Brasil escrachado

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Em Mulheres no poder, Dira Paes vive uma senadora envolvida em fraude de licitação: filme é atual e fala de política de um jeito debochado

» Nahima Maciel
postado em 03/09/2015 00:00
 (foto: Downtown Filmes/Divulgaçao)
(foto: Downtown Filmes/Divulgaçao)



Na pele da senadora Maria Pilar, a atriz paraense Dira Paes encara de frente a comédia. Não tem medo dos exageros, um artifício, segundo ela, para provocar a risada, e se traveste de congressista para contar uma história cada vez mais comum no cotidiano do congresso brasileiro. Mulheres no poder, sexto filme do carioca Gustavo Acioli, se passa num futuro não tão distante, no qual as mulheres comandam a política, os homens lutam por cotas no parlamento e a corrupção continua a mesma, praticada sem pudores e com a certeza da impunidade.

Pilar luta para fraudar uma licitação antes que a ministra responsável o faça ela mesma. Na trama, envolve os assessores, o motorista, amigos e qualquer ser humano que passar pela frente. No Congresso imaginado por Acioli (e não muito distante da casa de hoje), oposição e governo agem juntos quando é de interesse comum, e as mulheres são tão vorazes quanto o gênero oposto se o assunto for benefícios e vantagens. Em entrevista, o diretor contou que, além de jornais e dos textos de colunistas como Millôr Fernandes, ele tem como referência programas de humor. Viva o gordo é um deles. A atuação de Dira segue a linha desfiada por Acioli: a atuação quase caricata é proposital, até porque, ela lembra, é preciso fazer o público rir.

Dira acompanhou a pré-estreia do filme em Brasília, na semana passada, e acha que a fita acertou no tom. Ela acredita que o longa reflete uma realidade, mas que o país vive uma transformação. ;Ainda bem que a gente está vivendo um momento de revelação da corrupção. Ela sempre esteve aí, todos esses fatos sempre aconteceram e não só no Brasil como no mundo;, diz. ;O que eu acho muito bom é a gente poder ver, hoje em dia, isso estar em julgamento, estar sendo discutido. É uma tentativa de transformação de uma prática que existe há tanto tempo e estava instaurada no Brasil.;

Na última década, Dira Paes andou mais pela televisão do que pelo cinema, uma opção que ela encara como saudável e bem-vinda. Com Solineuza, virou o rosto simpático e engraçado de A diarista entre 2003 e 2007. Em Salve Jorge (2012), fez Lucimar, mãe de Morena, a moça enviada à Turquia como escrava sexual. No ano passado, foi a vez de Amores roubados e da minissérie O rebu. ;Estou muito feliz. Estou fazendo televisão continuamente há 11 anos, quase todo ano com um produto novo. Consegui passear por vários nichos que acho que fazem uma palheta de diversificação;, garante. Abaixo, Dira Paes fala sobre o tema do filme, o Brasil de hoje e a proximidade com a televisão.

>> ponto a ponto Dira Paes
Maria Pilar

Exagero é uma tendência para a comédia. Na comédia, você tem que marcar onde você quer que o público perceba a piada. O personagem é um deboche das situações esdrúxulas que a gente vê nos noticiários. Os exageros estão na vida real, não no filme. O filme é uma composição para agradar o público, para tornar mais interessante. Na sessão com o público espontâneo, a gente viu que funciona muito bem. O personagem não é inspirado em uma pessoa mas nos fatos, e não em uma pessoa. A criação do personagem é livre.

Atualidade
O grande trunfo é que o Gustavo (Acioli), como bom entendedor de política brasileira, já tinha consciência disso. Hoje o público entende o que é uma licitação, uma delação premiada, um processo, uma abertura de envelopes. São linguagens que se aproximaram muito do público.


Mulheres
No mundo, existem mais mulheres do que homens, então há um desequilíbrio de oportunidades entre mulheres e homens. A questão do gênero mostra como isso é ultrapassado. O gênero humano é que tem que ser valorizado. Independentemente de ser mulher ou homem, sofremos das mesmas influências, da tentação ou do mérito. Eu diria que o filme não critica as mulheres, ele faz uma crítica a essa realidade masculina. A gente vê o domínio total do número de homens em relação ao número de mulheres que administram o Brasil. A gente tem uma presidenta, mas ela está cercada de um universo masculino. Na Inglaterra, há uma campanha muito ferrenha, uma tentativa de reverter ou pelo menos abrir um espaço para que as mulheres possam realmente ocupar cargos em todas as áreas.

O longa
O filme é uma maneira de você desopilar de uma realidade que é muito dura. E manter o bom-humor, porque ficar de uma maneira odiosa falando sobre esse assunto é muito desgastante. Acho que público merece rir de si mesmo.

Revolta
Lógico, tem uma parcela de revolta porque a gente não está falando de 20 anos, a gente está falando de 500 anos, em que as regras, uma constituição, um estatuto do adolescente não são respeitados, onde a gente tem que lutar pelos direitos do povo. Então, lógico, tem uma insatisfação quando a gente vê que as pessoas nas quais a gente confia não estão trabalhando pelo povo e sim pelos próprios interesses.

Esperança
Tenho muito orgulho das pessoas que elegi. Tenho muito orgulho dos deputados, vereadores, senadores. Meu voto é consciente e tenho certeza das pessoas para as quais dou esse voto de confiança para me representarem. Acho que essa é a grande transformação. O brasileiro tem que trocar o ódio pela consciência, porque é muito fácil você esbravejar e não ter atitude, isso não transforma nada. O ódio não serve para nada. Agora o ódio como indignação de mudança pode ter uma atitude transformadora de uma sociedade.

Corrupção
É muito importante a gente lembrar que hoje vivemos um momento de tentativa de transparência e isso nunca foi visto antes no Brasil. Isso tem que ser aplaudido. A gente vê um Ministério Público querendo atuar, a promotoria pública querendo atuar. A gente vê uma tentativa de resgatar uma idoneidade pública e isso é muito valioso. A corrupção não tem partido. Quem dera. A corrupção está instaurada, é crônica. A gente precisa, na verdade, entender o que queremos de mudança e procurar as pessoas nas quais realmente temos uma confiança para tal.

Televisão
Hoje, todo mundo faz imagem. A imagem se unificou. A comédia sempre teve esse tom mais popular, a comédia invade você de uma maneira mais popular. O que é mais popular? A televisão. Mas a televisão tem buscado uma linguagem mais cinematográfica. Várias séries e a própria novela estão buscando uma linguagem mais cinematográfica e o cinema está buscando sua popularidade numa imagem televisiva. Acho que está havendo uma troca. Acho saudável tanto a televisão buscar uma linguagem ci

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