Sobrou para a ONU

Sobrou para a ONU

Com a participação do Irã e da Rússia, reunião entre representantes de 17 países, em Viena, termina com pedido para que as Nações Unidas mediem a paz e preparem transição. Forças especiais dos EUA ajudarão os rebeldes no combate ao Estado Islâmico

» RODRIGO CRAVEIRO
postado em 31/10/2015 00:00
 (foto: Sameer Al-Doumy/AFP)
(foto: Sameer Al-Doumy/AFP)



Enquanto os representantes de 17 países ; incluindo Estados Unidos, Rússia, Irã, Turquia e Arábia Saudita ; se reuniam ontem em Viena para debater a crise na Síria, o governo de Barack Obama anunciava o envio de 50 militares das forças especiais ao país árabe e a aviação de Bashar Al-Assad bombardeava bastiões rebeldes. Ao fim de oito horas de uma difícil reunião, os participantes do encontro na Áustria acordaram em incumbir a Organização das Nações Unidas (ONU) de mediar o cessar-fogo, iniciar o processo de transição política em Damasco e pavimentar caminho para a realização de eleições livres. No entanto, não houve avanços em relação ao destino de Al-Assad e novo encontro deve ocorrer dentro de duas semanas. ;Desafios significativos permanecem, mas chegamos a pontos de acordo. A reunião não foi fácil, mas foi histórica;, celebrou a chefe de política externa da União Europeia (UE), Federica Mogherini. Tanto Moscou quanto Teerã ;concordaram que discordam; sobre o futuro do líder sírio.

As tropas de elite norte-americanas serão enviadas a um território controlado pelos curdos, no norte da Síria, e terão a função de dar suporte e aconselhamento às operações rebeldes contra o Estado Islâmico (EI). A Casa Branca nega engajamento direto nos combates, apesar de admitir os riscos da missão. ;É uma intensificação de uma estratégia anunciada pelo presidente há mais de um ano;, explicou o porta-voz, Josh Earnest. ;O presidente espera que (nossos homens) tenham impacto na intensificação de nossa estratégia para construir forças locais dentro da Síria, a fim de combaterem o EI em seu próprio território;, acrescentou. Em 16 de maio passado, comandos da Força Delta, a bordo de helicópteros Black Hawk e V-22 Ospreys, ingressaram no leste da Síria e mataram Abu Sayyaf, figura-chave do EI que monitorava os gasodutos e oleodutos capturados pelos jihadistas.

A decisão de enviar soldados ao país provocou fortes críticas da oposição em Washington. Muitos republicanos veem a medida como insuficiente e desconectada de uma estratégia mais ampla. ;Infelizmente, essa ação limitada é outro passo insuficiente na política de escalada gradual do governo Obama. (;) O presidente continua a não ter uma estratégia realista para tratar da remoção de Al-Assad, do crescimento da influência russa ou iraniana ou do aumento de poder da Frente Al-Nusrah (grupo ligado à Al-Qaeda);, atacou John McCain, líder do Comitê de Serviços Armados do Senado.

Especialista do Carnegie Middle East Center, em Beirute, Yezid Sayigh duvida que as forças especiais norte-americanas mudem os rumos da guerra civil síria e exalta os esforços diplomáticos na tentativa de encontrar uma saída para o conflito. ;O encontro em Viena é um desdobramento positivo, já que a inclusão do Irã significa que todos os atores essenciais estão agora envolvidos. Os participantes devem implementar a proposta do enviado especial da ONU à Síria, Staffan de Mistura, de formar um grupo de contato internacional;, explicou ao Correio. ;No entanto, o vácuo sobre temas-chave, como o futuro de Al-Assad e os termos e modalidades da partilha de poder, parece longe de ser resolvido. Temo que os combates continuem.;

Mísseis

Os bombardeios de ontem deixaram 61 mortos, incluindo cinco crianças, em Duma, 8km a leste de Damasco. Em Aleppo (norte), 32 pessoas morreram, entre elas 12 crianças. Morador de Duma, o ativista sírio Yousef Albostany contou ao Correio que ouviu o barulho do míssil e chegou ao popular mercado Praça da Ovelha cinco minutos depois (leia o Depoimento). ;As forças de Al-Assad cometeram esse massacre horrível apoiadas pela aviação russa. Pelo menos 200 pessoas ficaram feridas, muitas delas gravemente. Depois do incidente, minha cidade continuou a ser atacada;, comentou. Ele relatou ter visto dezenas de corpos decapitados e amputados, além dos cadáveres de um pai e do filho de 8 anos. Albostany discorda da decisão da Casa Branca de mobilizar tropas terrestres. ;Por que enviar esses soldados? Isso somente vai intensificar a ferocidade dos bombardeios de Al-Assad e de (Vladimir) Putin (presidente russo) sobre áreas liberadas;, concluiu.

Ex-conselheiro político e ex-amigo de Al-Assad, o opositor Ayman Abdel Nour disse ao Correio temer que a entrada dos EUA em território sírio tenha efeito contraproducente. ;Os americanos vão ajudar em operações especiais para matar líderes do EI. Mas isso vai prolongar a guerra, a matança, o desastre humanitário e o terrorismo. As Nações Unidas, por sua vez, deve obter resultados minguados. Sem uma solução política compreensiva, ninguém vai cooperar;, desabafou. Segundo ele, não existe uma estratégia nem um plano, e as potências têm reagido ao conflito de forma circunstancial.









Eu acho...




;Nenhuma solução poderá ser alcançada com Bashar Al-Assad permanecendo no poder além do período de transição. O terrorismo tem sido estimulado por sua presença. Você não pode pedir às pessoas cujas famílias foram mortas e torturadas para que deixem de lutar contra Al-Assad.;

Ayman Abdel Nour, diretor da organização não governamental Syrian Christian for Peace e ex-amigo e conselheiro de Bashar Al-Assad






;Os Estados Unidos continuam a buscar pequenos caminhos por meio dos quais emitam sinais políticos de seu contínuo envolvimento com as forças de oposição na Síria. Enquanto isso, evitam a escalada de tensões com outros atores, como a Rússia.;

Yezid Sayigh, especialista do Carnegie Middle East Center, em Beirute (Líbano)






Depoimento






;Vi homens e crianças mortos;

; Yousef Albostany

;Eu estava em casa quando, por volta das 8h30 (4h30 em Brasília), escutei um míssil rasgar o céu e explodir segundos depois. Não era a primeira vez que isso ocorria. O popular mercado Praça da Ovelha tinha sido bombardeado várias vezes. No local, os comerciantes vendem hortaliças, arroz e alguns materiais básicos que são trazidos por meio de contrabando. Eu não esperava que o regime de Bashar Al-Assad promovesse um massacre enquanto as potências debatiam, em Viena, a situação em meu país. Demorei uns cinco minutos para chegar até o mercado. Vi homens e crianças mortos. Dezenas de corpos decapitados e amputados. Foram cenas muito cruéis. Vi arroz misturado a sangue.;

Ativista sírio e fotógrafo, 24 anos, morador de Duma, a cerca de 8km de Damasco, em depoimento pela internet





Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação