Libido em pílulas

Libido em pílulas

por Paulo Pestana papestana@uol.com.br
postado em 13/09/2015 00:00
;Agora zerou o jogo;, me disse o excitado amigo, sem esconder a baba que pendia do lado direito da boca. E, sem perder o compasso, passou à explicação: ;Com essa pílula rosa aí não vai ter mais maria-difícil; é só diluir no energético e pimba;. E caprichou na exclamação.

Ele estava falando da flibanserina, medicamento aprovado nos Estados Unidos e que promete devolver o desejo sexual às mulheres. É claro que a conversa não parou por aí. Ele tinha toda uma teoria sobre a relação entre os gêneros, mas confesso que não prestei atenção.

Meu amigo não chega a ser um bronco; estudou muito, tem PhD em química. Mas de mulher, que é uma ciência muito mais difícil, ele não entende nada. Aliás, nem eu; mas pelo menos não fico tentando mostrar conhecimento e derramando teorias.

De uma coisa, eu tenho certeza: com ou sem pílula, as mulheres vão continuar selecionando parceiros do mesmo modo que acontece hoje. Pode diluir onde quiser, dar dose para aliá (que é a fêmea do elefante), que não vai colar.

Lembrei-me de outro amigo, este dos tempos de adolescência, quando as moças dificultavam ao máximo a vida dos rapazes de mão boba. Um dia, ele cismou de pingar gotas de um medicamento que fazendeiros aplicavam nas éguas durante o cio nos copos das meninas.

Ele conseguiu o medicamento ; ninguém nunca soube como ; e, na primeira festa, tentou a abordagem. Éramos todos meio irresponsáveis e, depois de tentar demovê-lo da ideia, ficamos observando a função.

Era um sujeito simpático, bem falante; as moças não o achavam bonito, mas era um tipo interessante, de cabelos longos e sorriso largo. Não precisava do expediente. Mas era uma época em que era difícil até dançar ; as moças colocavam a mão no peito dos rapazes para delimitar a distância. Uma judiação.

E saiu pela festa oferecendo refrigerante. Dizia que não queria ser feliz sozinho, portanto, deixaria o campo aberto para a turma toda. O tempo foi passando e estava tudo como antes; as moças dançando, brincando, conversando ; e sem avançar o sinal. Não adiantou nada. Saímos da festa com os países baixos doloridos, como sempre.

O mal dos homens é querer raciocinar como se as mulheres obedecessem à lógica masculina. O desejo sexual feminino obedece a tantos fatores que é praticamente impossível relacioná-los. Tenho um camaradinha que aprendeu a driblar o mais comum deles: chegou para a mulher, que já estava deitada, com um copo d;água e um comprimido. Ela disse: ;Não estou com dor de cabeça, meu bem;. Quase não deu tempo de pôr o copo no criado-mudo antes de ele se jogar sobre ela.

A pílula rosa é uma vitória para as mulheres, e só pra elas, simplesmente porque dá à mulher o direito de recuperar a libido, se assim ela quiser. E ainda abre uma discussão que, mesmo depois de tantos avanços, esbarra em preconceitos e desinformação. Os homens mais inteligentes estão com as mãos ocupadas, aplaudindo; mas o mundo continua cheio de idiotas de mão boba.




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