Sob pressão, BC mantém juro em 14,25%

Sob pressão, BC mantém juro em 14,25%

Apesar da disparada da moeda norte-americana e do descontrole fiscal, que têm impacto na inflação, Banco Central interrompe ciclo de arrocho monetário. Taxa real passa de 8% ao ano, a maior desde 2008

» ROSANA HESSEL
postado em 03/09/2015 00:00
 (foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil - 24/3/15)
(foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil - 24/3/15)



O Banco Central seguiu o script traçado pela maioria do mercado financeiro e manteve a taxa básica de juros (Selic) em 14,25% ao ano, interrompendo o ciclo de arrocho iniciado três dias depois da reeleição da presidente Dilma Rousseff, em outubro do ano passado. A decisão foi tomada por unanimidade em meio a um quadro complicadíssimo para a instituição, que vinha contando com o forte ajuste nas contas públicas prometido pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, para levar a inflação ao centro da meta, de 4,5%, até o fim do próximo ano. Agora, com o deficit de pelo menos R$ 30,5 bilhões em 2016 anunciado pelo governo, poderá haver mais pressão sobre o custo de vida, frustrando os planos do BC, cuja credibilidade ficou arranhadíssima ao manter uma postura leniente com a carestia no primeiro mandato de Dilma. Os juros reais, que descontam a inflação projetada para os próximos 12 meses, de 5,65%, estão em 8,1%, os maiores desde 2008.

A taxa de 14,25% ao ano é a maior desde 2006. Pelo comunicado divulgado logo após a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), ficou claro que a intenção do BC é a de manter os juros nesse patamar por um longo período. Dentro do governo a aposta é de que a Selic comece a cair já no início do próximo ano, devido ao aprofundamento da recessão e ao aumento do desemprego, que tendem a derrubar a inflação mais rapidamente. Os analistas, porém, acreditam em uma demora maior para a taxa básica da economia cair, sobretudo por causa do descontrole fiscal e da disparada do dólar, cujos preços já acumulam alta superior a 40% neste ano.

Para não se comprometer com os rumos da Selic em um ambiente hostil, o BC repetiu o comunicado da reunião de julho, quando os juros saltaram de 13,75% para 14,25% ao ano. ;Avaliando o cenário macroeconômico, as perspectivas para a inflação e o atual balanço de riscos, o Copom decidiu, por unanimidade, manter a taxa Selic em 14,25% ao ano. O Comitê entende que a manutenção desse patamar da taxa básica de juros, por período suficientemente prolongado, é necessária para a convergência da inflação para a meta no final de 2016.;

Diante disso, a economista Alessandra Ribeiro, da Tendências Consultoria foi enfática: ;Os juros devem se manter inalterados nos próximos seis a nove meses. Uma curva de queda só deverá ocorrer a partir do segundo semestre do próximo ano;. Para ela, nem mesmo o agravamento da recessão, explicitado pelo tombo de 9% na produção industrial de julho deverá antecipar uma decisão do BC de reduzir a Selic.

Desgaste


Na visão do empresariado, já que não pode baixar os juros, uma vez que a inflação está rodando os 10%, pelo menos foi um acerto a manutenção da taxa. Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Selic elevada ;contribui para a deterioração da atividade econômica, com impacto no mercado de trabalho e na renda das famílias, afetando a dinâmica futura da inflação;. Para o diretor do Departamento de Pesquisas Econômicas do Bradesco, Octavio de Barros, qualquer mudança agora nos juros teria um desgaste maior, porque o BC havia sinalizado na última reunião que deveria manter a taxa. ;A decisão foi a mais correta, evidentemente, porque traz menos ruídos em um momento tão complexo como o que estamos atravessando;, explicou.

Segundo o diretor de Pesquisas Econômicas para América Latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos, como houve forte mudança no câmbio desde a última reunião do Copom, devido à piora no quadro político e econômico, o BC precisa analisar, com mais calma, todos os dados antes de tomar decisão sobre mudanças. Ele lembrou que a política monetária está bastante restritiva e a área fiscal, muito ruim. ;Houve alguns movimentos negativos em relação à inflação, devido à alta do dólar e à revisão inesperada da trajetória fiscal;, assinalou. No entender de Janckiel Santos, do Besi Brasil, apesar da alta do dólar, a desaceleração da economia levará a inflação para baixo, reduzindo as preocupações do BC.

Promessa desfeita
O economista-chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges, acredita que, com a manutenção da taxa básica de juros (Selic) em 14,25%, o Banco Central terá que ser mais claro nos próximos comunicados ao mercado, nos quais reconhecerá que não deverá atingir o centro da meta, de 4,5%, em dezembro de 2016. ;Com o surto de alta do dólar, o BC deve manter a Selic inalterada até o fim do ano, mas, em algum momento, vai alterar o discurso de que não conseguirá cumprir a meta em 2016;, afirmou. Ele destacou que, na melhor das hipóteses, a inflação só cairá para 4,5% em 2017.

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