O carro, vilão do trânsito brasileiro

O carro, vilão do trânsito brasileiro

Estudo mostra que os automóveis transportam apenas 20% do total de passageiros, mas ocupam 60% do espaço disponível nas vias públicas

Warner Bento Filho
postado em 13/09/2015 00:00
 (foto: Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press - 17/2/12)
(foto: Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press - 17/2/12)

Especialistas em mobilidade urbana reunidos pela Associação Nacional das Empresas de Transporte Urbano (NTU) são unânimes em dizer que o espaço do carro deve ser reduzido nas cidades. Outro ponto em que os gestores estão de acordo é a necessidade de encontrar novas formas para financiar o sistema de transporte público. Todos concordam que o usuário não pode arcar sozinho com os custos. Mas há divergências em relação a como e com quem dividir a conta.

A Lei da Mobilidade, aprovada em 2012, estabelece que devem ser privilegiados os deslocamentos não motorizados sobre os motorizados. Da mesma forma que o transporte público coletivo sobre o individual. Estudo feito pela NTU, porém, mostra que no Brasil os automóveis transportam apenas 20% dos passageiros, embora ocupem 60% das vias públicas. Já o ônibus, responsável por levar 70% dos usuários, fica com 25% do espaço. É essa distorção que os especialistas querem consertar.

A ordenação imposta pela lei é um princípio comum no universo jurídico brasileiro, segundo o promotor de justiça Carlos Alberto Valera, do Ministério Público de Minas Gerais. ;É evidente que o interesse coletivo se sobrepõe ao individual;, diz o promotor, que precisou do argumento para garantir a permanência de corredor de ônibus instalado em Uberaba, contra a vontade de comerciantes e de proprietários de carros.

;Temos um bem finito, as vias públicas, que foi doado a um modal responsável por uma minoria dos deslocamentos. É um subsídio gigantesco ao automóvel;, diz o coordenador do Movimento Nacional pelo direito ao Transporte Público de qualidade para Todos (MDT), Nazareno Affonso.

Os problemas causados pelos carros vão além dos transtornos impostos pelos engarrafamentos. Segundo dados da NTU, em 2014 os congestionamentos nas regiões metropolitanas de São Paulo e do Rio de Janeiro provocaram prejuízos de R$ 98 bilhões em gastos extras de combustível e de produção não realizada. O montante equivale a 2% do PIB nacional.

A superlotação da cidade por carros também provoca aumento de emissões de gases de efeito estufa, poluição do ar e acidentes de trânsito. Segundo dados do Instituto de Saúde e Sustentabilidade, apresentados pelo presidente da NTU, Otávio Cunha, morrem por ano, no estado de São Paulo, 17 mil pessoas vítimas da poluição do ar, que é a principal causa ambiental de mortes por doenças não transmissíveis no mundo.

;O carro não é solução para a mobilidade;, resume o secretário de Transportes da Prefeitura de São Paulo, Jilmar Tatto. Mas, para que o sistema se torne mais atrativo, segundo ele, é preciso melhorar a qualidade.

Além disso, segundo Nazareno Affonso, é preciso rever os espaços ocupados pelos diferentes modos de transporte. ;Para o automóvel, temos que reservar 30% do espaço. Os outros 70% devem ser reservados para o transporte não motorizado e para o transporte coletivo;, propõe.

Custos
O problema é que o transporte público de qualidade tem custos considerados altos demais para serem absorvidos pelo usuário. Uma alternativa, já em uso em Brasília e em São Paulo, é o subsídio de parte do custo pelo poder público. Outra, que, segundo Tatto, é negociada pelo prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, com a Frente Nacional dos Prefeitos, é a municipalização da Cide, cobrada sobre os combustíveis, que se reverteria para o financiamento do sistema. Tatto ainda propõe uma alteração na lei do vale-transporte, obrigando todos os empresários que empregam a fazerem contribuições, independentemente de usarem ou não o sistema. O ministro das Cidades, Gilberto Kassab, se manifestou contra a criação de novos impostos para o financiamento do transporte coletivo.

A pesquisadora Susan Zielinski, da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, desenvolve soluções de integração dos diferentes sistemas de deslocamento com o uso de tecnologia. ;A nova geração não está interessada em ter um carro, mas gosta de se conectar em redes;, diz. ;Em lugar de termos sistemas isolados, precisamos integrá-los, para que funcionem de maneira semelhante aos sistemas biológicos;, diz.


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