A pluralidade de Joel Rufino dos Santos

A pluralidade de Joel Rufino dos Santos

Amigos relembram momentos marcantes com o Escritor que representou a luta pelos direitos humanos, cidadania e inclusão social no Brasil

Vanessa Aquino
postado em 12/09/2015 00:00
 (foto: Arquivo pessoal)
(foto: Arquivo pessoal)



Apaixonado por futebol desde garoto, Joel Rufino só aceitava convites para visitar a casa dos amigos se pudesse jogar bola, atividade, aliás, que lhe tomava boa parte do tempo durante a infância. Dormia com a bola. Havia outras paixões, como o samba e os livros. O pai era operário, comunista e intelectual autodidata, que lia, sobretudo, os autores que estavam na linha do partido, como Lima Barreto e Graciliano Ramos.

A mãe se chamava Felicidade Flora dos Santos, semianalfabeta e evangélica fervorosa, estimulava o filho a seguir a religião. Se não teve êxito com tal influência, deu a Rufino a consciência da igualdade de direitos entre brancos e negros. ;Minha mãe fazia questão de dizer que o filho dela podia ser qualquer coisa, desde que estivesse vestido com decência, desde que tomasse banho, podia fazer qualquer coisa que os outros meninos fizessem;, disse o historiador em entrevista ao Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), em 2009.

Desde criança, costumava se encantar com as histórias que a sua avó Maria lhe contava e as passagens da Bíblia que ouvia. Junto com os gibis, que lia escondido de sua mãe, esse foi o tripé da paixão literária do futuro fazedor de histórias. Seu pai também teve um papel nessa formação, presentando-o com livros que Joel guardava em um caixote.

Ainda jovem, mudou-se com a família para o bairro da Glória e pouco depois ingressou no curso de história da antiga Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil, onde começou a sua carreira de professor, dando aula no cursinho pré-vestibular do grêmio da faculdade.

A interferência da família na formação se refletiu no engajamento político que marcaria toda a vida do historiador, reconhecido internacionalmente por lutar pelos direitos humanos, pela cidadania e inclusão social. Despertou para tal engajamento quando ainda era estudante do curso científico. ;Havia bases dos partidos nas principais faculdades e nos principais colégios. O meu era na Rua do Ouvidor, na Frederico Ribeiro. Ali, tinha uma célula que a gente chamava de base do partido. Ingressei no Partido Comunista Brasileiro;, declarou ao Ibase.

Como escritor, Joel é plural. Escreveu inúmeros livros para crianças, jovens e adultos. Ficção e não ficção. Ensaios, artigos, participação em coletâneas. Recebeu, como autor de livros para crianças e jovens, vários prêmios, e foi finalista do Prêmio Hans Christian Andersen, considerado o Nobel da literatura infantojuvenil.

Quando faleceu, no dia 4 de setembro, o professor Joel Rufino dos Santos ocupava o cargo de diretor-geral de Comunicação e de Difusão do Conhecimento, no Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. ;É uma grande perda para o Tribunal de Justiça, para os meios intelectuais e professores. Uma alma generosa. Que ele descanse em paz. Vamos guardar do professor os melhores exemplos. A nós, Joel Rufino vai deixar a semente do seu exemplo, de um homem dedicado ao humanismo e a causa pública;, declarou o desembargador Luiz Fernando Ribeiro de Carvalho, presidente do TJRJ, na ocasião da morte de Joel.

Golpe militar
Rufino considerava que o ingresso no curso de história foi uma virada na própria biografia intelectual. Recebeu de um ex-colega o livro Introdução à Revolução Brasileira, de Nelson Werneck Sodré. A obra, que conecta literatura com a evolução geral do país, mudaria definitivamente a trajetória do historiador, que, na ocasião, ainda não sabia que participaria do grupo liderado por Sodré para elaborar projeto que revolucionaria o método de ensino-aprendizagem da história no país.

Joel Rufino estudou história até o golpe militar em 1964, ano em que se formaria. Foi expulso da faculdade. Anos depois, a universidade lhe daria um diploma correspondente ao mestrado em história. No dia do golpe, o jovem historiador ; recém-casado e assistente de Nelson Werneck Sodré na pesquisa que daria origem à coleção História Nova do Brasil ; viu-se atordoado, sem saber bem para onde ir. ;No dia seguinte, a minha mulher grávida foi para um lugar seguro, voltou para a casa dos pais. E eu peregrinei no subúrbio, em casas de conhecidos, esperando o que ia acontecer. Quando ficou claro que o golpe era mesmo para valer, eu me asilei na Embaixada da Bolívia, dali fui para o exílio.

Werneck Sodré
Quando o filho nasceu, recebeu por nome Nelson, em homenagem a Nelson Werneck Sodré. O amor pela história do Brasil estava de fato arraigado na vida pessoal de Joel Rufino. No Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb), Rufino se empenhava com outros assistentes na pesquisa para a História Nova. ;Eu estava com 22 para 23 anos. Participava de um grupo liderado pelo Werneck Sodré. Éramos jovens, mas tínhamos um mentor de peso. O Rubem Cesar Fernandes, coordenador da ONG Viva Rio também participava da equipe.; Rubem Cesar, aliás, partilha com carinho a lembrança do amigo. ;Conheci o Joel no pré-vestibular da faculdade nacional de filosofia, curso de história. Fomos colegas de faculdade, muito próximos e ficamos mais próximos quando trabalhamos juntos como assistentes do professor Nelson Werneck Sodré, na redação dos livros da História Nova do Brasil. Depois, a gente foi se reencontrando pelo resto da vida. Era uma pessoa querida;, revelou ao Correio.

A História Nova acabou transformar o ensino de história nas salas de aula. A literatura didática estava em crise, que se arrastava desde a morte de Getúlio Vargas ao golpe de 1964. Geralmente, o ensino da disciplina não chegava aos presidentes, parava na Proclamação da República.

A obra foi chamada pelos partidos de direita de marxista, mas Joel a considerava elementar. ;A relação entre a base econômica e a superestrutura era quase mecânica. Para a época, foi um avanço pelo fato de o ensino de história estar em crise, mas ela (a História Nova) tem as virtudes e defeitos das reformas de base daquele momento;, declarou ao Ibase.

Preconceito racial
Joel Rufino dizia que o preconceito racial era fácil de se identificar, ao contrário do racismo. Para ele, compreender o racismo exige conhecer alguns conceitos sobre o funcionamento da sociedade. ;O racismo é uma forma de dominação estrutural na sociedade brasileira que só adquire sentido por meio da luta social, da luta de classes. O racismo é um fator estrutural que está na própria essência da formação brasileira;.




Depoimentos

Jeito de ser irônico

;A morte dele foi um choque, que é difícil de assimilar. Eu tinha estado com ele, duas ou três semanas antes, em um evento no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.

O Joel tinha um jei

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