Literatura de consumo

Literatura de consumo

Maior sucesso da literatura chicklit, escritora está no país para lançar o 16º volume da série Becky Bloom

Nahima Maciel
postado em 13/09/2015 00:00
 (foto: John Swannell/Divulgação)
(foto: John Swannell/Divulgação)

Quando escreveu o primeiro livro da série Becky Bloom, Sophie Kinsella queria apenas tratar de um universo que conhecia bem. Depois de quatro anos mergulhada em romances mais, digamos, sérios, assinados com o nome real, Madeleine Wickham, ela desejava algo mais leve e familiar. Formada em economia em Oxford (Inglaterra), e autora de sete romances anteriores à série, Madeleine provara ser capaz de fugir das referências autobiográficas e escrever sobre coisas que não conhecia. Quando criou Becky Bloom, estava livre. Virou fenômeno da chicklit, gênero de literatura feminina leve e romântica. ;Eu sabia que Becky Bloom era diferente dos livros que eu havia escrito e pensei que talvez ninguém fosse compreender a personagem ou o humor do livro;, conta a autora, que lançou ontem, na Bienal do Rio de Janeiro, o 16; livro da série, Becky Bloom em Hollywood.

A personagem doentiamente consumista já vendeu mais de 250 mil exemplares. É um fenômeno editorial que provoca filas e, sobretudo, identificação por parte das leitoras. Jornalista viciada em compras, Becky precisa lidar com todas as consequências de suas extravagâncias. É bastante diferente de Sophie, embora a autora não tenha hesitado em inserir elementos autobiográficos nas aventuras vividas pela protagonista. A série fez tanto sucesso que o primeiro livro deu origem ao filme Os delírios de consumo de Becky Bloom.

No Rio, a autora lança ainda À procura de Audrey, primeira incursão no universo da literatura para jovens adultos. Mãe de quatro filhos, aos 46 anos, ela acredita ter sido confrontada com questões que interessam aos adolescentes, por isso, escreveu o romance sobre uma menina de 14 anos à beira da depressão por conta de bullying. ;Acho que estamos discutindo essas questões com mais frequência, particularmente na literatura, o que é ótimo. Foi uma das razões pelas quais eu queria escrever sobre ansiedade social;, explica. Abaixo, Sophie Kinsella conta como decidiu mudar de área, como encara esse tipo de literatura considerada uma subcategoria do romance e o que a motiva a continuar a história inesgotável de Becky Bloom.






Mudança de rumo
Eu sabia que Becky Bloom era diferente dos livros que havia escrito e pensei que, talvez, ninguém fosse compreender a personagem ou o humor do livro. Eu queria que fosse julgado pelos seus próprios méritos, então meu agente o levou ao editor com o pseudônimo e fiquei emocionada quando a editora, Linda, gostou do livro sem saber que era meu. Ela não acreditava que eu havia mantido isso sob segredo. Meus romances anteriores eram essencialmente dramas com um pouco de comédia, mas, com Delírios de consumo de Becky Bloom, eu queria mergulhar profundamente e ridiculamente na comédia. Eu queria escrever o tipo de livro que me faria rir, mas não tinha ideia se faria outras pessoas rirem ; por isso fiquei um pouco nervosa.

Madeleine Wickham X Sophie Kinsella
Os romances que escrevi como Madeleine Wickham formavam um conjunto, o que deu a cada personagem e a cada relação um espaço e tempo equilibrados. Com Sophie Kinsella, eu tendo a ter uma heroína em primeira pessoa e a história gira em torno dela. Como Sophie, me sinto incrivelmente conectada às minhas heroínas. Acho que coloco mais de mim mesma nos personagens e acho que, em consequência, tenho uma conexão muito próxima com meus leitores. E também passo muito mais tempo pesquisando em lojas.

Inspiração autobiográfica
Antes de começar a escrever, eu trabalhava, acredite ou não, como jornalista de economia para uma revista sobre aposentadoria. Sempre amei comprar, mas de repente pensei: ;E se uma jornalista de economia fosse viciada em compras?;. Tudo veio daí... Até então, eu resistira em escrever um romance autobiográfico porque queria mostrar que podia escrever sobre uma quantidade enorme de questões e personagens. Mas então, tendo escrito um certo número de livros, me senti apta para relaxar um pouco, escrever algo um pouco mais confessional e me divertir com isso.

Chicklit X subgênero
Eu lido com algumas questões muito importantes nos meus livros ; dívida, consumismo, vício em trabalho etc. Eu tento ser engraçada, mas há sempre algo mais sério subentendido na história. Acho que meus leitores entendem isso. Apesar de os livros serem alegres e engraçados, não há nada de ;fofo;. As pessoas se identificam com o otimismo de Becky, sua ingenuidade, as complexidades de sua personalidade e os desafios que ela enfrenta.

Preconceitos reforçados
Acho que se pode dizer o mesmo de alguns thrillers escritos por homens. Na verdade, esse tipo de comentário é normalmente feito por pessoas que não leram os livros. Becky é um personagem que domina as situações difíceis às quais é apresentada e, com frequência, encontra soluções que homens à sua volta não conseguiram enxergar.

Personagens superficiais
Nós não somos definidos apenas por uma única característica. Apesar de Becky amar as compras e Emma (de O segredo de Emma Corrigan) dizer algumas mentiras, essas não são suas únicas qualidades. Elas cometem erros, mas os superam. São mulheres fortes, inteligentes, intensamente leais aos amigos e à família. São multifacetadas, com defeitos, mas ainda assim inspiradoras. Eu mesma, de fato, sou muito estudada e posso também cometer erros. Eu também compro coisas que não preciso e também fico excitada com um novo gloss para os lábios. Sou humana!

Fenômeno literário
Acho que é um fenômeno porque esses romances lidam com personagens e situações que realmente encontram ressonância entre os leitores e não estão muito longe de suas experiências. De fato, muitos leitores me disseram que eles colocaram um freio em seus gastos de ler sobre Becky.

Bullying e depressão
Acho que estamos discutindo essas questões com mais frequência, particularmente na literatura, o que é ótimo. Foi uma das razões pelas quais eu queria escrever sobre ansiedade social. Tantas pessoas são afetadas por isso de maneira significativa ou rapidamente, e é importante para as pessoas entenderem o que elas estão passando. Se eu puder dar esperança para alguém que sofre dessa maneira, então ficarei contente.



Becky Bloom em Hollywood
De Sophie Kinsella. Tradução: Regiane Winarski. Record, 560 páginas. R$ 39



À procura de Audrey
De Sophie Kinsella. Tradução: Glenda d;Oliveira. Galera Records, 336 páginas. R$ 35

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