Violência

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Pesquisa mostra que mais de 55% dos homicídios contra mulheres ocorrem dentro da casa da vítima e 66,7% delas são negras

» NÍVEA RIBEIRO Especial para o Correio » JULIA CHAIB
postado em 09/11/2015 00:00
 (foto: Roberto Parizotti/SECOM CUT)
(foto: Roberto Parizotti/SECOM CUT)


No momento em que diversas mulheres saem em defesa dos próprios direitos, seja nas ruas, seja nas redes sociais, um estudo revela que o Brasil é o quinto lugar no número de feminicídios em um ranking com 83 países. De acordo com o Mapa da Violência 2015, elaborado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), entre 1980 e 2013, o número de homicídios de mulheres aumentou 252%, passando de 1.353 assassinatos para 4.762 casos. As mortes têm cor e local. Mais de 55% dos crimes ocorrem dentro de casa e 66,7% deles são contra negras.

Segundo a pesquisa, as mulheres negras são as mais vulneráveis: entre elas, a vitimização cresceu 54,2% de 2003 a 2013, enquanto o homicídio de mulheres brancas caiu 9,8%. O pesquisador Julio Jacobo Waiselfisz, coordenador do programa de estudos sobre a violência da Flacso Brasil, acredita que a tendência é de que o índice de feminicídios de negras piore. ;A distância entre a mulher negra e a branca aumenta drasticamente nos anos que analisamos. Há uma letalidade muito selecionada: negra, pobre, da periferia, com baixa escolaridade e que não tem benefícios sociais;, alerta.

Dos feminicídios analisados, mais da metade aconteceu dentro da casa da vítima, e um terço deles foi cometido por parceiros e ex-parceiros. ;A partir dos 15, 16 anos, começa a aparecer a figura do namorado ou marido, que se converte no algoz dessa mulher. Isso marca os níveis de feminicídio;, esclarece Jacobo. A região do país com a maior taxa de homicídios em 2013 é a Centro-Oeste, com 7 mortes a cada 100 mil habitantes. Em segundo lugar, está a Norte, com taxa de 6,1 pelo mesmo grupo, seguido pelo Nordeste (5,6), Sul (4,2) e Sudeste (3,8).

O especialista ressalta que a mulher ainda sofre com a culpabilização pela violência. ;A mulher morre pelo fato de ser mulher, por não ter cumprido com um papel que lhe foi designado socialmente.; Além da cultura do machismo e do ódio, Jacobo aponta como fator preocupante a noção de posse, de que elas são patrimônio, o que leva à violência doméstica, cometida por pais, filhos e maridos. ;Há uma real inconsciência desse patrimonialismo: é natural que ela seja subordinada, como se não pudesse existir outra forma de relação. E assim aparecem vários mecanismos que culpabilizam a vítima. Se a mulher é estuprada, provocou; se é morta, não fez o que se espera de uma esposa.;

O pesquisador destaca que leis, como a Maria da Penha, que torna crime a violência doméstica, foram indispensáveis para frear o crescimento dos números, mas se preocupa com alguns projetos que tramitam no Congresso, a exemplo do PL 5.069, que dificulta o aborto legal, e a redução da maioridade penal.

Problema mundial

Em uma comparação internacional, feita com base em ranking da Organização Mundial da Saúde, o Brasil ficou em quinto lugar em relação ao número de homicídios de mulheres, atrás de países como El Salvador, Guatemala e Rússia. A taxa brasileira é de 4,8 feminicídios a cada 100 mil mulheres. Isso mostra, no entender de Jacobo, que esse não é um problema somente nacional, e também está relacionado a diversas outras questões, como a facilidade da aquisição de armas de fogo. ;A violência contra a mulher não é autônoma da sociedade brasileira. E há, concomitantemente, o aumento das agressões contra crianças e idosos, por exemplo. Então tem que haver um conjunto de medidas ; combater só a violência contra a mulher fracassaria, seria tapar um buraco de uma peneira. No Brasil, não está se fazendo isso;, pontua.


; Homens aderem ao
#primeiroassedio


Inspirado pelo coletivo Think Olga, após enxurrada de tuítes com teor pedófilo em relação à participante de 12 anos do MasterChef, o movimento #primeiroassedio começou a ganhar adeptos do sexo masculino. Em entrevista ao jornal O Globo, o baixista da banda Móveis Coloniais de Acaju, Fábio Pedrozo, contou que a maneira de aderir à campanha foi se expor e dizer que já assediou. O sentimento de mea-culpa masculino acabou engrossando o movimento, com reconhecimentos de erros e denúncias de machismo. ;Acho importante que os homens sensíveis, atentos e inteligentes andem de braços dados com as novas possibilidades;, disse o músico Pedro Luís, também adepto do movimento. ;Os homens não faziam ideia do tamanho do problema. Agora caiu a ficha que não é exceção, é regra;, completa Giovanna Dealtry, professora de Literatura da Uerj.

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