márcio cotrim

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postado em 12/09/2015 00:00





O título perfeito
Duro, solitário, o ofício de escrever. Tanto faz para o jornalista, ou o romancista. O sujeito, com ideias a lhe ferver na cabeça, sofre diante de uma desenxabida folha em branco.
Sua tarefa: transformá-las num texto que leve o leitor a entender o sentido da mensagem. Nessa jornada, não existe parceria, é o autor e o papel indefeso, à sua mercê.
Seja a pessoa dona de uma cabeça organizada ou o burocrata que só produz ofícios insossos, com palavras que desaguam em texto medíocre.

Há os que se esmeram em busca de clareza, compreensão imediata. Outros estão se lixando para isso, simplesmente traduzem, em letras, neurônios sem pé nem cabeça, o leitor que se dane e trate de catar lógica nas palavras desordenadas que tem diante do nariz. Promove-se e é tido e havido como gênio, mas de gênio não tem coisa alguma, só faz tipo para causar impressão em néscios e ingênuos.

Nos idos dos anos 60, ainda no Rio de Janeiro e no Banco do Brasil, havia uma espécie peculiar de funcionário. Era o que tinha pendores para o vernáculo e, por isso mesmo, a ele os chefes atribuíam os documentos mais importantes, ;de forma escorreita; e encaminhados à decisão de um diretor ou do próprio Presidente.

O velho colega Luciano Carvalho ; pessoa dulcíssima ;era conhecido na Casa por seu refinado português. Tinha a satisfação, algo parecido com o orgasmo do burocrata, de só concluir um texto-base depois de consultar o Dicionário do Aurélio e trocar as palavras fáceis pelas difíceis. Adorava, por exemplo, o verbo jungir que, na sua cabeça, ;transmitia mais densidade na argumentação;. Ao fim do expediente, exultante, entregava ao chefe uma peça de sabor seiscentista, gongórico. A alegria do saudoso Luciano era o OHHH! de toda a seção no solene momento. Criou fama, fez a cama mas nunca entendeu que o Banco do Brasil era e é, para sempre, uma casa de números, e não de letras.

Quem escreve sofre, eis a verdade ; mantém suas compensações. Quando muito lido, recebe estímulos constantes que o conduzem a novos patamares do espírito, à descoberta de novas motivações.

Essa a realidade, e não adianta fazer charminho, dizer que pouco lhe importa a opinião do leitor. ;Escrevo para a eternidade. Não me interessa saber o que pensam os leitores;.

Nada mais falso. Claro que ele está doido para conhecer a opinião alheia. Nem só de elogios se nutre o escritor, mas da crítica, até feroz. Dramática é a indiferença, letal dos venenos, e digo mais: o maior breve contra a inspiração.


Escritores famosos raramente conhecem a indiferença. Em meio à turbulência de seus projetos literários, à rotina quotidiana de sempre, de tentar conciliar as penosas obrigações da vida familiar, social e profissional com a impositiva necessidade de passar sua mensagem para o papel, eles são cada vez mais solicitados a frequentar círculos acadêmicos, a proferir palestras, conferências e a atender as solicitações ininterruptas, amiúde impertinentes e mesmo insuportáveis. O escritor não está nem um pouquinho disposto a falar com o repórter, mas tem consciência de que não pode fechar-se como ostra, ignorar a humanidade.

Com o grande William Faulkner se passou divertido episódio que se insere nesse contexto.

Vivia ele inquieto em elucubrações ligadas a seu romance. Para fertilizar as ideias, costumava caminhar pelo belo parque em torno de sua casa. Saía cedo, respirava fundo o ar puro e percorria as alamedas úmidas das redondezas. Às vezes falava sozinho para corrigir uma ideia, enriquecer o personagem, ao descobrir novas opções para o enredo. Enfim, desligava-se do mundo.

Um vizinho seu, bem jovem e iniciante nas letras, sempre que o encontrava pedia que Faulkner fizesse o favor de ler os originais de seu livro e que, além disso, sugerisse um título para a obra.

Todo dia a mesma lenga-lenga. Seria uma caridade a leitura dos originais, era importante para ele a opinião do escritor ; claro! Faulkner, preocupado em colocar um ponto final naquela insistência, atendeu o novato, sentou-se com ele num banco de jardim, folheou pacientemente alguns trechos do livro e, depois de fazer as considerações de praxe, indagou:

; Escuta, meu filho, seu livro fala em tambores?

O rapaz, ainda lisonjeado pela atenção mas perplexo com a pergunta, informou que em nenhuma linha do livro ; que se lembrasse ;, havia alguma referência a tambores (que pergunta, será que ele bebeu?)

; E em clarins, ele fala?

; Francamente, mestre, também não me consta.

(;É, o homem não está batendo bem;).

Despediram-se cordialmente. O rapaz agradeceu a deferência a suas páginas e seguiu seu caminho, embatucado com aquelas absurdas perguntas.

Meses depois, saiu o livro. Teve boa venda e um título inusitado: NEM TAMBORES NEM CLARINS . . .


;Divórcio por compatibilidade
de gênios: o marido gosta de
homens ; a esposa também;

Mirtoc Oicram



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