Histórias do cárcere

Histórias do cárcere

Em pesquisa sobre mulheres na Colmeia, antropóloga Debora Diniz conta as angústias e vivências das presas

» Nahima Maciel
postado em 17/09/2015 00:00
 (foto: João Batista/Divulgação)
(foto: João Batista/Divulgação)





A antropóloga Debora Diniz trabalhava em uma pesquisa acadêmica na Colmeia quando decidiu que os números e dados colhidos com centenas de questionários impessoais podiam ficar um pouco de lado para dar lugar a algo mais vivo. Professora da faculdade de Direito da Universidade de Brasília (UnB), ela queria mergulhar mais no lado humano da prisão e trazer de lá vozes individuais com histórias particulares. Depois de convencer a direção da Penitenciária Feminina do Distrito Federal a deixá-la entrar nas dependências do cárcere, passou a acompanhar as consultas do Núcleo de Saúde da instituição.

Sentada em um canto, vestida de preto e com caderno na mão, Debora começou a anotar as histórias das presas. No consultório, a psicóloga Jamila, a médica Paloma e o assistente social Lenilton se revezavam na assistência às internas. O resultado está no livro Cadeia ; Relatos sobre mulheres, com lançamento marcado para o próximo dia 23 no Balaio Café. ;O grande desafio do método de escuta é ficar invisível. Não vou dizer que as presas não me viam, mas era um tempo tão precioso para elas que eu era desimportante;, conta. Foram seis meses de escuta que contaram com a ajuda da médica, da psicóloga e do assistente social, fundamentais para traduzir a linguagem da cadeia nem sempre acessível à antropóloga.

Debora dividiu o livro em 50 textos dedicados às personagens ou a situações vividas na prisão. ;O que tentei fazer foi selecionar histórias que representassem a diversidade do presídio;, avisa. ;Então, tem a mulher idosa, a indígena, a que chega pela primeira vez, as que estavam em crise de abstinência, as craqueiras, as bicudas. Tentei o máximo possível contar essas histórias.;

Ao sentar para escrever o livro, consciente da dificuldade representada pela linguagem da prisão, a autora optou por mesclar a narrativa ao estilo da fala das presas. Gírias específicas do ambiente prisional acabaram incorporadas à linguagem desenvolvida por Debora em uma escrita que não se entrega de primeira e carrega algo de teatral. ;Minha intenção foi a construção de uma retórica tanto estética quanto política;, avisa. ;Estética porque houve uma reprodução do que eu ouvia e política no sentido de que é uma fala marginal.;

Um dos maiores desafios foi assumir uma voz narrativa não-ficcional capaz de traduzir as histórias sem o peso dos academicismos que tornam o texto hermético. Lidar com uma maneira de trabalha nem sempre aprovada pelo meio acadêmico também foi uma decisão importante. Nas pequisas em antropologia, exige-se que os nomes dos objetos de estudo sejam ocultados, mas a autora não hesitou em nomear as pessoas que ajudaram a efetivar as escutas, como a médica, a psicóloga e o assistente social. Os agentes foram os únicos a não serem identificados. ;Porque eles atravessam toda a escuta;, explica a autora. Debora nunca ficou sozinha com uma presa. ;Tive que transformar tudo numa escuta coletivizada;, diz. Eventualmente, outras orelhas foram responsáveis por interpretar as falas.

Perceber a dinâmica do presídio e traduzir isso em uma narrativa documental foi outra preocupação da autora. Na cadeia, cores e uniformes organizam os poderes. ;Os poderes vêm localizados, são mais abstratos que personalizados;, avisa.

Cadeia ; Relatos sobre mulheres

De Debora Diniz. Civilização Brasileira, 224 páginas. R$ 32




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