Narguilé e iniciação ao fumo

Narguilé e iniciação ao fumo

PAULO EDUARDO XAVIER DE MENDONÇA Diretor-geral do Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca) TÂNIA CALVANTE Secretária executiva da Comissão Nacional para Implementação da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (Conicq/Inca)
postado em 13/09/2015 00:00

Em relação ao fumo, temos motivos para comemorar e para nos preocupar. Mais de um terço dos brasileiros fumava no fim da década de 1980, proporção reduzida para 14,7% em 2013 (Pesquisa Nacional de Saúde IBGE/Ministério da Saúde), graças a uma série de políticas educacionais, legislativas e de taxação e preços mínimos para produtos de tabaco.
O aspecto que nos preocupa é o uso do narguilé entre os jovens. Sabemos que a maior parte dos fumantes inicia-se no tabagismo antes dos 18 anos. O narguilé, habitualmente utilizado em bares e outros pontos de encontro de jovens, pode passar a ser uma das portas de entrada para a iniciação ao uso do tabaco.


Antes de tudo, é preciso frisar que o produto inalado via narguilé é tabaco. Equivocadamente, muitos acreditam que a fumaça produzida pelo narguilé é menos tóxica porque passa por um recipiente de água antes de ser aspirada. Vários fatores contribuem para tornar o narguilé atraente para os jovens. O primeiro é a possibilidade de socialização, tão importante nesse estágio da vida, uma vez que o consumo acontece principalmente em grupo, nos locais de baladas.
Outro fator é a adequação do produto à iniciação ao tabaco. O narguilé é dispositivo no qual o tabaco é aquecido e a fumaça gerada passa por recipiente de água antes de ser aspirada. É muito comum a adição de aromatizantes e flavorizantes com sabores de frutas e mentolados, mesma estratégia utilizada pela indústria do tabaco para promover a iniciação ao consumo de cigarros. O cheiro e o sabor agradáveis induzem até mesmo à confusão de que as sessões não usam tabaco.


Ampla evidência científica associa o uso de narguilé ao desenvolvimento de câncer de pulmão e doenças respiratórias, coronarianas e periodontais, além de câncer de boca, bexiga, leucemia e baixo peso ao nascer. Após sessão de 45 minutos, verifica-se nos usuários a elevação das concentrações plasmáticas de nicotina, de monóxido de carbono expirado e dos batimentos cardíacos. Ocorre também maior exposição a metais pesados, altamente tóxicos e de difícil eliminação, como o cádmio. Seu uso em locais fechados contamina o ambiente com substâncias tóxicas e cancerígenas e coloca em risco a saúde dos não fumantes. Assim como cigarros, charutos, cachimbos e outros derivados do tabaco, também é proibido o consumo do narguilé em ambientes fechados (Lei Antifumo n; 12.546/2011).


A intoxicação pelo monóxido de carbono, após a utilização do narguilé, pode aumentar o risco de acidentes no trânsito, devido à diminuição do oxigênio no cérebro, que pode provocar problemas com a coordenação motora, tonturas, fadiga e sonolência. Estudo do Instituto de Tecnologia de Israel demonstrou que o envolvimento de usuários de narguilé em acidentes de trânsito é 40% maior do que o de não usuários. Os riscos do uso do narguilé não estão somente relacionados ao tabaco, mas também a doenças infectocontagiosas. O hábito de compartilhar o bocal pode resultar na transmissão de doenças como herpes, hepatite C e tuberculose.


Originário da Índia, o narguilé popularizou-se, inicialmente, no Afeganistão, no Oriente Médio,na Turquia e na África. Na década passada, observou-se rápido crescimento do consumo entre os jovens no Ocidente com a proliferação de bares, cafés e restaurantes com narguilé na Europa e na América do Norte. Estima-se que cerca de 100 milhões de pessoas usem narguilé para fumar tabaco todos os dias no mundo, o que indica que esta prática é bem mais do que uma onda passageira.
O cachimbo é colorido, a fumaça é cheirosa e as sessões reúnem os amigos, mas as consequências são graves para a saúde dos nossos jovens. Trabalhamos arduamente durante décadas para desmascarar o glamour do cigarro e reduzir a iniciação ao tabagismo. Não podemos permitir nenhum tipo de retrocesso nessa conquista.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação