Cunha evita viagem ao exterior

Cunha evita viagem ao exterior

Presidente da Câmara cancela agenda oficial na Itália, depois de a Suíça bloquear US$ 5 milhões em contas controladas por ele

» JOÃO VALADARES
postado em 02/10/2015 00:00
 (foto: Aílton de Freitas/Agência O Globo)
(foto: Aílton de Freitas/Agência O Globo)




Um dia após a Procuradoria-Geral da República comunicar que o Ministério Público da Suíça confiscou dinheiro em contas bancárias no país europeu controladas pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o parlamentar cancelou viagem oficial para a Itália. Ele participaria do 1; Fórum Parlamentar Itália, América Latina e Caribe, em Roma. As autoridades suíças bloquearam US$ 5 milhões nas contas por entender que os recursos podem ser fruto de propina.

O presidente da Casa esquivou-se dos questionamentos sobre o cancelamento e alegou que decidiu ir ao casamento do senador Romero Jucá (PMDB-RR), marcado para amanhã. O peemedebista ainda afirmou que o esforço de fazer a viagem internacional não valeria a pena, porque já teria que retornar ao Brasil no início da próxima semana.

;Decidi que eu não vou. Vou ficar para o casamento do Jucá, que será, no sábado, em Brasília;, declarou. ;Eu iria apenas fazer um discurso na segunda-feira e voltar correndo para chegar ao Rio, para chegar aqui ao meio-dia. Eu achei que era muita corrida para um evento que não tem o tamanho que justificasse;, ressaltou.

Na Suíça, Cunha é investigado desde abril por corrupção e lavagem de dinheiro. No Brasil, já foi denunciado ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelos mesmos crimes. Na segunda-feira, em sua conta oficial do Twitter, negou que tenha cometido qualquer tipo de irregularidade.

Na tarde de ontem, enquanto presidia sessão na Câmara, Eduardo Cunha foi questionado da tribuna, pelo líder do PSol, Chico Alencar (RJ). ;A pergunta que não quer calar: o presidente Eduardo Cunha tem ou não contas secretas na Suíça? Essa é uma pergunta de interesse público, não é invasão de privacidade;, completou o parlamentar. Alencar afirmou que há um ;silêncio cúmplice; na Casa que é incompatível com a responsabilidade dos mandatos públicos. Após a fala do deputado, Cunha o ignorou e deu a palavra a outro parlamentar que estava inscrito.

As informações sobre o caso foram encaminhadas na quarta-feira por investigadores suíços à PGR. No STF, Cunha é acusado de embolsar ao menos US$ 5 milhões do lobista Júlio Camargo, do estaleiro Samsung, que fechou um negócio de US$ 1,2 bilhão com a Petrobras. O fabricante coreano de embarcações construiu dois navios para a petroleira. Na 13; Vara Federal de Curitiba, o juiz Sérgio Moro condenou o ex-diretor de Internacional da Petrobras Nestor Cerveró, o lobista Fernando ;Baiano; Soares e o próprio Camargo por envolvimento no esquema.

Mudança

Em 12 de março de 2015, Cunha foi categórico ao negar a propriedade de dinheiro no exterior. Nos últimos meses, ele passou a evitar responder a essa pergunta. Na terça-feira, disse que não cairia em ;armadilhas;. ;Eu não vou cair em armadilhas. Cada detalhe que for falar, de qualquer situação, são detalhes que vão gerando a cada hora mais polêmicas. Eu já desmenti isso ontem, para mim já está desmentido. É só ler o que eu escrevi no Twitter, está desmentido e já foi publicado isso.;

Mas, em 12 de março, logo após sair de uma reunião na CPI da Petrobras em que se defendeu das suspeitas levantadas contra ele numa petição do Ministério Público ao Supremo, Cunha afirmou ao Correio que não tinha conta ;de nenhuma natureza; fora do Brasil. A reportagem do jornal questionou-o se ele mantinha recursos em empresas offshores. ;Não, eu não tenho nada;, afirmou o deputado.

As acusações

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O Ministério Público da Suíça localizou quatro contas secretas no país europeu controladas por Eduardo Cunha. As autoridades daquele país bloquearam o montante por entender que os recursos podem ser fruto de propina.

O delator Julio Camargo afirmou que foi pressionado pelo presidente da Câmara a pagar US$ 10 milhões em suborno referentes a um contrato de navios-sonda na Petrobras que teria sido intermediado pelo lobista Fernando Baiano.

Do valor total relatado pelo executivo da Toyo Setal, Cunha teria pedido diretamente US$ 5 milhões. Disse que a parte de Fernando Baiano também deveria ser paga. O delator apresentou uma planilha informando os pagamentos feitos no exterior por intermédio do doleiro Alberto Youssef.

Em depoimento de delação premiada, Alberto Youssef também relatou que Cunha era um dos beneficiários do esquema de corrupção na Petrobras. Ele citou justamente o contrato paracontratação de navios-sonda das empresas Samsung e Mtsui.

Os delatores afirmam que Cunha ameaçou Camargo, por meio de Fernando Baiano. O deputado havia dito que proporia um requerimento para investigar no TCU as obras em que Camargo estaria à frente. O requerimento, de fato, foi apresentado pela deputada Solange Almeida (PMDB-RJ)

Cunha também é acusado de ter recebido dinheiro sujo do esquema de corrupção na Petrobras por meio do policial federal Jayme Alves de Oliveira Filho, o Careca. O policial atuava como funcionário do doleiro Alberto Youssef. Fazia a entrega da propina.

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