparece na tela do cinema, só se forem doados. Como o que se ganha não dá para escolher, elas não têm a oportunidade de viver a experiência do consumo. Para acabar com isso, pelo menos uma vez, a situação é invertida pelo projeto The Street Store (loja de rua, em inglês). Homens, mulheres e crianças puderam escolher o que levariam para casa. E de graça.

Ganhar, para quem não pode comprar, é questão de sobrevivência. Todos são gratos por isso. No entanto, poder olhar vários modelos de vestido, pegar o vermelho, porque é a cor de que mais gosta, e pôr na sacola, com orgulho, não tem preço. Nessa hora, é impossível segurar o sorriso. ;É uma sensação maravilhosa. Poder sair daqui com algo que eu não precisei pedir;, explicou a doméstica Maria Jandira Conceição da Silva, 33 anos. Ela e a família moravam em uma invasão no Setor Habitacional Lúcio Costa, no Guará. A última vez que comprou algo para ela e os filhos foi há um ano. Era para uma festa. Depois dessa ocasião especial, seguem a vida com a ajuda das outras pessoas. ;Já estou pensando em algo diferente para a gente fazer, para usar as coisas novas;, disse.

Assim como Jandira, pelo menos outras 150 pessoas nas mesmas condições, ou piores do que a dela, foram, ontem, até o Museu da República. Um grupo de sete estudantes da Universidade de Brasília (UnB), com a ajuda de voluntários de outras instituições de ensino, montaram uma loja ao ar livre, com produtos doados. O projeto The Street Store foi criado por uma ONG da Cidade do Cabo, na África do Sul, no início do ano passado, e objetiva diminuir a desigualdade. ;Ficamos sabendo disso e começamos a comentar com os amigos. Corremos atrás de patrocínio, fizemos financiamento coletivo e ainda tivemos muitos colaboradores. É muito bom ver que tem gente disposta a fazer o bem;, explicou uma das organizadoras, Marcela Nóbrega, 24, estudante de marketing.

Com a ajuda de um e outro, os estudantes conseguiram unir esforços e oferecer muito mais do que prevê o projeto original. Além das compras, os moradores de rua tomaram café da manhã, almoçaram, cortaram o cabelo, as crianças tiveram pintura de rosto e atendimento médico. Alunos de medicina fizeram atendimentos simples, como aferir pressão e dar orientações básicas. ;Falamos sobre alimentação, sobre a rotina deles, pois muitos não têm o menor suporte, para nada. E isso nos preocupa;, comentou a voluntária Isabela Diniz, 21, estudante de medicina na Faciplac. Francisca Oliveira da Silva, 34, aproveitou para ver se estava tudo bem com um dos filhos, que está gripado. Ela está grávida de cinco meses do quinto filho, mas não descuida da saúde de ninguém. ;Procuro sempre estar atenta. Vou todo mês ao posto de saúde;, afirmou.

Mais dignidade

Segundo Ana Carolina Cunha, 24, estudante de engenharia de produção da UnB, a mobilização foi por meio das redes sociais. Os alunos criaram uma página e divulgaram mais de 20 pontos de coleta de produtos. ;Tivemos muitas doações. Muitas mesmo;, comentou. Só de roupas, foram 6 mil peças. A iniciativa encheu de alegria recicladora Edilaine Gomes de Sousa, 29. Ela, o marido e três filhos moram em uma invasão no Noroeste. Ela conta que até comprou algumas coisas em loja, mas só para as crianças. ;Tem uma lojinha de R$ 10 na Estrutural. Só lá mesmo. É o que podemos. O resto é doação. Vir aqui e fazer diferente me deixa muito feliz. Traz um pouco de dignidade;, afirmou.

Cada mulher pode levar até quatro peças de roupa para si. Os homens, três. Para as crianças, esse controle ficou na base da conversa. ;A gente pondera com eles, fala para levar apenas o que mais gostou, e, na hora de separar os brinquedos, a gente fala que, se ele levar muitos, outras crianças ficarão sem. No fim tudo se resolve;, contou o voluntário Lucas Costa, 21, estudante de relações internacionais. Lucas, assim como os outros voluntários, abriu mão de outros compromissos para estar, antes das 8h, no Museu da República. ;Havia outras coisas para fazer, mas nada mais interessante do que isso aqui. Em um mundo como o nosso, temos que fazer algo para ajudar o próximo;, disse o jovem.



R$ 35mil
Total arrecadado por meio de financiamento coletivo


7
Estudantes organizaram o evento


60
Voluntários participaram da ação


150
Pessoas em situação de rua passaram pela The Street Store




Para saber mais

Ação feita com parceiros

Vários parceiros que participaram da ação foram os responsáveis por avisar aos moradores de rua que o projeto estaria, ontem, no Museu da República. Alguns já conhecem os pontos de moradia das pessoas, fazem entregas de sopas, por exemplo, e deram o recado. Sete ônibus com capacidade para 70 pessoas, cada um, foram emprestados para buscar os moradores de rua em quatro regiões diferentes do DF: Setor Comercial Sul, Taguatinga, Itapoã e Estrutural. No último dia 19, também ocorreu uma edição do projeto, na área aberta acima da Estação do Metrô do Guará. O The Street Store também já foi organizado em outras unidades da Federação, como Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul. A proposta é reunir roupas e sapatos doados e montar uma loja ao ar livre, na qual os produtos possam ser expostos de forma atraente, como em uma vitrine.

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