A tragédia que desafia o mundo

A tragédia que desafia o mundo

Entrada em massa de refugiados desconcerta os governos europeus e coloca em xeque a livre circulação de pessoas no continente. A imagem de um menino morto na praia, na Turquia, choca o mundo e dá um rosto à tragédia

postado em 03/09/2015 00:00
 (foto: Ferenc Isza/AFP)
(foto: Ferenc Isza/AFP)



Enquanto novos muros são erguidos e em meio a promessas de governantes que querem barrar a entrada de refugiados em seus países, a imagem de um menino de 3 anos, encontrado morto em uma praia da Turquia comoveu o mundo e chamou atenção para a tragédia humana que acompanha a crise migratória na Europa. A foto, que mostra a criança com o rosto virado para a areia, foi tirada na manhã de ontem, perto do balneário de Bodrum, e rapidamente ganhou as redes sociais. Desde o começo do ano, mais de 2,6 mil pessoas perderam a vida em viagens parecidas com a que o menino e a família tentavam fazer. Segundo registros da Agência Europeia de Vigilância de Fronteiras (Frontex), o número de refugiados que se arriscam no mar não para de crescer e deve pressionar ainda mais os governos europeus.

Sem um plano de ação conjunto, a resposta descoordenada por parte da União Europeia (UE) coloca em risco a segurança dos refugiados e a preservação do acordo que permite a livre circulação de pessoas dentro das fronteiras do Espaço Schengen ; que compreende 26 países europeus, 22 dos quais são membros do bloco. A aplicação de uma resposta comum dos 28 integrantes da UE será o tema central de uma reunião marcada para o dia 14. Sem acordo, o continente segue dividido e polarizado, e não esconde os contrastes de opinião sobre como lidar com a crise e com seus efeitos econômicos, políticos e sociais.

O chefe da diplomacia eslovaca, Miroslav Lajcak, advertiu ontem que a passagem dos refugiados está ;destruindo; o espaço de livre circulação. Ele pediu respeito ao acordos de Dublin, que determinam que o requerente de asilo apresente a solicitação ao Estado europeu pelo qual ingressou. ;Em tempos normais, é difícil obter um visto Schengen, mas agora dezenas de milhares de pessoas circulam sem qualquer controle;, disse Lajcak. ;Os migrantes passam livremente por países que são responsáveis por proteger as fronteiras;, lamentou.

A ministra do Interior da Áustria, Johanna Mikl-Leitner, também criticou o desrespeito aos acordos e acusou a Alemanha de provocar uma onda de pessoas transitando sem documentos pela UE ; o que, segundo ela, é efeito do anúncio de que o país não deportará os refugiados que lá chegarem para pedir asilo. ;Sempre adverti contra uma suspensão dos acordos de Dublin;, disse a minsitra ao jornal Die Presse. ;Estamos vendo os efeitos disso agora;, concluiu, fazendo referência aos mais de 2 mil barrados na Hungria.

Mecanismo permanente
Pressionada, a chefe do governo alemão, a chanceler Angela Merkel, defendeu uma ;distribuição justa; dos refugiados na UE e a oferta de ajuda a pessoas em situação de risco. A Alemanha sozinha deve receber mais de 800 mil refugiados até o fim do ano. ;Se a Europa fracassar na crise, a relação com os direitos civis universais será quebrada, ela será destruída;, alertou. O Ministério do Interior da Alemanha discute ;um plano ambicioso; de asilo, com a expectativa de que seja aprovado em até dois meses. A legislação deve prever a criação de mais abrigos para refugiados, oferecer mais dinheiro para estados e municípios que aceitarem acomodá-los e acelerar o processo de deportação dos que tiverem o pedido de asilo negado.

Natasha Bertauds, porta-voz da Comissão Europeia (braço executivo da UE), também defendeu um ;mecanismo permanente; para dividir equitativamente os refugiados. A ideia é amplamente defendida pelos países que servem como porta de entrada para o continente e há meses alertam para o aumento no fluxo. ;Os migrantes não chegam à Grécia, à Itália ou à Hungria. Eles chegam à Europa;, ressaltou o chanceler italiano, Paolo Gentiloni, que pediu mais solidariedade aos vizinhos. Vários governos do bloco, porém, rejeitam a imposição de cotas de imigrantes a serem recebidos em cada país, e argumentam que isso colocaria em risco a estabilidade interna. Em declarações para a rede BBC, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, disse não acreditar ;que a resposta (para a crise) seja receber mais e mais refugiados;.

Dos 4 milhões de pessoas que deixaram a Síria desde o início da guerra civil, em 2011, apenas 216 conseguiram asilo no Reino Unido, de acordo com informação divulgada na semana passada. Apesar de o país ser um dos destinos preferenciais entre os refugiados, o premiê prometeu que o total acolhido em solo britânico não passará de mil. Cameron desponta como um dos maiores opositores a um plano de ação conjunto. Ele defende que ;o mais importante é levar paz e estabilidade; para regiões em conflito no norte da África e no Oriente Médio, origem da massa de refugiados. Ele não apresentou, no entanto, propostas de curto prazo para conter a crise.



Naufrágio da consciência



A imagem do menino que perdeu a vida tentando chegar à Europa se tornou ícone da tragédia que leva milhares de refugiados à travessia do Mediterrâneo em botes improvisados. Milhares compartilharam a foto em redes sociais com a hashtag #KiyiyaVuranInsanlik (;A humanidade é um fracasso;, em turco). ;Alguns dizem que a imagem é muito ofensiva;, escreveu Peter Bouckaert, diretor da Human Rights Watch, em artigo no qual defendeu a decisão de divulgar a foto. ;O que eu acho ofensivo é crianças afogadas aparecerem nas nossas praias.; No Twitter, o jornal italiano La Repubblica disse essa é ;uma foto para calar o mundo;. Para o espanhol El Periódico, a cena ilustra ;o naufrágio da Europa;. A imprensa turca identificou o menino como Aylan Kurdi, de 3 anos. Ele, o irmão e outras 10 pessoas morreram quando o bote no qual viajavam virou.


Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação