Brasília ocupada

Brasília ocupada

» JÚLIA SOLLÉRO Arquiteta
postado em 12/09/2015 00:00

Brasília sempre foi vista e reconhecida por ser a cidade do vazio. Foi construída a partir de uma tábula rasa, ou seja, de uma região vazia. O vazio brasiliense, ao contrário do que se pode imaginar, é vazio de projeto. Seu traçado originador prevê a existência dos vazios: a especificidade de nossa paisagem, cidade-parque, determina que o espaço livre configure o suporte do território, organizando e dando destaque à forma edificada. Grandes áreas verdes, grandes áreas públicas, grandes áreas livres, grandes áreas. Tanta área equivale também a grandes distâncias.


Concebida no auge da utopia moderna, quando o símbolo maior de modernidade era o carro, a distância não parecia ser mais problema. O equipamento se mostrava ideal e condição primária para a concepção de uma cidade que quisesse se intitular moderna. Largas vias sem interrupções em nível, altas velocidades, vastos estacionamentos, postos de combustíveis, tudo favorecia o uso eficaz do transporte individual.


E não era só no âmbito do deslocamento urbano que a vida se individualizava. Após o automóvel, vieram os shoppings centers, os condomínios fechados, a internet, os smartphones, todos esses elementos tiraram da rua o valor encontro. A pracinha, a vendinha do seu José, a padaria do seu Manoel, não eram mais condicionantes para que os habitantes tivessem vida social e encontrassem pessoas. Consequência? Vazios. Toda a amplidão de espaços da capital parecia nunca estar suficientemente frequentada a ponto de motivar as pessoas a saírem de casa independentemente de uma necessidade maior. Na maioria das vezes, andar pelos espaços públicos era somente ação obrigatória para aqueles que não tinham condições de arcar com os custos de um automóvel.


Tais vazios urbanos, quando não devidamente ocupados, acabam por ser entendidos como terras de ninguém e se desvalorizam ; seja por construções irregulares, seja por estacionamentos informais, seja por consumidores de drogas, vemos constantemente nossos espaços públicos serem depredados. A própria população vai encontrar o uso que lhe seja particularmente conveniente. Já nos casos de espaços abandonados, a razão é clara: onde não existem olhos nas ruas, não existe segurança, já dizia Jane Jacobs. Sem segurança, poucas serão as pessoas que arriscarão a própria pele.


Apesar dessa sina brasiliense com o vazio, nos últimos anos, temos visto esse quadro se reverter, simplesmente porque é inevitável e insustentável uma cidade que não tem cara, que não tem movimento, cheiro ou mistura. Foram necessárias apenas pequenas fagulhas e, hoje, instaurou-se movimento irreversível de ocupação na cidade. Os eventos gratuitos de rua tomam conta de nossa capital e sofrem com as superlotações. As ocupações espontâneas aparecem por todos os lados. Vemos renascer na população o desejo de ser protagonista de uma cidade melhor e mais humana. E, assim, esse vazio todo começa a fazer sentido, porque gostamos de gente, de estar onde as pessoas estão, de sentir que o tal vazio tem alma.
E, como em um novelo de lã, no qual um vai atraindo o outro, contaminando o outro, a coisa vai tomando grandes proporções. As ocupações esporádicas se tornam cada vez mais frequentes. É a população quem tem validado e dado força para que as ações que estejam de acordo com seus anseios se perpetuem. Quanto mais as intervenções urbanas se pautarem em um sentimento de pertencimento maior à cidade e de valorização de grupos em detrimento de indivíduos a tendência é de que mudanças ocorram não mais em curtos períodos de tempo ou em locais específicos, mas se convertam em propostas mais definitivas a longo prazo.


Hoje, são as empresas e governantes que têm buscado se adequar às necessidades dos cidadãos. Cada vez mais temos líderes locais, ONGs, coletivos, processos colaborativos e participativos e tantos outros exemplos que só revelam como a sociedade pode e deve se empoderar, em busca da cidade que deseja ter. Não somos mais meros coadjuvantes do fazer cidade, somos os protagonistas. E isso é um feito muito grande para uma cidade que parece ter um urbanismo muito amarrado e já consolidado. Mas só parece. Porque uma cidade que não se renova, independentemente de título de Patrimônio Histórico da Humanidade ou não, vira peça de museu ou cena de destruição. Que não percamos a vontade de ver uma Brasília reconhecida não mais por seus políticos corruptos, mas pela cidade que conseguiu transformar o vazio sonhado em realidade ocupada.

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