Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

A resposta da coruja

por Severino Francisco >> severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 02/10/2015 00:00
Publiquei, na terça-feira, neste mesmo espaço, um relato sobre um ataque que sofri de uma coruja do cerrado, em área próxima ao local onde está instalado o Shopping Liberty Mall. Hoje, para a minha surpresa, ao abrir a caixa de mensagens, me deparei com um e-mail de uma coruja que mora na 704 Norte. Pensei, otimista: ela gostou. Contudo, não era propriamente um gesto de congratulação. Na verdade, a coruja exige um direito de resposta, ameaça acionar os advogados e entrar com um processo, caso não seja atendida. Não deixa de ser uma interação com o leitor. Vamos a ela.

;Prezado cronista,

Eu gostaria de me valer do direito de resposta há muito tempo, mas o meu computador deu pau e só agora pude escrever. Um amigo leu para mim a sua crônica sobre as corujas do cerrado. Nunca ouvi tantos disparates, infâmias, injúrias, perfídias e aleivosias em um só texto e, por isso, gostaria de rebater ponto por ponto.

O senhor nos acusa de sermos agressivas e darmos voos rasantes na cabeça dos que caminham nas ruas. A nossa atitude é um gesto desesperado de defesa contra vocês, que avançam sobre as áreas verdes sem pedir licença, destruindo os lares das corujas e de outros animais. Aliás, com a megafrota motorizada ; mais de 1 milhão ;, os espaços verdes têm sido ocupados por estacionamentos e pelo zum-zum de carros, que incomodam os ouvidos humanos e não humanos.

Com audição e visão aguçadas, nós temos uma percepção muito mais lúcida sobre os problemas da cidade do que vocês. Noto a forma neurótica como vocês se movem no espaço urbano. Às vezes, durante um majestoso voo, fico pensando: ;Esse pessoal aí embaixo parece viver sempre com pressa. Será que conseguem aproveitar a vida?;

Gostaria de contestar a versão de que sempre estamos mergulhados em reflexões sombrias. As meditações corujeanas não são sorumbáticas. Pensamos em coisas boas, ajudamos vocês a fazer o controle biológico dos ratos, os temíveis roedores.

O senhor quis nos ridicularizar. Mas não usamos pau de selfie para o culto do narcisismo, não assistimos ao Big Brother Brasil e não curtimos sertanejo universitário. Posso assegurar que o senhor nunca viu nenhuma coruja praticando a dança do Quadradinho de Oito e outras manifestações cretinas. Foram vocês que votaram em políticos corruptos, aliados a grileiros, que promoveram um crescimento desordenado da cidade, provocando enormes desequilíbrios.

Vocês acham que podem tudo com os seus conchavos, mas existem leis não escritas da natureza que são implacáveis. Não pensem que ficaram impunes a tudo o que fizeram e fazem com o cerrado. E, finalmente, gostaria de registrar que esse cronista não entende patavinas de corujas. Ele não sabe que as corujas só falam nas narrativas de Esopo ou nas fábulas de Millôr Fernandes. Muito obrigada, Coruja da 704 Norte.;

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