Da rua às suítes

Da rua às suítes

Cerca de 450 famílias do Movimento Resistência Popular e expulsas de estacionamento invadem o St Peter Hotel, famoso por falsa ameaça terrorista e pela oferta de emprego a José Dirceu. Justiça autoriza a reintegração de posse

» JOÃO GABRIEL AMADOR Especial para o Correio » NATHÁLIA CARDIM » ROBERTA PINHEIRO
postado em 15/09/2015 00:00
 (foto: Rodrigo Nunes/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Rodrigo Nunes/Esp. CB/D.A Press)








Das barracas ao hotel de luxo. Depois de mais de dois meses mobilizados em um estacionamento do Setor Bancário Norte (SBN), os integrantes do Movimento Resistência Popular (MRP) ocuparam suítes em sete andares do St Peter Hotel, no Setor Hoteleiro Sul. Mesmo com a decisão da Justiça determinando a reintegração de posse, os manifestantes se negam a sair do local e prometem resistir. O hotel é o mesmo de casos que colocaram a capital nos noticiários nacional e internacional, como o de um falso ataque terrorista e da oferta de emprego a um já condenado José Dirceu (leia reportagem abaixo).

Desta vez, o MRP usou as sacadas do empreendimento para entoar palavras de ordem e estourar rojões. O grupo invadiu as instalações na madrugada de ontem, por volta das 2h, após passarem o domingo em busca de um abrigo, no Setor de Diversões Sul (Conic). O St Peter não recebia ninguém havia sete meses. Em março, o Tribunal de Justiça do DF e dos Territórios (TJDFT) expediu uma ordem de despejo que pegou hóspedes e funcionários de surpresa. Mobílias, camas e televisões que ficaram para trás ganharam novos usuários nesta segunda-feira. ;Nunca dormi em uma cama tão macia.

Acabei de tirar o melhor cochilo;, contou Maria Auxiliadora Marques, 50 anos. A integrante do MRP viveu boa parte da infância nas casas onde a mãe trabalhava como diarista, mas nunca viu ;tanto luxo;. Ao contrário do acampamento no SBN, os manifestantes desfrutaram de água quente para tomar banho, cozinha, além de ficarem protegidos do sol e da chuva.

Apesar disso, as lideranças do movimento afirmaram que só utilizaram a estrutura básica do hotel. ;Fomos na área da piscina, mas ninguém ;boiou;;, disse Solange Oliveira, 36. A vendedora deixou uma filha de 11 anos com a mãe, em Brazlândia, para integrar o MRP há seis anos. ;Quando a gente entra em uma luta por moradia acaba lutando sempre. Se houver reintegração de posse, não teremos para onde ir e vamos ocupar um novo local no Plano Piloto;, adianta.

Os advogados do St Peter Hotel entraram com o pedido de reintegração de posse no início da tarde de ontem. Até o fechamento desta edição, eles obtiveram resultado favorável, mas, de acordo com informações da Polícia Militar, a operação estava em planejamento. Em assembleia, o grupo que ocupa o prédio decidiu permanecer no empreendimento.

Direitos


A saga das 450 famílias, segundo os coordenadores do movimento, começou em 1; de junho, quando o grupo armou acampamento na porta da Secretaria de Fazenda do DF. Eles cobravam a prorrogação do auxílio aluguel de R$ 600, até que cada integrante recebesse uma moradia pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional do Distrito Federal (Codhab) ou participasse de um programa de habitação para cidadãos de baixa renda. Após uma reintegração de posse, eles migraram as barracas para o SBN. Lá, permaneceram 78 dias, até que outra ação do Corpo de Bombeiros, da Polícia Civil e de profissionais da Novacap e da Terracap obrigou o grupo a sair do local, no último sábado.

Depois de permanecerem no Conic por um dia, o grupo decidiu seguir até sede da Codhab, no Setor Comercial Sul. ;Mas, no meio do caminho, vimos o prédio abandonado e ocupamos;, explicou o coordenador Francinaldo Silva. Durante a madrugada, alguns policiais militares tentaram impedir a invasão. Na confusão, um dos PMs quebrou o vidro de uma das portas do hotel com um chute. Há uma gravação do vandalismo. ;A polícia foi agressiva. Chutaram e jogaram spray de pimenta. Uma criança de cinco meses passou mal;, conta Maria Auxiliadora. Apesar disso, não foi possível impedir a tomada do lugar.

A manhã de ontem ficou marcada pelas negociações entre representantes do MRP, advogados do empreendimento e governo. No entanto, os manifestantes se mostraram resistentes. Nem mesmo a visita do subsecretário de Movimentos Sociais e Participação Popular, Acilino Ribeiro, convenceu as lideranças a deixarem o local. Em busca de um acordo, Acilino convocou uma reunião com representantes do GDF para a tarde. Contudo, integrantes da Secretaria de Relações Institucionais e Sociais (Seris); da Codhab; da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Social; e da Subsecretaria da Ordem Pública e Social (Seops) consideraram que o MRP não tem documentação necessária para cobrar os benefícios requisitados. ;Ao longo dos últimos meses, foi exigida a formalização do movimento, porém, eles não apresentaram o solicitado. Do ponto de vista legal, o grupo não tem validade;, esclarece Manoel Alexandre, subsecretário da Seris. ;E não é invadindo propriedades particulares que se dialoga;, acrescenta.

Dissidência

O MRP foi criado em 2009 como dissidência do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), em razão de discordâncias políticas. A primeira ocupação do grupo ocorreu em 2010, em um acampamento erguido na BR-070.

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