O Enem e o DF

O Enem e o DF

» ROGÉRIO VIANNA Analista de ciência e tecnologia do MCT aposentado
postado em 12/09/2015 00:00

Semana passada, o ministro da Educação, Renato Janine, divulgou e comentou os resultados do Enem 2014, tendo apresentado uma planilha produzida pelo Inep com detalhes sobre a participação de 15.640 escolas e 1.370.520 alunos (a seleção foi justificada por razões de relevância estatística). No DF, a planilha aponta 183 escolas e 27.009 alunos. O que se pode inferir desses dados? Como vai o DF? E como se compara a outras unidades da Federação? Para estudar melhor essas questões ,construímos um pequeno sistema de visualização baseado na planilha oficial, que o leitor pode encontrar em www.inicio.com.br. Este artigo procura colocar algumas dessas indagações.


Quase todos os dias, a mídia divulga fatos sobre a educação brasileira e aqui, no DF. As notícias são quase sempre ruins e a precariedade da formação educacional de nossos jovens, principalmente no setor público, é fato notório há muito tempo. Por exemplo, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), da Unesco, mostra que o pior indicador brasileiro e no DF está na educação. Os dados do Inep corroboram essa visão pessimista ou traz alguns alentos? Infelizmente, eles comprovam claramente essa calamidade nacional. A própria entrevista do senhor ministro revelou sua preocupação e seu desânimo, afinal, das 27 unidades da Federação, apenas seis tiveram médias estaduais acima da média nacional: em 21 estados, as médias foram menores do que a nacional ; além do baixo rendimento escolar, o Brasil continua profundamente desigual.
Vejamos alguns números do Inep/Enem-2014 e a situação do DF. Em Brasília, parece haver entre nós a impressão de que nosso nível educacional se destaca no Brasil, será verdade? Das 100 melhores escolas do Brasil, aferidas pela média das notas em matemática, redação, leitura, ciências e humanas, apenas 3 são do DF (todas privadas, e a primeira está na 29; posição). O Piauí tem 6, o Ceará, 8. Na nota de matemática, é ainda pior: o DF tem apenas 2 escolas entre as 100 primeiras (também privadas); o Piauí, 5; o Ceará, 7: e Pernambuco, 6.


Pela média, não há uma única escola pública do DF (federal ou distrital) entre as 100 primeiras escolas públicas do Brasil. A melhor escola pública do DF está na 111; posição e no 1.196; lugar no ranking geral brasileiro. Você sabia disso? Pesquise na planilha ou no sistema e descubra outras calamidades como essas. Fato alentador é que não temos, no DF, escola entre as 100 piores do Brasil. Nossa pior escola está na posição 13.185 das 15.640 (quase lá).


Também podemos analisar os fatores que influenciam nesses péssimos indicadores do Brasil e do DF. Por exemplo, haverá correlação entre o nível socieconômico dos alunos e sua média no Enem? Se houver, então nosso problema será ainda maior, pois os mais pobres estarão recebendo educação ainda pior, e o quadro geral de precariedade na educação nacional tenderá a se manter no futuro e o fosso social também.


Vejamos: como um todo, no Brasil, há correlação apreciável entre esses dois fatores, especialmente na escolas médias e grandes (mais de 60 alunos). Essa péssima notícia se aplica igualmente às escolas públicas e privadas? Sim, a correlação é menor nas escolas privadas do que nas públicas, mas existe ; correlação positiva significa que, quando uma variável cresce, a outra tende a crescer, correlação negativa significa que quando uma varável cresce a outra tende a diminuir.


E no DF? O que se observa é que nas escolas privadas em geral não há essa correlação, mas, nas escolas públicas, ela existe. Claramente, há nas escolas grandes, com mais de 90 alunos ; são 69 delas no DF, com 13.224 pobres alunos. Aí, está o segundo drama. Em geral nossas escolas não conseguem obter bons resultados dos alunos, mas os de nível socioconômico mais baixo são ainda mais penalizados. Mas já sabíamos disso, não é? Mais: será que nível dos nossos professores influenciam esses péssimos indicadores? Parece que, em certa medida, sim. No Brasil, como um todo, particularmente nas escolas grandes, os dados mostram certa correlação entre o nível do professor e a média das notas dos alunos no Enem. E também nas escolas privadas. O mesmo se repete no DF. Mas aqui quase só nas escolas públicas, embora em nível de correlação moderado, a ensejar melhores análises. Pode parecer natural que, quanto menor o nível do professor, menor o rendimento do aluno, mas também se pode pensar o contrário: é preciso melhores professores para se produzir melhores alunos.


Como a correlação encontrada não chega a ser determinante, alguns podem concluir de forma diferente: essa correlação não existiria ou não seria expressiva. Nesse caso, a conclusão talvez seja ainda pior, pois não importaria a qualidade do professor, os alunos ainda não teriam bom desempenho. Os fatores extraescolares responderiam por notas baixas. Então, a doença não seria apenas do sistema escolar, mas de toda a sociedade. Pessoalmente, me parece haver um pouco de cada fator. Aí está! Estamos mal. Já sabíamos. Mas os novos dados nos mostram quantitativamente a triste situação da educação de nível médio no Brasil e no DF. O que fazer?

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