Intolerância

Intolerância

Três casas de religião de matriz africana são atacadas no Entorno do DF. Em duas, homens atearam fogo. Apesar da gravidade, policiais e bombeiros não estiveram nos locais dos crimes

postado em 13/09/2015 00:00
 (foto:  Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)

; THIAGO SOARES
; OTÁVIO AUGUSTO
; MARIANA LABOISSI;RE

Três terreiros de candomblé foram atacados em cidades goianas do Entorno do Distrito Federal na madrugada de ontem. Dois deles acabaram incendiados. Nesses casos, pelos relatos das testemunhas, as ações foram executadas pelo mesmo grupo. Vizinhos dos alvos viram uma Saveiro de cor prata e com dois homens saindo dela para atacar os espaços dedicados a encontros da religião de matriz africana. A ocorrência mais grave foi a de Santo Antônio do Descoberto. O imóvel ficou totalmente destruído pelas chamas. Em Águas Lindas, os vizinhos ainda tiveram tempo de conter o fogo e evitar a destruição da casa, em funcionamento há 22 anos. Ambos os municípios ficam a 50km de Brasília, mas em direções diferentes. Já em Valparaíso, no limite com o DF, vândalos apedrejaram a residência de um pai de santo, ao lado do terreiro onde ele pratica a fé. Os crimes foram registrados nas delegacias locais, mas, por falta de contingente, a Polícia Civil só deve começar as investigações amanhã.

Os primeiros estalos no terreiro Ilê Orilé Funfun, em Santo Antônio do Descoberto, começaram por volta das 6h. Esse é o segundo ataque em pouco mais de um mês. ;Dessa vez, fica impossível fazer as cerimônias. Antes, só roubaram os pertences e quebraram as imagens dos orixás. Mas, agora, queimaram tudo;, lamentou a mãe de santo Rejiane de Oiyá, 36 anos. Na tarde de ontem, a fumaça e o cheiro de queimado ainda compunham o cenário de horror. ;Todo mundo está perplexo com a situação. É um choque para a comunidade;, ressaltou Rejiane. O templo sofreu um ataque semelhante em 5 de agosto. Os prejuízos com esse ato ultrapassaram os R$ 30 mil. Até hoje, a polícia não deu qualquer informação sobre uma possível investigação.


O endereço do terreiro, há cinco anos, provavelmente mudará. ;Não há como continuar aqui. Temos medo de colocar em risco a segurança dos frequentadores e a nossa própria vida;, ressaltou Edvaldo de Oxalá, babalorixá da casa. O grupo religioso pretende comprar outro terreno na cidade goiana. Para isso, vai realizar uma roda de samba, no próximo dia 20, para angariar fundos. ;É um sentimento ruim o que vejo aqui. Vi esse lugar crescer. Eu me sinto como se algo tivesse sido tirado de mim;, lamentou o técnico de informática Aparecido Sampaio, 29 anos, frequentador do terreiro.

Em Águas Lindas, o terreiro Ilê Àsé Omi Gbato Jegede, no bairro Mansões Olinda, foi invadido por uma Saveiro por volta da meia-noite. O veículo derrubou o portão do imóvel. Os criminosos colocaram fogo em uma cadeira próxima à rede de energia elétrica. As roupas de santo que estavam no varal também foram alvo do bando, que usou querosene. ;Não roubaram nada, por isso suspeitamos de intolerância religiosa. Estamos organizando um mutirão para fazer os reparos;, contou Dejair Bastos, babalorixá do terreiro. O templo nunca tinha sido alvo de ataques.

Já em Valparaíso, a vítima foi o pai de santo Adauto Alves da Silva. Por volta da meia-noite, um grupo de pessoas pressionou o portão da casa dele, no bairro Ipanema. Sem sucesso na tentativa de arrombamento, os criminosos começaram a jogar pedras no telhado. Ao ligar as luzes, o bando dispersou. ;Normalmente, sofro com a intolerância religiosa. O diferente foi a tentativa de arrombamento;, destacou.

Nos três casos, nem as polícias Militar e Civil, tampouco o Corpo de Bombeiros foram até o local dos ataques.





Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação