Contaminação menosprezada

Contaminação menosprezada

Organizadores minimizam problemas médicos de atletas que competiram na Baía da Guanabara

AMANDA MARTIMON
postado em 03/09/2015 00:00
 (foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)
(foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)

Dois atletas estrangeiros que competiram recentemente em eventos-testes dos Jogos do Rio na Baía de Guanabara culparam a água poluída por problemas de saúde. Mas, para o Comitê Organizador Local e a Autoridade Pública Olímpica, os casos não são significativos porque foram isolados.


Em audiência na Câmara dos Deputados, ontem, o presidente substituto da APO, Marcelo Pedroso, defendeu a escolha do local, apesar das críticas e reclamações de atletas. ;Não trabalhamos com a possibilidade de outro local de competição, confiamos no trabalho que está sendo feito;, avisou. Antes, questionado sobre um dos atletas que passou mal após disputa na Baía de Guanabara, Pedroso tratou com tom de menor gravidade. ;Em mais de 300 competidores, um caso como esse não necessariamente significa que foi oriundo do contato com a água;, opinou.


Fazendo coro na teoria de casos isolados, a gerente de Sustentabilidade do Comitê Organizador, Tânia Braga, também minimizou o tema. ;Um caso entre 300 e tantos atletas, epidemiologicamente, não é significativo.;


Entre piadas dos deputados que já caíram nas águas da Baía de Guanabara, no passado, e os que jamais teriam coragem, a audiência da Comissão de Esporte começou descontraída. A ponto de a brincadeira chegar ao velejador sul-coreano Wonwoo Cho. Ele relatou febre, vômitos e dor de cabeça depois de competir no local, mas, após atendimento médico, voltou à disputa em dois dias. O retorno dele à prova acabou sendo motivo de comentários de que o caso não foi tão grave assim. ;Ele até teve um bom resultado;, ressaltaram.


Piada sem graça
Depois, porém, um dos mais conceituados infectologistas do Brasil, Marcos Boulos, tirou a graça da piada. Para ele, o atleta deve, sim, ter contraído alguma toxina nas águas. ;A toxina é produto da bactéria, como um veneno, e você vomita para expulsar. Pelos sintomas, parece uma toxina. Quando você a coloca para fora, você fica bem. Isso justifica o fato de ele ter ficado bem e competido no dia seguinte;, explicou. A opinião do especialista, porém, é diferente para o caso do alemão Erik Heil, que contraiu germes multirresistentes após a prova. Nesse caso, a bactéria identificada não é encontrada em água.
Ao minimizar o caso, a gerente de Sustentabilidade do Rio-2016, Tânia Braga, afirmou que o Comitê acompanhou a melhora do atleta a distância, pois ele ; que culpa as águas contaminadas pela infecção ; só descobriu o problema no retorno para a Alemanha. ;Não podemos dizer que foi na Baía nem que não foi. Ele lançou uma hipótese, mas que não foi comprovada;, afirmou.


Para diminuir os riscos, as provas dos Jogos do Rio-2016 na Marina da Glória, parte mais crítica da Baía de Guanabara, serão realizadas distante da orla, onde as águas correntes diminuem o nível de contaminação. Segundo o Comitê, nesses locais, a água atende aos padrões internacionais para eventos esportivos.

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