50 anos de celebração

50 anos de celebração

Festival de Brasília do Cinema Brasileiro comemora 50 anos e transforma a cidade na capital da sétima arte

Diego Ponce de Leon Ricardo Daehn
postado em 13/09/2015 00:00
 (foto: PerdidasIlusões/Divulgação)
(foto: PerdidasIlusões/Divulgação)




O maior e mais tradicional evento cultural de Brasília ainda não começou, mas já deu o que falar. No que tange à programação, artistas e acadêmicos da capital federal se manifestaram negativamente pelas redes, cobrando um repertório mais democrático. De acordo com eles, a curadoria preteriu cineastas mulheres, que aparecem de forma menos expressiva nesta 48; edição e nos 50 anos de festival (o evento foi suspenso durante um período na ditadura militar). Seja como for, mais uma vez, Brasília terá a oportunidade de aplaudir, vaiar e celebrar o cinema nacional. As polêmicas atuais logo serão substituídas pelos debates e discussões gerados pelos longas, médias e curtas;metragens.

Figura de ponta, quando o assunto são as polêmicas, um dos diretores selecionados, Claudio Assis está à frente de Big Jato, longa estruturado em paralelo à própria escrita do livro de Xico Sá no qual se baseou. ;Na tela, não deixa de ser ele, Claudio Assis, só que menos ácido. Houve, no roteiro, uma liberdade muito grande. Trabalhar com Claudio Assis não é conflitante, tende para o cooperativo. E, agora, ele está mais lírico;, antecipa o corroteirista Hilton Lacerda. Xico Sá emprega, na escrita, um alter-ego, recriado protagonista no filme. ;Trata-se de um rito de passagem. Uma metáfora para o início da vida de um menino de 15 anos;, sublinha Lacerda.

Se há desconforto no aspecto de gênero representado na seleção, o mesmo não pode ser dito sobre a pluralidade das fitas. A heteronormatividade, a infância e a solidão fazem parte do pacote de seis longas em competição. ;Priorizaram a diversidade e, como venho de uma cena do cinema brasileiro com poucos recursos, estar em Brasília, pela primeira vez, me deixa lisonjeado;, comenta Cristiano Burlan, que defenderá o longa Fome. Para ele, o festival se apresenta como uma incógnita. Prêmio, como percebe, é ;a cereja do bolo;. Até nisso, o diretor do filme em preto e branco, centrado na terceira idade, impõe caráter político. ;A predisposição para se expressar, em cinema, pressupõe política;, reforça.



Estreia
O interior do país, em contraste com metrópoles urbanas, também desenha rumos para a nova edição do festival de Brasília de cinema. Com o primeiro longa de ficção, A família Dionti, o cineasta Alan Minas tem a sensação de cumprir missão ; ;eu sonhei em fazer a estreia do longa em Brasília;. Focado na primeira paixão de um adolescente morador do interior de Minas Gerais, o filme tem contornos fantásticos, já que envolve tipos que se derretem de paixão e outros personagens circenses, capazes de jogar com verdades e mentiras.

A abertura, na terça, restrita a convidados, ficou a cargo de Um filme de cinema, de Walter Carvalho. Escolha nada acidental, já que o irmão de Walter, o premiado documentarista brasiliense Vladimir Carvalho, será homenageado. Vladimir completou 80 anos em 2015 e figura entre os grandes nomes do cinema nacional.

No decorrer dos dias seguintes, os 18 trabalhos eleitos para a mostra competitiva se alternam na sala do Cine Brasília em busca dos R$ 340 mil que serão distribuídos em prêmios. Os atores Gero Camilo, Matheus Nachtergaele e Elke Maravilha, entre outros, estão entre os artistas que devem dar as caras na cidade.


Cor local
Ainda assim, vale destacar que Santoro ; O homem e sua música dará o colorido candango à disputa. A Mostra Brasília, que recebeu 81 inscrições, também gera expectativa entre os participantes. Eles disputam R$ 200 mil em prêmios. Edson Fogaça, do longa Félix, o herói da barra, entra na corrida com documentário em torno de Félix José Rodrigues, mítico, entre quilombolas de Barra de Aroeira (Tocantins).

O ex-escravo esteve na Guerra do Paraguai e teria herdado terras das mãos de Dom Pedro II. ;Espero um debate em torno dos temas relacionados aos quilombolas e seus retratos sociais;, antecipa Edson. O filme, de R$ 35 mil, terá disputa com O outro lado do paraíso, de André Ristum, orçado em R$ 7 milhões. Alma palavra alma e Santoro ; O homem e sua música são outros longas na disputa.



48; Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
Entre 15 e 22 de setembro, no Cine Brasília (EQS 106/107).



Números

O festival recebeu a inscrição de 130 longas, 221 médias e 237 curtas-metragens. Desses, seis longas e 12 curtas e médias foram selecionados.





Duas perguntas / John Howard Szerman



Em que consiste o documentário?

Comecei o filme, a pedido de Gis;le Santoro, viúva do maestro Claudio Santoro. Ela tinha a impressão de que a memória ao artista andava algo esquecida. Começamos o projeto em meados de 2010. Ao todo, contamos com orçamento de R$ 450 mil. Recuperei muitas entrevistas dadas por Santoro e que foram apagadas nos formatos originais. Com uma amiga musicóloga, consegui muito material para dar base ao roteiro, a partir de entrevista inédita de cerca de 15 horas.

O senhor já trabalhou com Jean-Luc Godard. Como foi a experiência?
Tinha um amigo que desenvolvia projeto para a companhia Éclair, no formato 16mm. Era pra câmera tão pequena, que não tinha nem visor. Falo de 1971, não havia nem vídeo portátil. Conheci o Godard nesse período. Daí, estive no Dziga Vertov, formado por cineastas esquerdistas. Eu estava exilado na Europa. Fizemos vários vídeos experimentais. Estive em filmagens ao estilo de O demônio das onze horas. Nós gostávamos dos Rolling Stones, e cada um vivia passando câmera pro outro (risos). Não teve nada de definitivo ; nenhum título a destacar. Meses depois, Godard teve um acidente grave e ficou em coma. Nisso, saí de Paris e fui para a Inglaterra.

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