Amigos, mas de lados opostos

Amigos, mas de lados opostos

Duas associações de moradores divergem quanto às derrubadas na orla do Lago Paranoá. Uma reclama de suposta ilegalidade por parte do governo; a outra defende o meio ambiente e desenvolve projeto de praias públicas no local

João Gabriel Amador Especial para o Correio
postado em 03/09/2015 00:00
 (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press - 28/8/15)
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press - 28/8/15)


Os nomes podem confundir, mas a Associação Amigos do Lago Paranoá (Alapa) e o Movimento Amigos do Lago Paranoá têm visões bastante diferentes sobre a desobstrução da orla do espelho d;água. A primeira, formada por moradores da região, foi responsável pela ação que concedeu uma liminar contra a operação capitaneada pela Agência de Fiscalização do Distrito Federal (Agefis). Porém, a conquista judicial acabou derrubada, e o órgão do Governo do Distrito Federal obteve o aval para demolir cercas e lacrar imóveis que estivessem em áreas consideradas irregulares.

Assim, na segunda-feira, 24 de agosto, equipes da Agefis, do Instituto Brasília Ambiental (Ibram), da Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap) e de outras instituições começaram a operação, que, durante uma semana, passou pelas QLs 10 e 12, entre o Parque da Asa Delta e a Península dos Ministros, no Lago Sul. Apesar da derrota, a Alapa segue representando os moradores, que se queixam da forma como as ações foram realizadas.
Para o presidente da associação, Marconi de Souza, o principal problema tem sido o embate com os visitantes. ;O governo tem criado intrigas entres as classes sociais. Eles (governo) tomaram as decisões sem consultar a comunidade local, mas pedem a opinião e incentivam a ocupação de uma área residencial pela população de outras regiões;, reclama Marconi (veja Ponto crítico).

Outra queixa está na legalidade das ações. Segundo o presidente da Alapa, a medida de 30m estipulada para a orla não condiz com o código florestal vigente. ;O artigo 62 consta que, no caso de lagos artificiais, como o Lago Paranoá, a medida entre a margem e os lotes é de, aproximadamente, 5m;. A forma como as equipes trabalharam também é alvo de críticas. ;Não se pode passar tratores e derrubar árvores assim. Isso é um crime ambiental;, contesta.
A falta de segurança também é apontada como consequência da desobstrução da orla, como denuncia Marconi. ;Desde que as cercas foram derrubadas, foram várias as queixas e as ocorrências na região. Houve furtos, invasões. Um homem arrombou uma garagem na QL 16, colocou o carro lá e foi pescar, dizendo que o local era público;, conclui.

Potencial náutico

Se as reclamações são a tônica de um lado, as previsões positivas são destacadas pelo Movimento Amigos do Lago Paranoá. Segundo Guilherme Scartezini, coordenador do grupo, o principal benefício está no âmbito ambiental. ;A desobstrução é um primeiro passo para recuperar as funções ambientais das Áreas de Proteção Permanente (APPs) em torno do lago. Esses locais formam um corredor ecológico, capaz de dar mobilidade à fauna e flora local;, explica.

O também técnico ambiental acredita que, além da natureza, a população será beneficiada. ;As pessoas, provavelmente, serão impedidas de frequentar as localidades onde a movimentação de animais e plantas é mais intensa. Mas em lugares onde existem parques, a tendência é de que os espaços retomados se tornem extensões para uso público, com áreas de lazer e convívio. Respeitando, claro, a sustentabilidade do ambiente;, ressalta Scartezini.

O grupo conta, ainda, com um projeto para melhor explorar o potencial de turismo náutico do reservatório. ;Seriam 16 praias públicas, interligadas por ciclovias e linhas de ônibus, para que as pessoas possam curtir o lago e praticar esportes, com terminais náuticos para passeios de barco. Assim, todos poderiam usufruir, sem colocar pressão sobre os recursos naturais em um único lugar;. O planejamento foi apresentado ao Ibram, e os integrantes esperam o apoio popular, por meio de uma petição no site do grupo.


Ponto crítico

O senhor é a favor das ações de
desobstrução da orla do Lago Paranoá?


SIM

; Guilherme Scartezini, coordenador do Movimento
Amigos do Lago Paranoá

;A desobstrução é um primeiro passo para recuperar as funções ambientais das Áreas de Proteção Permanente em torno do lago. O reflorestamento adequado permitirá a mobilidade da fauna e da flora locais, formando um corredor ecológico. E nos espaços em que já havia parques, a tendência é de que haja extensões para o uso da população, com ciclovias, pontos turísticos, locais de lazer. O benefício pode ir além, com a possibilidade da melhor exploração do potencial de turismo náutico de Brasília, com passeios no lago ; respeitando, claro, a sustentabilidade local. Temos proposta também para a criação de 16 praias públicas na orla, interligadas por ciclovias, para que os moradores do DF possam aproveitar melhor o lago.;

NÃO

; Marconi de Souza,
presidente da Associação Amigos do Lago Paranoá (Alapa)

;O governo tem usado essa ação para criar intrigas entre as classes sociais.
Essa operação contradiz o projeto urbanístico de Lucio Costa para Brasília, que previa uma área de lazer em um lado do lago e uma parte residencial na margem oposta. E a forma como a operação foi conduzida constitui crime ambiental. Não se pode passar tratores e arrancar árvores como foi feito. Além disso, após as derrubadas de cercas, temos diversas ocorrências policiais na região. Há casos de furtos, invasões e até mesmo um barco que passou com pessoas nuas em frente às residências. Sabemos que o governo está em situação deficitária e não tem dinheiro para investir na estrutura dessas áreas. Estamos com medo.;

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação