Economia na capital sofre

Economia na capital sofre

Dependente do dinheiro vindo da administração pública, o Distrito Federal vive um efeito em cadeia com a queda financeira do setor. O primeiro segmento a sentir a ruptura é o comércio local, que retrocedeu nos primeiros nove meses do ano

» FLÁVIA MAIA
postado em 12/09/2015 00:00
 (foto: André Violatti/Esp. CB/D.A. Press - 7/8/15)
(foto: André Violatti/Esp. CB/D.A. Press - 7/8/15)


A crise financeira vivida pelo país e pelo Executivo local impactou na economia do Distrito Federal no primeiro semestre. Pela primeira vez desde o início da série histórica, o desempenho econômico fechou no vermelho (-1,1%). Embora o resultado seja melhor que o nacional ; com queda de 2,1% ;, a retração preocupa o governo e o setor produtivo. Com a administração pública estacionada, comércio, serviços e indústria também são afetados. Os dados que mostram essa realidade são relativos ao Índice de Desempenho Econômico do Distrito Federal (Idecon), divulgado ontem pela Companhia de Planejamento (Codeplan).

Responsável por 55,2% da estrutura produtiva do Distrito Federal, a administração pública teve queda de 0,5%, o que gerou um efeito em cadeia. O baixo ritmo da atividade pública explicado pela crise financeira do GDF e do governo federal deixou pouca margem para novos gastos e investimentos, contratação de pessoal e possíveis reajustes salariais. Assim, o dinheiro desapareceu no mercado e travou a economia. ;Esse índice mostra que a economia do DF ainda está muito atrelada ao setor público e, por isso, é preciso diversificar a matriz;, defende Sandra Regina Andrade Silva, uma das responsáveis pela pesquisa do Idecon.

Além disso, o próprio Estado é um importante comprador local: se ele diminui investimentos e contratações, a economia também sente. ;Já temos números indicando queda da atividade industrial desde o fim do ano passado e movimentos como diminuição da demanda interna, desemprego e aumento de tributos. Isso é ruim porque aumenta o ônus do empresário e inibe o consumo;, explica Jamal Bittar, presidente da Federação das Indústrias do Distrito Federal (Fibra).

O primeiro segmento a ser atingido pelo efeito dominó é o comércio. O setor corresponde a 19% da economia local e retrocedeu 5,4% no primeiro semestre de 2015. Somente nos últimos três meses, o índice foi de 4,9%. ;Com a disparada dos juros, as incertezas econômicas e os cortes no governo, muitos empresários vão tirar o pé do acelerador nos investimentos este ano. Quem buscava empreender vai deixar para o ano que vem, e depois do carnaval;, acredita Álvaro Silveira Júnior, presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas do DF.

Palavra de especialista


Reação em cadeia

;A economia do DF é muito diferente da brasileira. O DF é extremamente dependente da administração pública: ela corresponde a mais da metade do PIB. O fato de a retração da economia ter sido menor no DF do que no Brasil mostra que, de alguma forma, mesmo em crise, o setor público ainda amortizou a queda. O problema é que a retração do setor público no DF gera uma reação em cadeia. Com o salário arrochado, o funcionalismo vai deixar de comprar, o que impacta no comércio e na indústria. O próprio Estado também é um comprador importante. O GDF está com muitos pagamentos atrasados, e, se a empresa não recebe, ela deixa de repor equipamento, deixa de comprar da indústria, e assim vai. Além disso, novos contratos não são fechados. Desse modo, constrói-se a retração.;


Newton Marques, professor de economia da UnB e membro do Conselho Regional de Economia

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação