Colapso

Colapso

» André Gustavo Stumpf Jornalista
postado em 31/10/2015 00:00
O ex-presidente Lula disse uma verdade na reunião do diretório nacional de seu partido. ;Nós fizemos a campanha com um discurso e no governo estamos fazendo o que disséramos que não iríamos fazer. Isso é um fato;. Em poucas palavras ele admitiu que a campanha eleitoral foi mentirosa porque naquela época já se sabia que o governo brasileiro estava a caminho do desastre econômico. De certa forma, a fala de Lula é um recomeço. Ele afirmou também que é mais importante defender o ajuste fiscal do que a queda de Eduardo Cunha.

Rompeu-se assim o impasse. Impeachment da presidente Dilma e demissão do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, deverão ser transferidos para o próximo ano. Salvo intervenção do Judiciário, no Congresso os prazos serão utilizados até o último minuto. E tudo deverá entrar na pauta no próximo ano, quando, aliás, o parlamento funcionará muito pouco. No primeiro semestre, até o fim de maio. E, no segundo, somente depois das eleições municipais. A primeira negociação parece ter produzido resultados.

O ex-presidente falou mais no seu longo discurso. Revelou que sonha com o dia em que o PT puder eleger todos os deputados e os governadores. Indicou que ele gosta do pensamento único e não convive bem com a divergência de opiniões. Prefere o modelo chinês em que o parlamento se reúne uma vez por ano e aprova sem discussões as diretrizes do comando central do Partido Comunista.

Mas, ao mesmo tempo, trabalhou no sentido de acabar com a pressão contra o ministro Joaquim Levy. Passou a apoiar sua política. E, naturalmente, a volta da CPMF.Tudo isso é muito novo. A Polícia Federal chegou a seu filho, Luís Cláudio, o que incomoda muito. Política é jogo duro. A presidente Dilma modificou seu ministério várias vezes e não alcançou o resultado pretendido. Não consegue vencer as batalhas congressuais, em alguma medida por consequência da oposição silente do próprio PT. Dilma nunca teve protagonismo dentro do partido. Naquele ambiente, ela é apenas uma herdeira do ex-presidente que foi um ícone da política nacional. Hoje, depois de mensalão, petrolão e outros escândalos, sua liderança está sendo questionada.

Lula precisou fazer autocrítica para se manter vivo à frente de sua agremiação. E também por receio de que a eventual queda da presidente poderá significar completa modificação no cenário político nacional. Lula, portanto, optou pelo pragmatismo político. Fez discurso pesado diante da sua mais aguerrida plateia. E determinou as novas palavras de ordem. Buscar os caminhos para recuperar a economia e a popularidade da presidente. Agindo assim, o partido resgata a si próprio.

O governo Dilma saiu de um superavit de R$ 128 bilhões, em 2011, para o deficit de R$ 110 bilhões em 2015. O Brasil não chegou à situação econômica lamentável por acaso. Foi um processo lento, inexorável e objetivo. Gastar sem qualquer respeito pelos números. Nelson Rodrigues dizia que subdesenvolvimento não se improvisa. É obra de séculos. Foi assim. O governo concedeu créditos especiais para setores específicos e navegou com vontade no que chama de programas sociais, que, naturalmente, têm forte conotação eleitoral. O resultado apareceu depois da eleição. Não é mais possível esconder a realidade com pedaladas fiscais.

O mundo caiu. Mas os políticos brasileiros estão mais preocupados com verbas que negociação. Há dezenas de parlamentares respondendo a processos nas diversas instâncias judiciais. Exercer a atividade política transformou-se na forma mais simples de encher o bolso. O lamentável episódio dos parlamentares que, por intermédio de diretores corruptos, assaltaram a Petrobras é autoexplicativo. A devolução dos dinheiros é assombrosa. Tudo é medido em milhões de dólares. O ministro Joaquim Levy resolveu assumir um silêncio obsequioso. Ele já disse o que deve ser feito. Indicou caminhos. Se o governo não se mexer, o problema deixa de ser dele.

Enquanto isso, o PMDB anuncia um programa de governo que pode ser chamado de liberal. Inclusive no que toca à política externa. Propõe a realização de acordos comerciais com a União Europeia, os Estados Unidos e países do Pacífico, com ou sem a presença do Mercosul. É o caminho para arquivar a atual política exterior conduzida com requintes de grêmio estudantil. As soluções começaram, portanto, a aparecer. Tudo no Brasil é lento. Mas parece evidente que os principais protagonistas perceberam que colapso prejudica a todos, inclusive a eles.






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