Em vídeo, refugiados são tratados como animais

Em vídeo, refugiados são tratados como animais

Em imagens gravadas por jornalistas disfarçados de voluntários, policiais arremessam comida para 150 pessoas mantidas em recinto fechado, em campo da Hungria

Rodrigo Craveiro
postado em 12/09/2015 00:00
 (foto: YouTube/Reprodução)
(foto: YouTube/Reprodução)

A comparação é inevitável. Bem diante dos olhos do jornalista Klaus Kufner, disfarçado de voluntário, as cenas lembravam o Holocausto. Por volta das 20h de quarta-feira (15h em Brasília), ele e a colega Michaela Spritzendorfer faziam uma reportagem dentro de um prédio em Roszke, o principal campo de refugiados da Hungria, na fronteira com a Sérvia. ;A primeira coisa que as imagens me trouxeram à memória foi um campo de concentração do século passado. As pessoas estavam sem esperança ali. Havia crianças pequenas, mulheres e idosos. Elas tinham muita fome e sofriam. O governo húngaro está espezinhando os direitos humanos;, relatou ao Correio, por telefone, Kufner ; repórter da revista alemã MV Times.


Tudo foi registrado por Michaela, que utilizou uma pequena câmera. ;Nós estávamos vestidos como membros da Cruz Vermelha. Ela conversava com médicos, fazia fotos e pequenos vídeos. Na galeria do primeiro andar, havia uma janela de vidro que dava vista para o porão. Lá embaixo, a polícia lançava pequenas sacolas de comida, e os imigrantes as pegavam ainda no ar;, disse Kufner. ;Era com se estivessem alimentando animais.; Os agentes usavam capacetes e máscaras cirúrgicas. O vídeo de Michaela e Kufner tornou-se viral na internet, chocou a comunidade internacional e intensificou as críticas ao governo húngaro. O premiê Viktor Orbán declarou-se publicamente contrário à entrada de muçulmanos no país, ordenou a conclusão de uma cerca de arame farpado na fronteira e mobilizou 4 mil soldados na região.


Também por telefone, Peter Bouckaert, diretor de emergências da organização não governamental Human Rights Watch (HRW), afirmou ao Correio ;que as imagens do vídeo falam por si;. ;As pessoas recebem comida em recintos fechados, como se fossem animais, sem qualquer assistência médica e sem receber informações sobre o que está ocorrendo com elas;, acrescentou. Segundo ele, as condições são ;horríveis; nos dois campos mantidos pela Hungria, o Roszke 1 e o Roske 2.


Orbán defendeu o tratamento dispensado pela polícia ao que classificou de ;migrantes rebeldes; e se recusou a comentar o vídeo. ;Eles não querem cooperar com as autoridades. Na realidade, se rebeleram contra a lei húngara;, admitiu, referindo-se aos refugiados que abriram passagem através de cordões policiais perto da fronteira com a Sérvia e que fugiram de um campo de cadastramento.


Também ontem, a cinegrafista húngara Petra Laszlo, filmada chutando crianças e idosos refugiados, afirmou ter entrado em ;pânico;. ;Quando assisto ao vídeo, não me reconheço. Lamento sinceramente o que fiz e assumo a responsabilidade;, escreveu em carta publicada no site do jornal húngaro Magyar Nemzet. ;Entrei em pânico. Não sou uma cinegrafista racista e sem coração.;

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