A crise se aprofunda

A crise se aprofunda

Áustria, Eslováquia e Holanda seguem o exemplo da Alemanha, reforçam controle da fronteira e suspendem o espaço de Schengen. União Europeia aprova operações militares no Mar Mediterrâneo. Reunião ministerial em Bruxelas termina sem acordo

Rodrigo Craveiro
postado em 15/09/2015 00:00
 (foto: Armend Nimani/AFP)
(foto: Armend Nimani/AFP)





A crise migratória da União Europeia (UE) parece cada vez mais distante de uma solução, ante o fracasso dos ministros do Interior em alcançar um acordo unânime sobre o plano de redistribuição de cotas de 120 mil refugiados entre os países do bloco. Depois da surpreendente decisão da Alemanha de suspender o espaço de Schengen ; o acordo que permite o livre trânsito entre as nações ;, os governos de Áustria, Eslováquia e Holanda anunciaram o reforço do controle sobre suas fronteiras e também levantaram a tratativa. Foi uma reação ao fluxo de milhares de imigrantes nos últimos dias. A polícia húngara fechou, na tarde de ontem, a principal passagem fronteiriça com a Sérvia, na cidade de Roszke. Em outra resolução polêmica, os Estados-membros da UE aprovaram planos legitimando ações militares contra traficantes de seres humanos no Mar Mediterrâneo. A proposta permite a destruição de barcos e de redes de contrabandistas em águas territoriais líbias.

Fatima Kurdi, tia do menino de 3 anos fotografado morto em uma praia da Turquia, foi recebida em Bruxelas pelo ministro de Relações Exteriores de Luxemburgo, Jean Asselborn, e fez um apelo emotivo para que a UE adote um plano de emergência a fim de redistribuir os refugiados. ;Abram suas portas, abram seus braços, abram seus corações;, pediu Fatima, durante entrevista por telefone ao Correio (leia o Três perguntas para). No quartel-general do bloco, ela desabafou: ;Abram seus corações, tomem uma ação e venham com um plano compartilhado. É por isso que estou aqui, para honrar a família de meu irmão (Abdul-lah, pai de Alan);.

O acordo naufragou depois de várias horas de discussões. ;Nem todos estão a bordo;, lamentou Asselborn, que comandou a reunião com os ministros europeus. Além do fardo econômico e social, existe o temor de que terroristas se infiltrem em meio aos imigrantes. O otimismo, no entanto, permanece. O luxemburguês lembrou que uma ;grande maioria; está a favor da redistribuição de cotas e disse esperar uma definição para 8 de outubro. Para tentar evitar uma temida segunda onda de imigrantes para a Europa, o premiê britânico, David Cameron, fez uma visita-surpresa ao Líbano e à Jordânia e deixou-se fotografar com sírios no campo de refugiados jordaniano de Zaatari.

Merkel
A Alemanha espera receber até 1 milhão de refugiados até o fim do ano, superando em 200 mil a expectativa inicial. ;Qualquer pessoa que entrar com pedido de asilo em solo alemão terá permissão para ficar até que uma decisão seja alcançada;, afirmou o vice-chanceler Sigmar Gabriel, ao comentar a reintrodução de controles de identidade nas fronteiras. A mudança de postura das autoridades alemãs colocou a chanceler Angela Merkel em meio a uma rebelião de seu próprio partido. Jens Spahn, uma das lideranças do governista União Democrata Cristã (CDU), atacou a política de portas abertas, segundo o qual a mesma ;encoraja; os refugiados ;a pegar a estrada; para o país.

Tuesday Reitano, diretora da Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional, disse ao Correio que UE ;precisa agir de modo rápido e firme, com uma estratégia clara, proativa e razoável;, face à crise. ;Quanto mais tempo os países esperarem, mais surgirão grupos de contrabando ricos, inescrupulosos e bem coordenados. O resultado será o estabelecimento de redes criminosas entrincheiradas, e muita raiva entre pessoas marginalizadas e ressentidas, dispersas por toda a Europa;, alertou. Ela não vê o reforço de segurança nas fronteiras como uma medida alarmante e aponta uma ;falta de política coerente e comum; do bloco. ;O desafio da UE será esmagador. As autoridades terão que fornecer abrigo, comida e saneamento para refugiados que obstruem os sistemas de transporte público e rodoviário.;

Para Reitano, ações militares contra traficantes de refugiados no Mar Mediterrâneo não surtirá qualquer efeito. ;A área de operação contempla apenas águas territoriais líbias, onde vimos uma mudança nas táticas de contrabandistas. Eles não mais viajam nos barcos com os imigrantes, que conduzem as embarcações. O mercado de contrabando na Líbia não é bem organizado ou estruturado;, observa a especialista.

Por sua vez, Martin Wyss, chefe do escritório da Organização Internacional para Migrações (OIM) na Holanda, explica que a atual crise vai impactar um antigo dilema na Europa entre vigiar as fronteiras e conceder asilo. ;A ação de manter o controle sobre quem entra e quem permanece no país sempre esteve em conflito com o fato de que todo o mundo tem direito à proteção. Isso vai mudar a partir de agora. Tal premissa e tal lógica eram insustentáveis, mas ninguém se importou com isso porque os números eram ;administráveis;;, comentou ao Correio, por telefone.


Papa alerta sobre
risco terrorista

O papa Francisco admitiu que os movimentos migratórios representam um problema de segurança para os países europeus e que existe o risco de infiltração terrorista. ;Hoje, as condições de segurança não são as mesmas que antes. Temos uma guerrilha terrorista extremamente cruel a 400km da Sicília;, declarou o pontífice, em referência à Líbia, onde o Estado Islâmico se faz presente. Segundo Francisco, a crise dos refugiados na Europa é apenas ;a ponta do iceberg; de um sistema socioeconômico ;mau e injusto;. ;Vemos estes refugiados, estas pobres pessoas que fogem da guerra e da fome, mas é apenas a ponta do iceberg. Por baixo está a causa, um sistema socioeconômico mau e injusto;, disse
o líder católico, em entrevista à rádio portuguesa Renascença.


Multimilionário compra ilhas

O multimilionário egípcio Naguib Sawaris anunciou que negocia a compra de duas ilhas na Grécia para instalar milhares de refugiados que fogem da Síria e de outras zonas de conflito. No início do mês, o multimilionário havia proposto à Grécia e à Itália comprar uma ilha para acolher migrantes. ;Eu lhes darei trabalho na construção de seu ;novo país;;, anunciou em sua conta do Twitter. ;Identifiquei duas ilhas na Grécia (...) Atualmente estou em contato com seus proprietários. Estamos dispostos a negociar com estes últimos, com a condição de que a Grécia dê sua autorização para acolher o maior número possível de refugiados;, declarou o magnata. ;Esperamos o sinal verde da Grécia para começar as gestões administrativas visando a chegada de refugiados.;


Polêmica na Charlie Hebdo



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