Como é ser mulher

Como é ser mulher

por Humberto Rezende
postado em 31/10/2015 00:00
Eu tinha 10 anos. Passava férias em Fortaleza com minha família, e, certa manhã, saí sozinho para comprar uma bola de frescobol em uma loja a dois quarteirões dali. Quando voltava, já quase em frente ao hotel, um homem encostado no capô de um carro me chamou. ;Ei, vem cá.; Parei e olhei pra ele. ;Vem cá;, insistiu, e eu senti medo. Aquele homem me olhava de um jeito estranho, não parecia gostar de mim, mas me queria mais perto dele. Gaguejei que não podia. ;Meu pai tá me esperando aqui;, consegui dizer, apontando a entrada do hotel. ;Ah, seu pai. Então tá, pode ir.; Eu me virei e apertei o passo, mas ainda deu tempo de ouvir: ;Você é muito gostosinha, sabia?;

Aquela frase fez com que o medo crescesse, e eu disparei a correr. Passei o resto do dia calado e tentando disfarçar que estava tudo bem, porque a última coisa que eu queria era ter de contar para alguém o que tinha acontecido. O medo se misturou com a vergonha. Ele achou que eu era menina, pensava às vezes. E depois me indagava, apavorado: o que será que ele teria feito comigo se eu tivesse ido até ele?

A vergonha que senti por esse momento fez com que essa história permanecesse um segredo por anos. Só na adolescência, por volta dos 16, 17 anos, senti segurança para contá-la a uma amiga, que tinha acabado de viver algo semelhante. Ela tinha 14 anos. Depois disso, contei para outros poucos amigos e amigas. Ainda agora, me pergunto se vou mesmo publicar este texto.

Os anos se passaram e eu me interessei pelo teatro. Em Brasília, já acontecia o Jogo de Cena, mostra artística que reúne pequenas apresentações de música, dança, teatro, artes plásticas. Um dos quadros era o Desafio da Noite, do qual adorava participar. As equipes recebiam um tema e tinham de apresentar um esquete a partir dele. Um dia, uma dupla de amigos ; Paula e Carlos ; havia se inscrito, mas Paula desistiu. Entrei em seu lugar e, quando viram aquela figura imberbe, gordinha e de cabelos meio crescidos, algumas pessoas acreditaram que eu realmente fosse Paula, como o apresentador tinha anunciado.

Dias depois, meus amigos riam da história, porque uma menina, que estava curiosa para saber quem era a tal Paula, que tinha ficado com Fulano, não acreditou quando me viu no palco. Ela tinha pensado: ;Não acredito que Fulano quis ficar com essa gorda;. Nesse caso, a confusão não me deixou mal como da primeira vez. Tinha me transformado num adolescente que gostava de provocar e deixar as pessoas confusas, era um rebelde. Ri também.

Hoje, porém, percebo que, das duas vezes em que soube que alguém havia me confundido com uma mulher, fui, primeiro, sexualmente ameaçado, e, depois, tive minha aparência criticada. Minha experiência como mulher, então, foi a seguinte: eu estava feliz, fazendo coisas de que gostava, e, de repente, apareceu um estranho que me agrediu de alguma forma. Foi muito sofrido ser mulher, e só tive de sê-lo por duas vezes. Imagino como seja cansativo, amedrontador e, por isso, revoltante, ser mulher a vida inteira neste mundo nosso. Este mundo nosso precisa mudar. Nós precisamos mudar e parar de estragar a felicidade de mulheres. E é tão simples. Basta que as deixemos em paz, livres.

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