A frágil equação da reforma ministerial

A frágil equação da reforma ministerial

Com a proposta de reduzir a quantidade de pastas, Dilma encontra dificuldades para fechar a negociação política. Mangabeira Unger pediu demissão da Secretaria de Assuntos Estratégicos

PAULO DE TARSO LYRA
postado em 15/09/2015 00:00
 (foto: Ueslei Marcelino/Reuters - 5/2/15)
(foto: Ueslei Marcelino/Reuters - 5/2/15)


A presidente Dilma Rousseff terá muitas dificuldades para fechar a equação da reforma ministerial, já que seu governo mergulhou em um clima de intriga e briga de poder entre o PT, os aliados e os movimentos sociais. Atuando isoladamente ou em conjunto, esses grupos poderão zerar todo o esforço da presidente para obter a economia ; pequena, diga-se de passagem, de R$ 200 milhões ; com a redução do tamanho da Esplanada e realinhar as forças políticas que lhe permitam sobreviver ao risco de impeachment que cresce diariamente.

O nível de tensão e desconfiança é tanto que Dilma tirou da comitiva do vice-presidente Michel Temer, que embarcou no sábado para uma viagem à Rússia e à Polônia em busca de investidores, dois ministros que considera leais: Jaques Wagner (Defesa) e Kátia Abreu (Agricultura). O comboio peemedebista aos países europeus foi visto pelo Planalto como uma chance para uma conspiração além-mar, já que a legenda defende o desembarque do governo em novembro, durante o Congresso Nacional do partido.
Ao petista Jaques Wagner, ela pediu que permanecesse em Brasília neste momento em que o governo estuda os cortes econômicos e o novo desenho da Esplanada. Para Kátia, sua fiel escudeira no PMDB, o pedido foi semelhante. Mas, antes mesmo da conversa com a presidente, a ministra da Agricultura já cogitava a possibilidade de não embarcar para a Rússia, por ter a exata noção das repercussões da viagem internacional, apesar das ótimas relações ; políticas e pessoais ; que mantém com Temer.

O nível brutal de desconfiança chegou ao ponto de ministros próximos à presidente defenderem que ela definisse, esta semana ainda, as mudanças na Esplanada, sem consultar o vice e o PMDB. Dilma resolveu não comprar uma briga tão explícita e vai esperar para conversar com Temer semana que vem quando o vice-presidente já estiver de volta.

Para todos os efeitos, no entanto, a reforma já começou ontem. O ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), Mangabeira Unger, pediu demissão do cargo, o que foi prontamente aceito pela presidente. Outros vespeiros maiores estão na mesa de Dilma e não se sabe se ela terá coragem de mexer neles.

Uma das dúvidas é se ela, agora ou mais para frente, promoverá ou não a mudança na Casa Civil, com a saída de Aloizio Mercadante. Atacado por peemedebistas, petistas, e até pelo ex-presidente Lula, Mercadante mantém-se no posto por conta da histórica teimosia de Dilma. Dois nomes aparecem na bolsa de apostas para substituí-lo, caso a presidente ceda às pressões externas: a própria Kátia Abreu e o ministro de Ciência e Tecnologia, Aldo Rebelo.

;Rojão;

Curiosamente, ambos estavam ontem no Planalto, longe dos holofotes e dos microfones, enquanto os ministros da Fazenda, Joaquim Levy, e do Planejamento, Nelson Barbosa, explicitavam as medidas para cobrir o deficit de R$ 30,5 bilhões do Orçamento. E podem se encaixar no perfil por razões e perfis diferentes. Aldo é um político habilidoso, clássico, com bom trânsito no Congresso, inclusive com a oposição. Já foi articulador político do governo Lula, mas não é unanimidade. ;Ele é bom em condições políticas normais. Tenho dúvidas se, neste momento de crise, ele segura o rojão;, criticou um petista.

Kátia Abreu é uma incógnita ainda maior. ;O PT vai destruir essa proposta antes que ela surja. A gênese de Kátia é o PFL, ela é reacionária, os movimentos sociais não aceitarão;, esbravejou um senador petista. Contra ela também pesa o fato de não ser uma peemedebista histórica. Se é para acalmar o PMDB com um cargo no coração do Planalto ; mais central que a Casa Civil, impossível ;, melhor seria se a vaga fosse para um cacique partidário, não para uma cristã nova na legenda.

;Kátia é uma gerentona, cópia fiel da presidente, tanto que são amicíssimas;, elogiou um interlocutor governista. Isso poderia fazer com que Dilma faça ouvidos moucos às críticas, que já foram enormes quando Kátia foi escolhida para o Ministério da Agricultura, e devem tornar-se ensurdecedores caso ela seja deslocada para a Casa Civil.

Dilma também precisará decidir se preservar os ministérios sociais do PT ou se reúne todos em um Ministério da Cidadania, englobando Direitos Humanos, Igualdade Racial e Política para Mulheres. Por conta da pressão do Banco Central, a tendência é que ela mantenha o status de ministério do BC, da Advocacia-Geral da União (AGU) e da Controladoria-Geral da União (CGU).

Somado a tudo isso, Dilma ainda precisa retomar a confiança dos aliados no movimento social. ;Vamos defender o governo da direita. Mas Dilma precisar colocar em pauta a agenda da esquerda que a elegeu. Caso contrário, vamos às ruas para criticar a presidente;, disse a coordenadora paulista do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto, Natalia Vernita.

; Em que pé está / Quinze dias para o governo decidir o futuro da reforma ministerial na Esplanada

O que o governo queria inicialmente

; Banco Central, Advocacia-Geral da União e Controladoria-Geral da União perderia status de ministério

; Ministério da Pesca seria agregado ao Ministério da Agricultura

; Ministério da Micro e Pequena Empresa seria agregado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio

; Secretaria de Aviação Civil e Secretaria de Portos seriam agregados ao Ministério dos Transportes

; Secretaria de Assuntos Estratégicos, Secretaria de Relações Institucionais e Gabinete de Segurança Institucional (GSI) seriam extintas

O que pode ser feito

; Banco Central, Advocacia-Geral da União e Controladoria-Geral da União manterão status de ministério

; Ministério do Desenvolvimento Agrário será agregado ao Ministério do Desenvolvimento Social (MDS)

Permanecem de acordo com o modelo original:

; Ministério da Pesca será agregado ao Ministério da Agricultura

; Ministério da Micro e Pequena Empresa passa a agregar o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio

; Secretaria de Aviação Civil e Secretaria de Portos incorporada ao Ministério dos Transportes

; Secretaria de Assuntos Estratégicos, Secretaria de Relações Institucionais e Gabinete de Segurança Institucional (GSI) serão extintas

O que também defendem os aliados

; A substituição de Aloizio Mercadante na Casa Civil
; Ministérios sociais (Secretaria de Proteção à Mulher e Secretaria da Igualdade Racial) seriam agregados à S

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