Cada um no seu tablet

Cada um no seu tablet

Levantamentos nacionais e internacionais apontam para o crescimento do uso cada vez mais privativo de dispositivos móveis entre crianças brasileiras. O local preferido para acessar a web é o quarto

postado em 03/09/2015 00:00
 (foto: Carlos Moura/CB/D.A Press)
(foto: Carlos Moura/CB/D.A Press)


Há tempos a internet não é lugar frequentado apenas por adultos. As crianças aprendem a navegar na web antes mesmo de amarrar os cadarços. Um levantamento da AVG Technologies comprova que 57% dos pequenos de até 5 anos sabem usar aplicativos em smartphones, mas só 14% são capazes de dar um laço nos cordões dos sapatos. Além de ter acesso a dispositivos eletrônicos cada vez mais cedo, o público infantil tem uma tendência ao uso privativo da internet. As informações são do relatório mais recente da ICT Kids Online Brazil. Realizado com pessoas de 9 a 16 anos, o estudo indica que meninos e meninas acessam a rede principalmente de casa. E o Brasil é onde as crianças mais acessam a internet por dispositivos móveis, como smartphones e tablets ; um terço delas estão conectadas.
Os pesquisadores entrevistaram também crianças de outros sete países (Bélgica, Dinamarca, Irlanda, Itália, Portugal, Romênia e Reino Unido), com o objetivo de mapear as condições de acesso e uso da web por esse público. A tendência ao uso cada vez mais privativo é apenas um dos resultados apresentados. Os estudiosos descobriram até o cômodo preferido das crianças: o quarto (tanto o próprio quanto o aposento de outros membros da família).

Apesar do amplo acesso à web dentro de casa, a realidade não é a mesma no ambiente escolar. A pesquisa chama a atenção para o pouco uso da rede nas escolas brasileiras. Os números indicam, no mínimo, a necessidade de avançar em inclusão digital: apenas um terço dos entrevistados relataram ter internet disponível no colégio. Em contrapartida, o país está à frente de nações como Bélgica e Portugal no uso de dispositivos móveis pelos pequenos e na presença de crianças de 9 e 10 anos nas redes sociais.
É o caso de Leonor de Lima, 9 anos, que usa tablet há dois. Onde estuda, o dispositivo não é protagonista. Ela leva o aparelho para a escola uma vez por semana para fazer pesquisas. O uso acaba acontecendo mais em casa. A mãe, Cláudia Guerreiro, 46, limita a duas horas diárias o tempo que a filha fica on-line. ;É bom que ela faça outras atividades fora de casa, para sair um pouco do universo eletrônico;, comenta. A família aposta no diálogo: ;O tablet é um instrumento de consulta, uma ferramenta tecnológica, como a televisão. Orientamos quanto ao cuidado com as informações e a privacidade;, diz Cláudia.

Perfil

Leonor prefere usar o dispositivo para jogar, mas também coloca a leitura em dia com os e-books. Um dos prediletos, Alice no país das maravilhas, foi lido no tablet. A garota tem perfil no Facebook desde os 7 anos de idade, mas considera os aplicativos móveis mais divertidos. Sua rede de amigos no site de relacionamentos conta com apenas 17 contatos ; segundo ela, membros da família e colegas da escola. A menina é exceção à regra: o estudo da ICT Kids Online Brazil mostra que grande parte do público infantil valoriza ter grande número de contatos on-line e demonstra pouca preocupação com manutenção de perfis públicos nessas redes. No Brasil, mais da metade das crianças (54%) afirma ter mais de 100 contatos e 42% dos brasileiros possuem perfil totalmente público ; essa proporção é de apenas 15% na Itália, por exemplo.

Outra garota que começou a usar tablet com 7 anos é Amanda Baracho, 9, que hoje tem um smartphone. O pai, Thiago Baracho, 28, afirma que a decisão de dar o aparelho à filha dependeu mais dela do que dele. O foco é na responsabilidade: Amanda já era capaz de tomar cuidados para não estragar ou perder o dispositivo. As preocupações de Thiago giram em torno de privacidade e segurança. ;Como o celular é vinculado ao meu e-mail, posso acompanhar tudo que é baixado nas lojas de aplicativos e números adicionados aos contatos dela;, esclarece.
Ele afirma, ainda, que costuma orientar a menina a não conversar com estranhos. Além disso, o tempo de uso diário é limitado. Amanda tem acesso ao WhatsApp ; único aplicativo de troca de mensagens permitido pela família ; e não leva o aparelho para a escola.



Vídeos e redes sociais

Assistir a vídeos de música ou de temas variados e utilizar redes sociais são as atividades mais citadas por crianças e adolescentes entre 11 e 16 anos em todos os países contemplados pelo estudo. Os dinamarqueses (70%), romenos (58%), irlandeses (49%) e britânicos (49%) preferem assistir aos vídeos on-line, enquanto as redes sociais aparecem como a principal atividade para adolescentes italianos (59%), brasileiros (52%), portugueses (50%) e belgas (48%).


De pai para filho

As crianças adoram dispositivos touchscreen. Quem está mais atento a isso são os pais: uma pesquisa da Nielsen feita em 2013, nos Estados Unidos, demonstrou que mais de três quartos (78%) dos pais que possuem tablets deixam seus filhos com menos de 11 anos usarem os aparelhos em casa. A maioria dos responsáveis (54%) disse que os filhos usam o equipamento para fins educacionais. Entre os que não deixam as crianças usarem os dispositivos, 20% afirmaram que permitiriam o acesso caso houvesse mais conteúdo educativo disponível.

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