Menos carros

Menos carros

Warner Bento Filho warnerbento.df@dabr.com.br
postado em 03/09/2015 00:00


Agora que a venda de carros novos está caindo, talvez seja bom momento para o país encarar de verdade nosso megaproblema de mobilidade urbana. Nos últimos anos, o Brasil se meteu numa encrenca: o governo começou a subsidiar a venda de automóveis por meio da redução de imposto, e eles passaram a entupir ainda mais as cidades.

Brasília ultrapassou a marca de 1 milhão de veículos em circulação em 2008. Nas contas do Detran, fechamos o ano com 1.046.638. Em 2014, a frota já havia crescido mais meio milhão, batendo em 1.563.382. Agora em 2015, até julho, foram quase 40 mil veículos novos e já chegamos a 1,6 milhão. As cidades foram tomadas pelos carros, na contramão do que manda o bom senso e do que determina a legislação.

A Lei da Mobilidade Urbana, de 2012, estabelece a prioridade dos modos de transporte não motorizados sobre os motorizados e do transporte público sobre o transporte individual. O que se vê, no entanto, é o contrário: os carros botando o terror na maior parte do espaço destinado aos deslocamentos, enquanto os ônibus ficam restritos a corredores (onde há), e as bicicletas são vistas quase como algo infantil. E nem falamos de metrô, trens, veículos leves sobre trilho e outros modais.

Para resolver o problema, abrimos mais vias, mais pistas, mais pontes, mais espaço para os carros rodarem sem engarrafamentos, e aí andamos mais de carro e tudo trava de novo. É óbvio que a solução não está em dar cada vez mais espaço para os carros, mas justamente no contrário: restringir a circulação deles, privilegiando o que a lei manda priorizar. Os carros são responsáveis por cerca de 30% dos deslocamentos, mas ocupam praticamente todo o espaço, rodando ou estacionando.

É preciso inverter a discussão e deixar para o transporte individual o espaço que lhe corresponde. Ao mesmo tempo, os governos (todos) precisam investir pesado em transporte público, seja na infraestrutura, seja na prestação do serviço. Finalmente, o serviço tem que ser eficiente e barato. Ninguém vai abrir mão do carro enquanto ele for mais rápido, mais limpinho e tiver o monopólio do ar condicionado.

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