Não existem espaços vazios

Não existem espaços vazios

postado em 12/09/2015 00:00

Se algum movimento espelha com precisão cristalina o momento do Brasil na arena diplomática, trata-se da viagem oficial do vice-presidente Michel Temer, que embarca hoje para a Rússia, na companhia de seis ministros e dois secretários de primeiro escalão. A agenda em Moscou se relaciona com a parceria estratégica bilateral e tem como ponto alto o encontro com o ;número 2; do Kremlin, o primeiro-ministro Dmitri Medvedev. Formalmente, a escalação do vice não configura crise ; ao contrário, responde ao protocolo, já que Medvedev ocupa posição correspondente em relação ao presidente Vladimir Putin.
O que a viagem de Temer a Moscou ressalta, tanto mais considerando a respeitável comitiva governamental e empresarial, é que também na diplomacia, como na política, não existem espaços vazios. Cercada pela sucessão de denúncias envolvendo alguns dos seus auxiliares mais próximos, a presidente delega na prática ao vice uma articulação que, nos anos Lula,dificilmente trocaria a agenda do Planalto pela do Jaburu. Em bom português, trata-se da decorrência natural de um momento de instabilidade que obriga a presidente a concentrar-se nos temas domésticos ; com exceção da conjuntura econômica internacional.


Em resumo, deixando para os observadores qualificados as implicações da viagem no cenário interno, a longa marcha de Temer até Moscou atesta que, como diz um antigo aforismo, a política ; mesmo a externa ; não permite a formação de vácuo. Todo espaço que se abre tende a ser imediatamente ocupado.

;Marola; havaiana
A viagem do vice brasileiro atende a uma agenda costurada no âmbito da parceria estratégica firmada entre Brasil e Rússia, bem como à orientação de priorizar os contatos no âmbito do Brics, arranjo no qual os dois países contracenam com China, Índia e África do Sul. Mas a concretização dos acordos negociados com Moscou coincide com um momento crítico para o bloco dos emergentes. Se algo faltava para tornar a sigla sinônimo de incerteza, a semana foi pródiga em notícias no mínimo preocupantes: os repetidos sinais de erosão do crescimento da segunda maior economia do mundo e o rebaixamento da dívida brasileira.


A segunda onda da crise econômica global inaugurada em 2009 já não se anuncia como ;marolinha; para os emergentes. Com a Europa ainda estagnada, à voltas com a chegada em massa de refugiados e imigrantes, com os EUA apenas ensaiando um período de retomada, a controversa locomotiva da América do Sul resfolega fumaça e nega impulso. Se no fim do governo Lula a estagnação nos centros do mundo capitalista parecia inócua, hoje o que vem pelo oceano parece mais um vagalhão de dimensões comparáveis às das célebres ondas do Havaí.

Missão Kirchner
De certa maneira, insere-se no mesmo cenário a visita de Lula à Argentina, durante a semana, para reforçar a campanha eleitoral do candidato governista à sucessão da presidente Cristina Kirchner, Daniel Scioli. Não chega a ser novidade o engajamento do ex-presidente em uma disputa eleitoral na vizinhança, embora a presença no palanque tenha motivado comentários algo incomodados da parte da oposição argentina. Quando ocupava o Planalto, Lula fez pouco segredo da preferência por alguns dos vizinhos, como Hugo Chávez e Evo Morales. Igualmente, e a despeito das dificuldades históricas com o vizinho no âmbito do Mercosul, nunca faltou a Cristina e ao marido e antecessor, Néstor Kirchner, a solidariedade do ;patriarca; brasileiro da Unasul.


A presença do ex-presidente, tão ostensiva quanto o silêncio de Dilma, não passa despercebida aos observadores. Para muitos deles, o contraste reflete o quanto a influência brasileira na vizinhança se rarefez nos últimos anos.

Uma vez na América...
Não é exclusividade do Brasil a superposição de influências na política externa, e um exemplo de almanaque vem dos Estados Unidos ; fora de um período de crise. No início do segundo mandato, em 1973, Richard Nixon dedidiu investir em uma ;operação casada; na Ásia: a retirada do Vietnã e a aproximação com a China de Mao Tsé-tung. Ambos eram movimentos de longo alcance, mas, sintomaticamente, a articulação não coube ao chefe formal da diplomacia, no caso o secretário de Estado, William Rogers. Este foi enviado ao Oeste para negociar um impasse com ativistas da nação indígena sioux na reserva de Pine Ridge, onde fora ocupado o escritório de Wounded Knee, cenário de um massacre histórico dos guerreiros de Touro Sentado e Cavalo Doido. O episódio ganhou repercussão, entre outros motivos, porque os rebelados ganharam a solidariedade de celebridades do porte de Jane Fonda e Marlon Brando ; que enviou uma índia sioux para representá-lo na entrega do Oscar a ele atribuído pela atuação em O poderoso chefão.


Enquanto o secretário de Estado lidava com a crise em Wounded Knee, o assessor de Nixon para Segurança Nacional, Henry Kissinger, costurava os detalhes finais do acordo de paz no Vietnã, que lhe renderia um Nobel da Paz dividido com o chanceler Le Duc Tho. Como bom entendedor, Rogers entendeu a meia-palavra e renunciou. Kissinger assumiu a pasta, mas Nixon cairia no início de 1974, abatido pelo escândalo Watergate.

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