Dois espetáculos e uma cultura

Dois espetáculos e uma cultura

Em meio a movimentos sociais, o teatro se une na valorização e exploração do pensamento e da crença negra no Brasil

postado em 12/09/2015 00:00
 (foto: Rui Rodrigues/Divulgação)
(foto: Rui Rodrigues/Divulgação)





Acompanhando movimentos sociais, como Marcha do Orgulho Crespo e Festival da Cultura Negra, o teatro se une com espetáculos que têm como protagonista a cultura e história afro-brasileira. Com a visibilidade do tema, a sociedade caminha para uma desmitificação e valorização da história e cultura do negro no Brasil.

Na crença vinda da África e transformada no Brasil, os vários Orixás brasileiros são o foco de Axé Orixá, que estreia dia 17. Espetáculo itinerante, que passará por 11 regiões administrativas do DF, narra cinco mitos das divindades do candomblé brasileiro. Segundo Letícia Helena, diretora do espetáculo, a peça tenta desmitificar a religião afro. ;A religião é desvalorizada no Brasil, mesmo com vários seguidores. Nós tentamos com o espetáculo despertar não só interesse pelos mitos, mas também o respeito pela crença;, diz.

O espetáculo tem linguagem simples e direta e a parte musical é cantada ao vivo pela atriz e cantora Fernanda Jacob. Desde 2011 estudando a religião, Letícia conta que a ideia veio em uma aula de artes cênicas na UnB, onde foi formada, sobre mitologia grega. ;Eu pensei em como nós estamos acostumados com a cultura europeia, mas sabemos pouco sobre a africana e indígena, tão presentes no Brasil;, conta.

O rei
Entre Zumbi, Dandara e tantos outros heróis nacionais negros, está Chico. Rei de uma tribo do Congo, o monarca é trazido para o Brasil como escravo, onde se torna um herói entre seus semelhantes. O musical sobre sua história está em cartaz no Teatro da Caixa até dia 13 e é dirigido por João das Neves, veterano em trabalhar com história afro no teatro.

Segundo o diretor, trabalhar com a cultura africana é uma forma de honrar o povo que fez tanto pela história brasileira. ;A contribuição dos africanos para o Brasil é ainda mais especial que as tantas outras que vieram para cá. Mesmo escravizados, os negros trouxeram um mundo de rituais, manifestações artísticas e religiosas e conseguiram enraizar isso no país;, explica.

João conta que para seus trabalho procura sempre atores negros. Nesse espetáculo, todo o elenco é formado por negros. ;Para mim, é como valorizar e devolver, de certa forma, a história deles. Uma forma de respeitar e honrar a história;, conta o diretor.

De acordo com o professor da UnB Amauri Rodrigues, doutor em literatura africana, as influências da cultura negra no circuito artístico da cidade são as melhores possíveis. ;A presença de histórias, movimentos sociais e culturais negros para a sociedade são boas não só para esse grupo, mas para os brancos também;, destaca. Ainda segundo ele, o preconceito que existe vem pela falta de conhecimento acerca do tema.

Galanga Chico Rei teve, nos dois primeiros dias, sessões especiais para alunos de escolas públicas do DF. Segundo Amauri, a presença de alunos em apresentações do gênero é fundamental para a educação. ;Sessões para escolas educam não só as crianças, mas professores e coordenadores que também não são versados em cultura africana.;

Quem concorda com a opinião do professor é o designer Eduardo Pootz, que vê os movimentos sobre cultura negra fundamentais para a diminuição do preconceito. ;No Brasil se tem a cultura de que política e religião não se discute, mas acho que isso está errado. Nós devemos debater e discutir para que as pessoas abram a cabeça e respeitem as diferentes crenças;, diz.

Galanga Chico Rei
Caixa Cultural (SBS, Quadra 4, Lotes 3/4 - Asa Sul). Hoje, às 17h e 20h e dia 13 de setembro, às 16h e 19h. Ingressos: R$10 (inteira) R$ 5 (meia). Não recomendado para menores de 12 anos.

Axé Orixá
Estreia dia 17 de setembro, estacionamento da Adm. Riacho Fundo I, às 19h30. Entrada franca. Classificação: livre. O espetáculo será exibido até dia 11 de outubro em mais 10 cidades. Confira a programação completa no nosso site.




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