Caças esvaziam caixa

Caças esvaziam caixa

Em plena recessão e ajuste fiscal, com cortes de investimentos em todas as áreas, os R$ 4,5 bilhões para a compra dos aviões suecos Gripen da Suécia são vistos com restrições até mesmo nas Forças Armadas

» Simone Kafruni
postado em 09/11/2015 00:00


A visita da presidente Dilma Rousseff à Suécia há três semanas para garantir a compra de 36 caças Gripen NG ao custo de US$ 4,5 bilhões reacendeu a polêmica sobre a necessidade de investimentos em defesa em plena recessão. Para muitos, o fato de o Brasil não ter inimigos declarados nem participar de guerras justificaria deixar os aportes na área em segundo plano.

Na opinião de especialistas, contudo, deixar de investir em defesa, além de colocar em risco a soberania nacional, pode levar o país a uma perigosa defasagem tecnológica, com a postergação de projetos prioritários. Parte desses projetos é desenvolvida no Brasil, o que levanta outro problema: deve-se priorizar a importação ou o que é feito aqui?

O departamento de Defesa da Federação das Indústrias de São Paulo (Comdefesa) chama a atenção para a qualidade dos investimentos. ;A indústria tem plena consciência de que investir em defesa beneficia o desenvolvimento tecnológico. Mas pagar para comprar produtos feitos em outros países, enquanto os projetos prioritários nacionais sofrem contingenciamento e podem se tornar obsoletos, colocando tudo a perder, é uma decisão unicamente política, que coloca todo o setor em risco;, afirma um especialista do Comdefesa.

Competição

Para o Comdefesa, comprar caças suecos enquanto posterga investimentos no projeto do KC-390, um jato da Embraer que poderia competir com o norte-americano Hércules, principal aeronave hoje no mercado, é um atentado ao setor. ;No Brasil, as Forças Armadas são obrigadas a engolir equipamentos que nem conseguem fazer funcionar por conta de acordos comerciais e políticos que em nada priorizam a defesa nacional;, lamenta o integrante do Comdefesa da Fiesp. Há quem pense assim também entre os militares.

Com a postergação dos investimentos, os principais projetos prioritários das três Forças Armadas correm o risco de sofrer com a obsolescência, um risco frequente no caso de produtos de alta tecnologia. Mas não é por falta de orçamento: o Ministério da Defesa tem um dos maiores do país. Neste ano, a previsão orçamentária é de R$ 81,5 bilhões, mas 72% são gastos com a folha de pagamento já que as Forças Armadas contam com um efetivo de 365,3 mil militares e mais servidores civis. Além disso, a despesa com inativos é gigantesca.

A defesa nacional já movimentou 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB). No ano passado, o orçamento caiu para 1,39% do PIB, além de sofrer contingenciamento. Sem mexer no gasto com pessoal, o corte feito pelo governo para tentar reequilibrar as contas públicas atingiu diretamente os investimentos. Das despesas discricionárias, previstas em R$ 22,6 bilhões pela Lei Orçamentária de 2015, o contingenciamento foi de 24,8%. Sobraram apenas R$ 17 bilhões para tocar os projetos prioritários.

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