Com o ipê no corpo e na alma

Com o ipê no corpo e na alma

Brasilienses usam a árvore símbolo da cidade, o ipê, para fazer declarações de amor eternizadas em forma de tatuagem

» ROBERTA PINHEIRO
postado em 12/09/2015 00:00
 (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)






Imprimir palavras em papel não seria suficiente. Foi preciso desenhar no próprio corpo para dar forma e cor ao sentimento. ;Quis grudar em mim esse amor por vocês, quis mostrar pro mundo que é por vocês que vivo e que sou o que sou (...). Esse ipê é para me lembrar das raízes de onde vim, do que eu sou e no que ainda vou me tornar. Cada assinatura que contém nos galhos só me faz ter força para seguir em frente e crescer como uma árvore. Vocês serão o meu ;para sempre; em tudo o que acontecer.; Com esse trecho escrito em uma carta e munida de um quadro com desenho de ipê-amarelo, a administradora Stella Martins de Araújo Meireles, 24 anos, chegou à casa dos avós para avisar o que havia feito: uma tatuagem para homenageá-los. ;Mas não briguem comigo;, alertou logo de início.

Em 30 de junho desse ano, ela marcou na pele o amor da família. ;Sempre quis fazer algo para eles (avós). Na casa das minhas duas avós tem o mesmo quadro de ipê- amarelo. Além disso, sempre achei a árvore praticamente brasiliense;, explica. Apaixonada por tatuagem ; ela tem cinco ; Stella viu um dia um desenho de árvore da tatuadora Ana Abrahão em um perfil nas redes sociais. Começou a seguir as postagens da profissional. Com o tempo, a administradora ficou encantada pela qualidade e pelo perfeccionismo do trabalho. Este ano, entrou em contato com Ana e marcou horário. Além do ipê, Stella queria trazer nos galhos da planta a assinatura dos quatro avós ; Lena, Marco, Solange e Dilermando, com a letra deles. Ela procurou cartas e bilhetes antigos que os avós tinham enviado à neta. Dali retirou o que queria. Para ter a caligrafia do avô Dilermando, ela precisou recorrer a outra fonte, pois ele já havia morrido.

Depois de um ano de planejamento, sem a família saber, e de três horas de sessão no estúdio da tatuadora, quando a administradora olhou o resultado veio primeiro o susto pelo tamanho da tatuagem, mas, em seguida a admiração pela delicadeza. Um ipê-amarelo florido, com tons alaranjados para destacar na pele, e um coração no tronco. ;Simboliza a minha base, o meu chão para o que vou enfrentar na vida e demonstra as minhas raízes brasilienses. Está gravado em mim;, afirma Stella.

Reação


Feita a tatuagem, era hora de mostrar aos homenageados. Com o quadro e a carta, Stella foi visitá-los. Quando viu, a vó Lena chorou e abraçou a neta. O avô Marco, que não é fã de tatuagens, leu primeiro a carta. ;Depois disse: ;Que feio;. Quando olhou direito e viu a assinatura, disse: ;muito obrigado, mas não precisava dessa homenagem;;, relembra a administradora aos risos. Na segunda casa, a preparação foi um pouco maior, mas, ao ver a caligrafia do marido, a avó Solange não escondeu a emoção. ;Estou honrada;, afirmou. Agora, Stella já pensa na próxima tatuagem. Desta vez, em consideração aos pais. ;Provavelmente, será inspirada na Sagrada Família;, conta. Com mudança para a capital paulista marcada para amanhã, a administradora sabe que terá sempre ao seu lado a força da família.

Sem se conhecerem e hoje vivendo em cidades diferentes, a administradora Stella e a cientista política Thaís Frabetti, 23 anos têm muito em comum. As duas trazem nas costas um ipê como memória da família. E no caso de Thaís, a inspiração também veio de uma das avós. ;Escolhi desenhar a planta porque tem um significado para a minha família. O sítio, no interior de São Paulo, em que minha avó cresceu, tem um ipê plantado;, justifica. ;Além disso, é uma árvore muito comum em Brasília. Acho que não tem como ver um ipê e não lembrar a capital toda florida na época da seca;, complementa.
Em 2013, Thaís concretizou o desejo antigo. Uma amiga fez a ilustração e o tatuador adaptou. Junto da árvore roxa, escreveu ;Acalentou meu coração para a vida;, em francês. Uma frase do filme Escafandro. ;Adorei o resultado, fiquei bem satisfeita. Foi minha primeira tatuagem e sempre lembro a minha família quando vejo;, declara. Thaís está no Canadá fazendo pós-graduação e, quando bate a saudade de quem ficou em território brasiliense, a tatuagem não deixa de ser um refúgio. ;Minha família amou. Eles ficaram bem emocionados;, relembra.

;Ipelândia;


Quem escolhe o ipê para tatuar pretende mostrar ali as suas origens. ;Gosto muito de viajar. Mas, onde quer que eu esteja, Brasília será sempre o meu lar;, justifica a assessora de imprensa Daniela Coelho, 30. Há um ano, ela tatuou a árvore no braço direito. O marco foi a volta de um mestrado que fez em Londres. Daniela poderia ter recorrido aos traços de Oscar Niemeyer ou aos desenhos de Athos Bulcão, mas preferiu a planta. ;Trabalho no Setor Bancário há 10 anos, aqui vejo uns ipês lindos. Além disso, desde que nasci acompanho os ciclos da árvore. Esteticamente, acho muito bonito, além de ser diferente;, afirma. Inclusive, ela apelidou o local perto do trabalho de Ipelândia.

Com um desenho de aquarela feito por um tatuador de São Paulo, Daniela encontrou a sua maneira de celebrar a cidade. ;Ele quis fazer mais alongado. Ficou com a interpretação dele, digamos que teve uma licença poética, mas adorei o resultado;, conta a assessora. Ao todo, ela tem oito tatuagens. Cada uma com um significado e com uma lembrança de um momento da vida. O ipê, mesmo não sendo exclusivamente de Brasília, é a cara da cidade. ;Eles (ipês) ainda florescem na seca, época que você acha que não traz vida, mas é o contrário. Também tem isso de lembrar a superação de obstáculos, a renovação de ciclos;, comenta.

Para os tatuadores e ilustradores, a inspiração está na janela ao lado. ;É diferente tatuar ipê; é uma árvore que só se destaca em determinada época do ano e que remete à questão da natureza, de que eu gosto muito. Também acho que tatuar a árvore na galera de Brasília é uma forma de prestigiar a cidade fugindo das homenagens clássicas;, diz o tatuador Pablo Hermano, 35 anos. Na maioria das vezes, a ideia já vem do cliente, mas a opinião do profisisonal, se a pessoa está indecisa, é fundamental. ;Eu, por exemplo, não faço tatuagem realista, então, nesse caso, seria difícil reproduzir a foto de um ipê. Meu estilo é mais lúdico e trabalho com pontilhismo e rachaduras, então está dentro do meu trabalho e usando essas técnicas é mais tranquilo;, explica.


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A campanha do Correio Braziliense, lançada em parceria com a TV Globo Brasília, tem registrado os melhores ângulos da árvore mais conhecida

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