Fumo virtual, vício real

Fumo virtual, vício real

Estudos recentes mostram que o e-cig pode levar os jovens a se viciarem no cigarro tradicional e em outros produtos com tabaco, como os narguilés

postado em 12/09/2015 00:00
 (foto: Elizabeth Shafiroff/Reuters - 2/8/14)
(foto: Elizabeth Shafiroff/Reuters - 2/8/14)

Com design sofisticado e envolto de boas intenções, o cigarro eletrônico é foco de um desencontro que tem como tema justamente o seu principal atrativo. O artefato surgiu como alternativa a fumantes dispostos a combater a dependência de nicotina, pregam principalmente os fabricantes. Pesquisas recentes mostram, porém, que o e-cig pode consolidar os primeiros passos de jovens e adolescentes rumo ao consumo de outros produtos nocivos do tabaco, como o narguilé.

Cada vez mais adeptos de objetos tecnológicos, jovens que fumam o e-cig tendem a ser duas vezes mais propensos a experimentar outros produtos do tabaco do que aqueles que nunca usaram o artefato. Além disso, há um crescente número de usuários desse cigarro moderno que passam a usar o convencional ; fazendo o processo inverso ao de quem usa o dispositivo eletrônico para aplacar o vício. Ambos os resultados fazem parte de pesquisas feitas na Universidade do Sul da Califórnia e na Universidade de Pittsburgh, as duas norte-americanas, e publicados em agosto e setembro na revista norte-americana Jama.

Para especialistas, os dados reforçam o receio de agentes de saúde e cientistas quanto ao risco de surgimento de uma nova onda de fumantes jovens, semelhante à que marcou os anos de 1970 e 1980. Nos Estados Unidos, onde o comércio do e-cig não tem regulação, cerca de 2 milhões de adolescentes o usavam em 2014, o triplo do número levantado um ano antes, também pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças do país. Não há dados oficiais sobre o número de usuários no Brasil, mas o comércio do dispositivo é proibido há seis anos (Leia Para saber mais).

O e-cig tem bateria, cartucho com nicotina e outros elementos ; como aromatizantes ;, além de um atomizador. Ao tragar o cartucho, o atomizador é ativado e produz vapor, inalado pelos usuários. Se, para muitos, esse vapor não parece nocivo, há um alerta do professor de medicina preventiva e psicologia Adam Leventhal, principal autor do estudo feito na Universidade do Sul da Califórnia: ;A nicotina é uma droga altamente viciante, particularmente quando inalada. Os adolescentes que usam e-cigs podem desfrutar dos efeitos prazerosos da inalação de nicotina presente no vapor e se tornarem dependentes;.

A partir dessa primeira experiência com o cigarro eletrônico, esses adolescentes ficam mais abertos para testar outros produtos que oferecem nicotina inalada, como cigarros, narguilés, cachimbos e charutos, indicou o estudo conduzido por Leventhal. ;Os e-cigs não são uma diversão sem riscos. Eles podem aumentar a probabilidade de iniciar o uso de produtos nocivos do tabaco fumável em quem nunca fumou;, ressalta o pesquisador em entrevista ao Correio.

Análises

Preocupados com o consumo do cigarro eletrônico cada vez maior e mais cedo pela população, os pesquisadores das instituições norte-americanas se concentraram em públicos diferentes entre 2012 e 2014. O estudo da Universidade do Sul da Califórnia foi realizado com 2.500 estudantes locais, de 14 e 15 anos, durante 2013 e 2014. Os cientistas observaram que aqueles que, no início da análise, informaram o consumo apenas de e-cig passaram a usar também o convencional, narguilés e charutos.

De forma complementar, a pesquisa da Universidade de Pittsburgh entrevistou 694 norte-americanos com 16 a 26 anos, ao longo de 2012 e 2013. Do total de participantes que afirmaram usar apenas cigarro eletrônico, 68,9% passaram a fumar o cigarro convencional um ano depois. ;Esses resultados sustentam regulações que limitem a venda e diminuam o apelo de e-cigs entre jovens e adolescentes;, conclui o estudo.

Leventhal lembra, porém, da importância de fazer uma distinção entre o uso recreacional do e-cig e o feito por fumantes que querem reduzir o vício ou até mesmo parar de fumar. ;Ainda não há pesquisas suficientes, apenas indícios de que o cigarro eletrônico reduz a dependência do cigarro convencional. Mas todas as formas de diminuir os efeitos do tabagismo sobre a saúde da população devem ser consideradas e estudadas a fundo, incluindo o uso desse dispositivo como uma estratégia;, destaca o psicólogo.

Vigilância

Embora o comércio do e-cig tenha sido proibido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 2009, o uso dele não é crime no país. Por isso, comunidades médicas de luta contra o tabagismo têm alertado para uma maior vigilância, principalmente entre os jovens. ;O slogan do e-cig é a liberdade. Liberdade de poder fumar em lugares fechados, driblando as normas de vários países. Mas se trata, na realidade, de uma prisão futura por causa da dependência e do consumo de outros produtos altamente nocivos, como o narguilé;, observa o cardiologista Lázaro Miranda, conselheiro da Sociedade Brasileira de Cardiologia.

Sobre um possível uso terapêutico do cigarro eletrônico por quem quer reduzir o consumo de tabaco, Miranda nota que não há comprovação científica, mas estatísticas levantadas pela indústria tabagista. ;Há o controle da quantidade de nicotina nesse tipo de cigarro, mas ela ainda está lá. Por isso, se houver a liberação do comércio no Brasil, deve ser seguida de regulação, como a que existe para bebidas alcoólicas e outros produtos do tabaco;, defende.

Pneumologista e professor de medicina da Universidade de Brasília, Carlos Alberto Viegas considera o e-cig um passo atrás no combate ao tabagismo. ;É um engano acreditar que ele reduz a dependência porque mantém o vício comportamental mesmo sem nicotina;, ressalta. ;Acaba sendo ainda mais nocivo do que o cigarro convencional porque atrai fumantes que querem usá-lo em ambientes onde o convencional é proibido, gerando um consumo combinado.;


Para saber mais
Narguilés em alta no Brasil



Preocupados com formas não convencionais de fumo, órgãos de luta contra o tabagismo pressionam o Ministério da Saúde e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para a fiscalização do comércio ilegal de cigarros eletrônicos, alertando também para o uso crescente de narguilés no país. De acordo com dados publicados, neste mês, pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca), há pelo menos 212 mil fumantes de narguilé no país. Além disso, o número de consumidores jovens desse tipo de vaporizador subiu de 2,3% em 2008 para 5,5% em 2013.

Um dos motivos para o aumento de jovens adeptos do narguilé seguido da queda de fumantes do cigarro convencional é a crença de que o vaporizador é menos nocivo à saúde, acredita o Inca. Mas é justamente no vapor do narguilé que está o perigo. Isso porque as substâncias tóxicas são inaladas sem passarem por um filtro, o que ocorre também no cigarro eletrônico.

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