Greve

Greve

Comando Nacional dos Transportes aposta que paralisação de caminhoneiros, prevista para começar hoje, será maior que a realizada em março deste ano. Grevistas dizem que pautas econômicas se misturam à pressão por renúncia. Planalto monitora, sem esquema especial

» PAULO DE TARSO LYRA » SIMONE KAFRUNI » HÉDIO FERREIRA JÚNIOR Especial para o Correio
postado em 09/11/2015 00:00
 (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press - 4/3/15)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press - 4/3/15)


A greve de caminhoneiros marcada para hoje pode agravar ainda mais as dificuldades enfrentadas pelo governo neste mês de novembro. Ainda não existe a certeza se a paralisação, que divide a categoria e tem como uma das principais bandeiras a renúncia da presidente Dilma Rousseff, poderá, isoladamente, causar graves transtornos ou provocar uma crise de desabastecimento no país. Mas o movimento pode se somar a outros elementos no caldeirão explosivo que amarga os dias do Planalto: os petroleiros da Petrobras estão de braços cruzados (leia mais na página 9), as investigações da Operação Lava-Jato seguem batendo às portas do PT e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e as matérias do ajuste fiscal que tramitam no Congresso não avançam ou são modificadas, perdendo a capacidade de arrecadação original.

A paralisação prometida por motoristas de caminhão e transportadores rodoviários de carga não tem uma pauta clara de reivindicações. O movimento grevista alega que as condições de trabalho da categoria só pioraram desde a última greve, realizada em março e que provocou caos e desabastecimento por todo o Brasil. O líder do Comando Nacional dos Transportes (CNT), Ivar Luiz Schmidt, afirmou que a expectativa é de grande adesão. ;A greve será maior do que a que ocorreu em março;, prometeu. Segundo a liderança, a categoria acredita que o impeachment pode se arrastar e a renúncia da presidente seria uma saída mais rápida para o país. ;Não estamos lutando como categoria, mas como cidadãos;, alertou.

Por não existir uma pauta de reivindicações a ser negociada, Schmidt ressaltou que não haverá mobilização dos caminhoneiros para virem a Brasília, como ocorreu em março. ;Agora, só queremos que a presidente renuncie e não precisamos ir à capital federal esperar por isso;, disse.

Para Schmidt, os sindicatos de caminhoneiros não estão apoiando os autônomos porque eles conquistaram o direito de cobrar uma taxa, exigida pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), que custará a cada transportador R$ 600 por ano. ;De novo, quem não tem dinheiro é que terá de pagar. Hoje, existem 2,5 milhões de caminhões. Numa conta simples, serão R$ 15 bilhões a mais para o governo. E quem vai cobrar a taxa são os sindicatos. É uma mina de ouro para eles, por isso não estão nos apoiando e furam as greves;, explicou.

Frustração

A indignação da categoria está intacta desde março, uma vez que a pauta de reivindicações não foi atendida, ressaltou o líder do CNT. Segundo Schmidt, o governo alega que atendeu dois itens: a formação de um fórum permanente de debates e a carência de 12 meses para pagamento dos financiamentos de caminhões pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o Finame. ;Na prática, as seis pessoas do nosso movimento que participam do fórum só vão a Brasília para passear, porque não são ouvidas e tampouco atendidas. O restante são os antigos caciques dos sindicatos. Essa reivindicação deu com os burros n;água;, afirmou.

Questões como a criação de uma tabela referencial do frete, redução do custo do diesel e a reserva de mercado de 40% nas cargas do governo para a categoria ficaram apenas na promessa. A mobilização toda ocorre por meio da página do comando no Facebook e por grupos de WhatsApp. Vice-presidente da CPI da Petrobras, o deputado Antonio Imbassahy (BA) acha natural que nenhum dos pleitos apresentados pelos caminhoneiros tenha sido atendido pelo governo. Ele lembra que o preço do diesel continua pressionado pela crise da Petrobras. Os pedágios não têm como ser revistos, já que são contratos firmados com as concessionárias. ;E a economia desaquecida impede o aumento no valor do frete. É o que chamamos de deseconomia, quando a retração puxa para baixo todos os indicadores;, afirmou Imbassahy.

O Ministério da Justiça decidiu mobilizar a Polícia Rodoviária Federal (PRF) somente a partir de hoje ; caso os bloqueios das estradas se confirmem. Até a tarde de ontem, não havia registro de nenhuma rodovia monitorada pelo órgão fechada por caminhões. Uma manifestação foi registrada próxima ao município de Vacaria (RS), porém sem incidentes.


; Nova tentativa
de ajuste fiscal


A presidente Dilma Rousseff reuniu-se nesse domingo com os ministros do Planejamento, Nelson Barbosa, e da Secretaria de Governo, Ricardo Berzoini. O encontro ocorre às vésperas de o Congresso tentar voltar a analisar uma série de medidas caras ao Palácio do Planalto. O projeto que prevê a repatriação de recursos deve ser votado amanhã, após ter sido adiado na última semana. O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, também pretende criar nesta semana a comissão destinada a analisar o mérito da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Desvinculação de Receitas da União (DRU). Outra pauta importante para o Planalto é a volta da CPMF. A expectativa é de que a matéria seja aprovada no ano que vem, mas o mérito seja analisado ainda em 2015.

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