Pequenos corações ameaçados

Pequenos corações ameaçados

Médicos alertam para o aumento de casos de crianças com doenças cardiometabólicas que são comuns em adultos, como colesterol alto e hipertensão

» CAROLINA COTTA
postado em 09/11/2015 00:00
 (foto: Beto Novaes/EM/D.A Press %u2013 20/8/15 )
(foto: Beto Novaes/EM/D.A Press %u2013 20/8/15 )


Belo Horizonte ; Elas têm 5, 10 anos, mas já enfrentam problemas típicos de adultos, como colesterol alto, hipertensão e altos índices de glicose. Não há dados epidemiológicos no Brasil, mas entidades médicas têm constatado um aumento na incidência de doenças cardiometabólicas em crianças em função, principalmente, dos hábitos da vida moderna. ;Estamos vendo doenças normalmente esperadas na vida adulta ocorrendo com mais frequência na infância e na adolescência. O fato de as crianças estarem cada vez menos ativas é fator de risco;, alerta Raquel Pitchon dos Reis, presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria, seção Minas Gerais.

Um recente estudo canadense sobre como a intervenção no estilo de vida pode melhorar o desempenho escolar de crianças e adolescentes com sobrepeso ou obesidade revelou que de 2% a 3% dos pequenos pesquisados apresentavam hipertensão associada à obesidade, que, no Brasil, atingiu proporções de epidemia. Dados da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República mostram que três em cada 10 brasileirinhos com idade entre 5 e 9 anos estão acima do peso. Isso quer dizer que 33,5% das crianças do país estão fora da curva esperada para a idade. Na adolescência, a taxa cai para 20,5%.



Segundo especialistas, o estado nutricional na primeira infância repercute na vida adulta e, se esse quadro não for revertido, o Brasil poderá se tornar, em alguns anos, um dos países com o maior número de adultos obesos do mundo. A importância da prevenção e da educação foi um dos destaques do 37; Congresso Brasileiro de Pediatria, realizado no mês passado, no Rio de Janeiro. Na ocasião, a Sociedade Brasileira de Pediatria apresentou a cartilha A culpa é sua ; disponível no site www.smp.org.br. Trata-se de um guia ilustrado que mostra que a responsabilidade em torno da obesidade não é só da criança, mas de um complexo contexto em que está inserida.

;O ambiente influencia mais na obesidade infantil do que a genética porque ela pode ser aplacada por uma alimentação adequada e hábitos saudáveis;, explica Raquel Pitchon, que sugere que a prevenção ao excesso de peso comece logo após o nascimento de uma pessoa. ;O ideal é que o acompanhamento comece desde o quinto dia de vida para que o pediatra consiga promover o desenvolvimento saudável, com peso adequado, e identificar qualquer tipo de distorção;, afirma. Pesquisas da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que, do total de obesos em idade adulta, 85% sofriam de sobrepeso aos 5 anos de idade.

Fator genético

A maioria dos casos de colesterol alto na infância e na adolescência pode ser explicada pelos maus hábitos de vida, mas uma parte sofre com uma doença genética: a hipercolesterolemia familiar. Segundo Celso Antônio Tafuri, coordenador do Ambulatório de Aterosclerose do Hospital Vera Cruz, em Belo Horizonte, há dois tipos de manifestação da doença: a homozigótica, mais rara e grave, que acomete uma em cada 1 milhão de pessoas; e a heterozigótica, mais comum, que atinge uma em cada 300. ;Nesses casos, as crianças têm colesterol alto herdado geneticamente do pai ou da mãe. A outra causa para o problema é o erro alimentar, e esse é bem mais frequente;, alerta.

Segundo o especialista, crianças com parentes de primeiro grau que infartaram com menos de 45 anos ou que têm colesterol elevado precisam dosar esse tipo e gordura desde cedo. Antes dos 2 anos, não há indicação e a criança sequer poderia seguir uma dieta, mas, a partir dessa idade, esse grupo de risco deve fazer o exame de sangue. ;Crianças com o LDL (mau colesterol) acima de 190 têm diagnóstico de hipercolesterolemia familiar e precisam ser encaminhadas para tratamento com pediatra ou cardiologista. Mas, se o primeiro exame der normal, ela pode voltar a medir novamente por volta dos 10 anos;, sugere o médico. Colesterol total acima de 170, LDL acima de 110 e triglicérides acima de 90 também demandam tratamento, que inclui dieta, atividade física e, em último caso, fitoesterois.

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