Vidas secas

Vidas secas

A quarta-feira do brasiliense foi a mais quente %u2014 32,6°C %u2014 e com a umidade mais baixa no ano %u2014 17%. E a situação deve seguir assim nos próximos dias. Em queimada próxima a Santa Maria, fogo atingiu dormentes do trilho de trem e operações foram suspensas

» NATHÁLIA CARDIM » LUIZ CALCAGNO » BERNARDO BITTAR
postado em 03/09/2015 00:00
 (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) registrou o dia mais seco do ano no Distrito Federal. A umidade relativa do ar atingiu 17% e o termômetro de temperatura chegou a 32,6;C, a mesma marca registrada no dia mais quente do ano até agora. De acordo com a meteorologista Maria das Dores de Azevedo, os dias seguirão quentes e secos pelo menos até o feriado de 7 de setembro. Ela alertou que a umidade pode cair ainda mais nos próximos dias. O índice de 17% é muito próximo ao mais baixo considerado aceitável pela Organização Mundial da Saúde (OMS), de 15%. A Organização Mundial de Meteorologia (OMM) recomenda que, abaixo de 30%, os institutos emitam boletins especiais de previsão. O clima seco contribuiu para o maior incêndio do ano, às margens da BR-040, que atingiu trilhos de trem e suspendeu as operações até o início da noite de ontem.

Nos próximos dias, a umidade relativa do ar deve permanecer abaixo dos 30%. Para hoje, o índice de umidade deve variar entre 65% e 15% e a temperatura máxima pode chegar a 32;C. De acordo com o subsecretário de Operações da Subsecretaria de Proteção e Defesa Civil, coronel Sérgio Bezerra, o órgão mantém o estado de alerta em todo o DF e destaca a necessidade de a população beber bastante água e não praticar atividade física entre as 10h e as 17h.


Segundo o coordenador de otorrinolaringologia do hospital Santa Lúcia e membro da Sociedade Brasileira de Otorrino, Jaime Antônio Siqueira, com a seca também começam a aparecer alguns problemas de saúde. As crianças e os idosos são os mais vulneráveis. ;O calor, associado com a baixa umidade, deixa as vias aéreas sensíveis, com sensação de desconforto. As alergias e infecções virais são comuns devido à secura das mucosas nasais e da garganta;, explicou.

O brasiliense sente na pele o castigo da secura. ;Estou com bem mais sede e calor. Em 4km de corrida, tanto eu quanto meus cachorros paramos quatro vezes para beber água;, contou a dona de casa Flávia Carpas, 33 anos, que praticava exercícios físicos no Parque da Cidade no fim da tarde de ontem. Experientes, os moradores da capital sabem o que é preciso para manter a rotina, mesmo com a baixa umidade. ;Na verdade, achei a semana passada mais seca do que essa. Costumo tomar água várias vezes ao dia. Mas estou sentindo o nariz bastante ressecado. Nada que atrapalhe muito a corrida;, analisou o tradutor e intérprete Eustáquio Rosa, 57, também no parque.


Queimada
O clima facilita a propagação de queimadas. Só em agosto foram registrados 1.522 focos de incêndio no DF, ou seja, 49 casos por dia. Um deles dura três dias, consumiu a vegetação de uma área de 2.718 hectares e atingiu um trecho da linha férrea que passa no local.

A queimada às margens da BR-040, próximo a Santa Maria ; a maior do ano ;, fez com que as operações de trens fossem canceladas porque o fogo queimou os suportes de madeira do trilho. No terreno da Marinha onde as chamas insistem em arder, 670 homens usaram, até agora, 15 mil litros d;água. Na terça-feira, o Corpo de Bombeiros chegou a informar que os focos se extinguiram, mas eles voltaram durante a madrugada.

Entre um dia e outro, a área atingida dobrou. Inicialmente, 1.203 hectares foram devastados ; cada hectare é do tamanho de um campo de futebol. Entre os motivos apontados pela corporação para o retorno do incêndio está o aquecimento das raízes e dos troncos das árvores na Área Alfa. ;Essa vegetação acumula calor. A fuligem e a alta temperatura da madeira criam focos que entram em combustão;, explicou o tenente-coronel Gláuber de La Fuente, comandante da operação de combate.

Com o fogo nos dormentes dos trilhos de trem, os bombeiros resolveram pedir a suspensão da passagem de trens. ;Estamos fazendo uma vistoria em toda a região para saber se existe algum risco de descarrilamento;, afirmou o sargento Sidemar da Silva Neves. Em nota, a Ferrovia Centro-Atlântica (FCA), responsável pelo transporte, informou ter enviado uma equipe da empresa para o local. Por volta das 16h, a substituição dos dormentes de madeira danificados pelo fogo foi iniciada. ;A manutenção deve ser concluída ainda no início desta noite (de ontem), possibilitando a liberação do tráfego de trens na ferrovia. Não houve grandes impactos na operação ferroviária do trecho;, afirma a nota.

Embora o incêndio seja tratado pelo tenente-coronel La Fuente como ;extinto;, as equipes de combate devem ficar no local pelo menos até hoje pela manhã. ;Vamos sair quando estiver tudo 100% seguro;, completou. Depois que os bombeiros forem embora, homens da Marinha vão permanecer na região.

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