Por uma vida menos acelerada

Por uma vida menos acelerada

Especialistas debatem como a sociedade moderna, imediatista e ansiosa, perpetua uma geração de pessoas infelizes e insatisfeitas

postado em 13/09/2015 00:00
 (foto: Fotos: Arquivo Pessoal)
(foto: Fotos: Arquivo Pessoal)

A contagem das horas está diferente. O tempo do relógio é diferente da marcação da alma. Os desejos e a ansiedade estão mais rápidos, acelerados e sufocantes. Tudo é para ontem. Não se tolera a hipótese de esperar, menos ainda a de deixar para depois. O imediato ganha força com a tecnologia, que oferece a possibilidade de fazer tudo agora. A falta de capacidade de aguardar, porém, tem efeitos colaterais. Atropela a passagem natural das horas e dilacera a saúde mental. Não se aceitam frustrações e o resultado é uma geração de pessoas infelizes e sempre insatisfeitas se não têm os desejos atendidos. ;Esse imediatismo é absolutamente infantil, o que leva muitos pensadores a dizer que hoje nossa população adulta é absolutamente infantilizada;, afirma a psicóloga Rosely Sayão.

Em um encontro, em São Paulo, Rosely e a lifecoaching Ana Raia discutiram o tema do imediatismo com outros especialistas. Elas debateram, especialmente, como mães imediatistas sofrem com a incapacidade de desempenhar todos os papéis ; de mãe, mulher e esposa ; ao mesmo tempo e com o medo de não atender a todas as demandas da prole.

O que elas dizem

Rosely Sayão, psicóloga

Prazer X realidade
;Podemos dizer que a origem do imediatismo é logo após o nascimento. O bebê está tranquilo, protegido, em um ambiente muito confortável. Ele nasce e é jogado em um ambiente não tão confortável assim e começa a sentir algum desconforto. A criança não sabe o que sente, mas chora e chega uma pessoa que lhe dá de mamar. Além dessa satisfação de uma necessidade básica da fome, sente uma sensação que a gente chama de prazer. Nesse momento, o bebê passa a querer mais. E quer agora. Então, a mãe precisa começar a jogar umas gotinhas de realidade, que é: ;Agora preciso descansar. Agora preciso tomar banho. Agora não é sua vez, mas do meu marido.; Aos poucos, a criança começa a sentir que não é o princípio do prazer que vai reger a vida dela, mas um certo equilíbrio entre o princípio do prazer e da realidade.;

Mães imediatistas, filhos idem
;Há uma tendência de atender ao filho de imediato e isso deveria ser uma tendência dele e não das mães. Hoje, a criança e o adolescente pedem qualquer coisa e a mãe se sente pressionada a atender. Em geral, a primeira resposta é sim, uma resposta quase sempre impensada. O momento atual é para se perguntar por que temos dito sim para a maioria das coisas e isso tem uma relação muito direta com esse imediatismo. Ela deveria responder ao filho: ;Não sei. Vou pensar;. Isso é maravilhoso porque a criança se defronta com uma questão da vida, que é pensar. O contexto social e cultural ajuda a determinar isso, essas mães que não querem frustrar os filhos. Mas o que mais percebo é a ausência quase que total da nossa crítica: o mundo diz que devo fazer isso, mas eu quero, eu posso, eu devo? Considerando o que quero para mim, para minha vida, considerando os meus valores, os meus princípios. Isso me incomoda muito nessa geração atual. Tanto os jovens como os jovens adultos.;

Eterna adolescência
;O imediatismo tem muitas consequências a longo prazo. A gente não se dá conta da nossa infantilidade. Há uma obrigação de ser jovem e isso não se restringe somente à aparência. Há o pacote completo e nele está o ;Eu quero e agora;. O jovem tem maior dificuldade de lidar com o outro porque a prioridade dele é ele mesmo. Isso deve ser superado. A infância e a adolescência hoje não são superadas pelos adultos. O mundo padece hoje de um apagão de competência profissional em todas as áreas. E um pouco disso é resultado dessa infantilidade que a gente mantém dentro de nós por causa desse imediatismo.;

Alienação
;O maior prejuízo emocional do imediatismo é a alienação em torno da realidade. O adulto fica com esse imediatismo cultivado, quer tudo para agora e isso não existe. Isso cria um problema sério de compreensão do mundo. Essa alienação o faz construir um mundo ilusório. Por isso, é tão importante o autoconhecimento. Esse investimento em se conhecer ajuda a gente a se modificar. Tem coisas que são de dentro para fora e a gente quer sempre de fora para dentro. Esse é o resultado do imediatismo. Mas o processo leva tempo, meditação, esforço, concentração, perseverança. Tudo isso não combina com o imediatismo. Vejo que, se a gente conseguir ser um pouco crítico em relação a todas essas demandas, vamos nos conhecer pelo menos um pouco mais.;

Ana Raia, life coaching

Mãe maravilha
;Nos últimos 50 anos, a gente vem conquistando espaço em diversas áreas além da familiar. Isso nos trouxe liberdade, muitas realizações, mas também mais demandas. O que vejo, no entanto, é pouca habilidade de lidar com tantas solicitações. O mundo hoje espera que você responda imediatamente e espera que esteja disponível 24 horas por dia, consiga dar conta de todos esses papéis. Você se identifica um pouco com o modelo da mulher maravilha, a mulher polvo, que tem 12 braços: um está no computador, outro fritando ovo, outro dando de mamar e, além disso, ela precisa estar magra e com as unhas feitas.;

Perfeitas, frustradas e ansiosas
;Imediatismo aliado a esse modelo de perfeição está trazendo muita frustração. Até acredito que você possa conseguir tudo na vida, mas não ao mesmo tempo. O que quebra nossas pernas é justamente querer tudo aqui e agora. A ansiedade virou um padrão comportamental da nossa sociedade global. Outro ponto desse imediatismo é: quando se faz tudo ao mesmo tempo, você tem pouca presença naquele momento, não se conecta com a ação feita aqui e agora. A conexão acaba sendo muito superficial também. A ansiedade impede que a gente possa desenvolver um pensamento crítico, pensante, porque nossas mentes estão completamente aceleradas, lotadas de informação que não conseguimos processar, então, assumimos que temos que fazer tudo ao mesmo tempo, precisamos ser perfeitas e acabamos sofrendo e perdendo muito tempo nesse cenário.;

De geração para geração
;A gente percebe que nós, adultos, somos imediatistas. Então, como a gente espera que os nossos filhos não sejam? Duas gerações atrás, era mais natural a mulher se frustrar. Ela sustentava melhor o

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação