Fatura do rebaixamento: recessão e desemprego

Fatura do rebaixamento: recessão e desemprego

População deve se preparar para tempos difíceis. País terá, entre 2015 e 2016, o pior desempenho econômico desde a Grande Depressão dos anos 1930. Perda do grau de investimento atingirá os mais pobres e levará a aumento da desigualdade social

» RODOLFO COSTA » ANTONIO TEMÓTEO
postado em 13/09/2015 00:00


Os brasileiros devem se preparar para tempos difíceis. Ainda que a grande maioria da população não tenha a exata noção de como o rebaixamento do Brasil pela agência de classificação de risco Standard & Poor;s (S) afetará sua vida, há uma certeza: coisa boa não é. A sabedoria popular não falha. Nos próximos meses, o país vai se deparar com um quadro caótico, que misturá desemprego com inflação alta, juros extorsivos, crédito escasso, dólar a R$ 4 e inadimplência. A dessarumação será tamanha que a economia registrará pelo menos dois anos seguidos de retração, fato que não se vê desde a Grande Depressão, no início dos anos de 1930.

;Teremos um grande período de perdas;, admite o economista Carlos Alberto Ramos, da Universidade de Brasília (UnB). O retrocesso se dará, sobretudo, por causa da perda do emprego e da renda. ;Estamos prevendo taxa de desocupação de 10% no fim deste ano;, afirma. Isso significa dizer que, em apenas 12 meses, a taxa vai mais que dobrar. Em dezembro do ano passado, quando a presidente Dilma Rousseff alardeava que o governo havia conseguido manter os postos de trabalho mesmo com a crise, o desemprego estava em 4,3%. Trata-se de uma piora sem precedentes em tão curto espaço de tempo.

No entender dos especialistas, assim como o governo precisa cortar gastos para arrumar a casa, a população terá que pisar fundo no freio do consumo. ;O sacrifício será grande;, admite João Pedro Ribeiro, da Nomura Securities. Com a recessão se agravando, podendo comprometer até 2017, a população terá de conviver com forte aumento da informalidade e das desigualdades. Especialistas que acompanham indicadores sociais do país já veem uma parcela das pessoas que ascenderam à nova classe média nos últimos anos voltando a fincar os pés na pobreza. Não será um processo rápido, mas, ao final dele, poderá se ver um retrocesso expressivo.

Margem de manobra

Os prejuízos contabilizados por países que perdem o grau de investimento são inevitáveis, garante a economista Julia Gottlieb, do Itaú Unibanco. Ela se deu ao trabalho de verificar o que aconteceu com nações que perderam o selo de bom pagador. O PIB caiu por dois anos seguidos. A inflação, por causa da disparada do dólar, aumentou dois pontos percentuais no ano do rebaixamento. Os juros também subiram e a dívida bruta, que mostra a saúde das finanças do governo, disparou. É possível que, no Brasil, o endividamento público salte dos atuais 64,6% para 71% do PIB.

Para o presidente da Bullmark Financial Group, Ricardo Nobile, a perda do selo de bom pagador pelo Brasil punirá, sobretudo, os mais pobres. A razão é simples: acabou a margem de manobra que o governo tinha para ampliar a rede de proteção social que foi supereficaz em 2008, ano do estouro da bolha imobiliária dos Estados Unidos. Naquele período, havia espaço no caixa do Tesouro para ampliar benefícios como o Bolsa Família. Agora, com as contas em frangalhos, o governo será obrigado a restringir até os programas sociais.

A população de baixa renda, por sinal, já vinha sofrendo com a perda de poder aquisitivo. Com a inflação dos que ganham até 2,5 salários mínimos por mês acima de 10%, muita gente foi obrigada a retirar produtos básicos dos carrinhos de supermercados. Não por acaso, a produção de alimentos recuou forte, assim como as vendas do varejo. ;O quadro é dramático. Não há como fugir. A fatura a ser paga é pesada. Tomara que o goveno aja rápido, pois, quanto mais protelar o ajuste fiscal que levou à perda do grau de investimento, piores serão as consequências;, assina Nobile.


Inflação

Na avaliação de João Pedro Ribeiro, da Nomura, não há como pensar em uma melhora tão cedo da economia. ;O viés é de piora;, diz, ressaltando que a presidente Dilma errou demais na gestão da economia nos últimos quatro anos. ;Uma hora, a conta chegaria.; A inflação de 2016, acrescenta, será maior. Mercado já prevê 6,5%.

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