Crimes a terreiros sem apuração

Crimes a terreiros sem apuração

Policiais não realizaram perícia e sequer instauraram inquérito para investigar os ataques a três centros religiosos ocorridos no fim de semana no Entorno. Para comunidade negra, a ignorância é o principal combustível desse tipo de violência

» MARYNA LACERDA
postado em 15/09/2015 00:00
 (foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
Desconhecimento e racismo podem estar na raiz dos ataques a terreiros e a sacerdotes das religiões de matriz africana no último fim de semana. Os casos de violência ocorreram em Santo Antônio do Descoberto, Águas Lindas e Valparaíso. Ao que tudo indica, pelo menos nos dois primeiros episódios, em que os locais foram incendiados, há a suspeita de que tenham sido praticados pelas mesmas pessoas. Em ambos, foi avistada uma Saveiro prata no momento dos ataques. As perícias ainda não foram realizadas nem as investigações, abertas. A previsão é de que somente hoje o inquérito seja instaurado pela Polícia Civil de Goiás.

Dois dias após a invasão do terreiro Ilê Àsé Omi Gbato Jegede, em Águas Lindas, o espaço recebeu pintura e limpeza completas. Por volta da meia-noite da última sexta-feira, uma Saveiro derrubou o portão do imóvel, e uma cadeira que estava próxima à fiação elétrica foi incendiada. Roupas de santo que estavam no varal também acabaram consumidas pelas chamas. ;Terminamos de fazer a pintura. A casa estava em reforma para a festa anual em homenagem ao patrono, no sábado;, conta o babalorixá Dejair Bastos. Para ele, a ignorância está no cerne desses ataques. ;O que está faltando é conhecimento público sobre a religião. Se divulgarmos, as pessoas vão parar de ter preconceito. Há a necessidade de mostrar que temos uma religião milenar, mas pouco divulgada;, diz. Ele destaca a confusão que leigos fazem com o candomblé, a umbanda, entre outras crenças. ;Para eles (os intolerantes), nós somos o demônio;, afirma.

Após o ataque, a mãe de santo Rejiane de Oiyá, 36 anos, quer mudar o terreiro Ilê Orilé Funfun de endereço. ;A gente está com medo;, diz. A casa fica em Santo Antônio do Descoberto e amanheceu o sábado em chamas. Por volta das 6h, o fogo consumiu o salão. ;Toda a fiação foi queimada;, detalha. Esse é o segundo ataque em dois meses. No primeiro episódio, imagens de orixás e pertences foram quebrados. Até ontem, a perícia da Polícia Civil não havia sido feita. O Corpo de Bombeiros também não havia comparecido. ;Tiramos fotos para registrar como ficou a casa;, diz mãe Rejiane.

Em Valparaíso, por sua vez, a violência ocorreu na casa do pai de santo Adauto Alves da Silva. Por volta da meia-noite do sábado, a residência dele foi apedrejada por um bando. O grupo quase arrombou o local, mas não conseguiu. Pai Adauto tentou registrar ocorrência, mas, por a Polícia Civil de Goiás estar com redução de pessoal, não conseguiu denunciar o ataque. Ele conta que teve de reforçar a segurança do espaço por causa de episódios como o do fim de semana. ;É só a gente começar a tocar atabaque que jogam pedras no telhado. Coloquei um forro de PVC para tentar proteger as telhas, mas, ainda assim, fico com medo;, diz.

Intolerância crescente
Os casos de violência contra espaços religiosos ; em especial aqueles de matriz africana ; cresceram 20% no primeiro semestre deste ano em comparação ao mesmo período do ano passado no Distrito Federal. Somente no primeiro semestre de 2015, foram 10 registros no território, de acordo com o boletim semestral da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Em todo o país, ocorreram 88 denúncias envolvendo violações relacionadas à intolerância religiosa. Em 2014, as violações de cunho religioso somaram 218 casos. A estatística, no entanto, pode ser muito maior, porque há o problema de os crimes dessa natureza não serem tipificados como intolerância religiosa. ;Acontece de a delegacia registrar esses episódios como crimes comuns;, destaca o coordenador de gestão estratégica da Fundação Palmares, Sandro Santos.

Atos como os do fim de semana são a destruição não só de uma religiosidade, mas de toda uma cultura, na avaliação da diretora da Central Organizada de Matriz Africana (Afrocom), Patrícia Zapponi. ;Está havendo um estreitamento do pensamento como um todo e, com isso, uma desconstrução cultural. Vemos líderes insuflando a sua base contra os povos de terreiro. É um contrassenso, porque não se consegue desvincular as religiões de matriz africana da cultura brasileira. É um levante contra a própria cultura;, afirma.

Os ataques cometidos contra espaços de expressão das religiões de matriz africana expressam racismo. ;Não vemos outros espaços de culto sendo queimados. Há um componente de racismo muito forte;, defende a secretária de Políticas para Comunidades Tadicionais da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) da Presidência da República, Givânia Maria da Silva.

A pasta estuda implantar ações de conscientização de que a cultura de matriz africana é uma parte do país que não pode ser deixada de lado. ;Preparamos uma campanha para mostrar que este é um componente que faz parte da nossa história. Não há como pensar um país sem levar em conta de que, dos 200 milhões de habitantes, 107 milhões são declaradamente pretos ou pardos;, ressalta. Ela destaca que a conscientização é urgente. ;Os ataques são um fenômeno generalizado e é uma conduta que, infelizmente, tem se ampliado;, diz.





Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação