O horror visto por dentro

O horror visto por dentro

Equipes de reportagem conseguem chegar à zona quente, nome dado pelos bombeiros ao perímetro no qual ainda buscam desaparecidos. Governador Pimentel reconhece que, com o passar do tempo, diminui a esperança de encontrar trabalhadores

» Márcia Maria Cruz » Sandra Kiefer
postado em 09/11/2015 00:00
 (foto: Chistophe Simon/AFP)
(foto: Chistophe Simon/AFP)


Bento Rodrigues (MG) ;
O silêncio do lugarejo coberto pelo mar de lama em Bento Rodrigues é quebrado apenas pelo canto dos passarinhos. Esse contraste brutal evidencia a desolação das casas encobertas pela massa escura e fétida no epicentro da tragédia que se abateu sobre sete distritos de Mariana, na Região Central, e dois de Barra Longa, na Zona da Mata. Quatro dias depois do rompimento das barragens do Fundão e Santarém da mineradora Samarco, sócia da Vale e da australiana BHP, jornalistas de alguns veículos entraram na ;zona quente;, nome dado pelos bombeiros ao perímetro onde realizam as buscas por sobreviventes. Enquanto os militares seguiam na procura por desaparecidos, no distrito mais atingido pelo lamaçal de minério, dois corpos foram encontrados ; um perto da Barragem de Fundão e outro no Rio Doce, em Acaiaca. Os corpos deverão passar por um processo de identificação para confirmar se são de pessoas vitimadas pela onda de destroços.

Ainda na estrada que conduz a Bento Rodrigues, é possível avistar a vasta destruição. Somente uma rua, na parte mais alta do distrito, não foi tomada pela lama e é por ela que bombeiros e as equipes de voluntários seguem para resgatar os animais que ainda estão por lá. Mesmo nessa rua, os sinais da destruição estão por todos os lados. Telhados inteiros que foram arrancados podem ser vistos. Tudo virou barro. Uma cidade petrificada, tomada pelo marrom. Alguns galhos secos se sobressaem em meio à lama dando indícios da vegetação. Só uma parede restou de pé da maior escola de Bento Rodrigues, onde ainda dá para ler: ;O futuro da educação (...) juntos por um futuro melhor;.

No quartel-general montado na área, os bombeiros colocam roupa especial de neoprene para reduzir o contato com o barro que se mistura aos rejeitos da mineração. O vaivém das equipes é intenso. ;Parece uma cidade-fantasma em ruínas, abandonada;, diz o tenente-coronel Donizetti, que coordena a operação no local. ;Muita destruição. É um cenário bastante triste.; Mesmo com experiência de outros resgates, os bombeiros empenhados na operação se emocionavam frente à destruição. ;Tragédia como essa só vi em Barraginha. A gente perde até as palavras;, afirmou o sargento Macena. ;Ainda pode haver sobreviventes embaixo desta lama. Precisamos ter o máximo de cuidado nas escavações;, afirma o jovem comandante das operações, Leonard Farah, de 31 anos. Ele e sua equipe já ajudaram a resgatar pelo menos três sobreviventes com lama até o pescoço.

Epicentro

Ninguém entra, ninguém sai da zona quente, como está sendo chamado o epicentro do tsunami de lama movediça, no povoado fantasma, onde apenas a cruz de uma igreja do século 18 ficou de fora, sendo resgatada e levada para o quartel dos bombeiros da cidade. Quatro caminhões trabalham na reconstrução da estrada de terra até o povoado. Segundo mais de uma fonte de terceirizados da Samarco, o perigo é iminente caso chova forte. Correndo risco de vida, equipes de cerca de 80 bombeiros se revezam trabalhando dia e noite, em equipes de 20, iluminados por holofotes movidos a um gerador de eletricidade. Descem de helicóptero no lamaçal. Em três dias de trabalhos, cobriram cerca de 60% do terreno, segundo Farah. ;O trabalho é difícil e demorado. Temos de ficar perto uns dos outros, marcar um quadrante e forrar o piso. Depois, vamos estocando a lama e sentindo se embaixo tem um carro, ou telhado ou uma vida;, revela.

As famílias dos desaparecidos ainda aguardam com angústia e esperança pela notícia de que algum parente foi encontrado ; a lista oficial aponta 28 pessoas desaparecidas, sendo 13 funcionários que prestavam serviço para a Samarco e 15 pessoas das comunidades de Bento Rodrigues, Pedras e Camargos. No entanto, com o passar dos dias, caem as chances de alguém ser encontrado com vida. O governador Fernando Pimentel, que sobrevoou a área ontem e acompanhou trabalhos de busca, reconheceu que localizar sobreviventes fica mais cada vez mais difícil. ;Esses 13 desaparecidos dificilmente serão encontrados com vida;, disse.


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