O dia D da reforma

O dia D da reforma

Depois de muita negociação com o PT e o PMDB, Dilma anuncia hoje de manhã a nova composição da Esplanada. Nove pastas serão cortadas. Aliado de Eduardo Cunha assumirá o Ministério de Ciência e Tecnologia

» PAULO DE TARSO LYRA » MARCELLA FERNANDES
postado em 02/10/2015 00:00
 (foto: Jorge William/Ag. O Globo - 1/10/15 )
(foto: Jorge William/Ag. O Globo - 1/10/15 )



Pouco mais de um mês depois de anunciar a intenção de reduzir 10 ministérios para cortar gastos, a presidente Dilma Rousseff anuncia hoje, ao lado do vice-presidente Michel Temer, o novo formato da Esplanada, que perderá nove pastas. A posse de todos os novos ministros está marcada para a terça-feira.

Após adiar a viagem a Barreiras (BA) ontem, Dilma não quis correr o risco de ter cancelar a visita de Estado à Colômbia, na segunda-feira, e aceitou a indicação do deputado Celso Pansera (PMDB-RJ) para o Ministério da Ciência e Tecnologia, fechando a última ponta que faltava para concluir as negociações com o PMDB. Pansera é aliado do presidente da Câmara, Eduardo Cunha.

Esta não era a intenção da presidente, que chegou a oferecer o cargo a Eliseu Padilha (que permanece na Aviação Civil), por acreditar que era preciso um nome com ;mais peso político ou mais afinidade com o setor; para assumir o ministério. Mas, diante da necessidade de fechar a equação, ela cedeu ao pragmatismo, bateu o martelo por Pansera, deixou Padilha no mesmo lugar, levou Helder Barbalho para Portos e escolheu Marcelo Castro (PI) para a Saúde.

;Não dava para ela escolher um ministro (Manoel Júnior) que tinha dado entrevistas, há um mês, contra a CPMF e defendendo a renúncia da presidente;, disse um importante interlocutor de Dilma. Além de tudo, Manoel Júnior, como mostrou o Correio, foi citado na CPI da Pistolagem de 2005.

De acordo com um dos negociadores da reforma dentro do PMDB, havia uma resistência grande entre os cotados para ir para Ciência e Tecnologia devido à pressão da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Nesta semana, a entidade divulgou um manifesto, em conjunto com outras nove instituições, criticando a mudança. ;O Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação não suporta mais alterações frequentes na gestão do ministério, com repercussões em programas e políticas estratégicas;, diz o texto.

Ontem, foi mais um longo dia de negociações. Dilma e Temer reuniram-se no fim da manhã para chegar a um denominador comum. Mais cedo, o vice-presidente encontrara-se com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (RJ), que voltou a defender o desembarque do PMDB do governo. Essa não era e nem nunca foi a intenção de Temer. Mas ele alertou à presidente. ;A senhora tem de ter muito cuidado nos movimentos que vai tomar, para não desagradar esse ou aquele grupo;, aconselhou.

Depois de conversar com Temer, Dilma almoçou no Palácio da Alvorada com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para definir os ajustes nas mudanças de cargos. Também estiveram presentes no encontro no Palácio da Alvorada o presidente do PT, Rui Falcão, os ministros Aloizio Mercadante (Casa Civil), Edinho Silva (Secretaria de Comunicação da Presidência), Jaques Wagner (Defesa) e o assessor especial da Presidência Giles Azevedo. ;Espero que essa nova coalizão que está sendo montada sirva para resolver a crise política e econômica;, disse Lula, segundo relato de alguns dos presentes.

CGU fica

Dilma teve que ceder em vários pontos ao longo das negociações. Além de entregar o Ministério da Saúde para o PMDB ; talvez o ponto mais doído para os petistas ;, ela foi obrigada a deslocar Aloizio Mercadante para o Ministério da Educação, trazendo Jaques Wagner para a Casa Civil. Para o lugar do petista baiano, na Defesa, vai Aldo Rebelo. Apesar da imagem de seriedade, integrantes das Forças Armadas admitem um certo constrangimento com o novo ministro. Além de comunista, ele vem do PCdoB, legenda que organizou a Guerrilha do Araguaia no início da década de 1970. A troca já vinha sendo negociada com o ex-presidente Lula, na sede do instituto dele, em São Paulo, desde o início da semana.

A presidente, contudo, bateu o pé e manteve o PDT na Esplanada, dando o Ministério das Comunicações para o deputado André Figueiredo (CE). O nome do pedetista sofria resistências do líder do PMDB no Senado, Eunício Oliveira, também do Ceará, devido a proximidade do deputado com a família Gomes (Ciro e Cid Gomes, inimigos políticos de Eunício). À noite, a presidente reuniu-se com o presidente do partido, Carlos Lupi, e André Figueiredo, para formalizar o convite.

O governo também deve refluir da decisão de tirar o status ; e promover um desmembramento ; na Controladoria-Geral da União. A medida foi duramente criticada ao longo de toda semana por especialistas e servidores. Com uma semana de atraso, o governo concluiu que ;o país avançou muito na questão da transparência e a CGU é fruto dessa evolução;, disse um aliado da presidente.


Saindo do forno

A nova equipe ministerial que Dilma deve anunciar na manhã de hoje

Ministérios do PMDB

Agricultura

Kátia Abreu

Minas e Energia

Eduardo Braga

Portos
Helder Barbalho

Saúde
Marcelo Castro

Ciência e Tecnologia
Celso Pansera

Aviação Civil

Eliseu Padilha

Turismo

Henrique Eduardo Alves

Ministérios do PT

Secretaria de Governo*
Ricardo Berzoini

Casa Civil

Jaques Wagner

Educação
Aloizio Mercadante


Cidadania**
Cotadas as deputadas
Benedita da Silva (PT-RJ)
e Moema Gramacho (PT-BA)

Social***

Carlos Gabbas

Ministério do PCdoB

Defesa
Aldo Rebelo

Ministério do PDT


Comunicações

André Figueiredo

* Fusão da Secretaria-Geral, Secretaria de Relações Institucionais, Gabinete de Segurança Institucional e Micro e Pequena Empresa

** Fusão de Direitos Humanos, Igualdade Racial e Política para Mulheres

*** Fusão do Trabalho, Previdência Social e Desenvolvimento Social

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