Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Cristine Gentil >> cristinegentil.df@dabr.com.br
postado em 09/11/2015 00:00
Pilotis, seu lindo

Acho que estava na faculdade quando compreendi verdadeiramente o significado da palavra pilotis. Até ali, o espaço entre piso e teto era apenas ;debaixo do bloco;. Um lugar seguro, acolhedor, que moldou a infância candanga. O recurso arquitetônico usado por Lucio Costa para manter as passagens das superquadras livres transformou-se num ambiente de convivência importantíssimo, que lubrifica minhas lembranças. Torna-as fluidas e macias, boas de sentir.

Rapidamente, consigo fazer uma lista de coisas que vivi debaixo dos blocos do Plano Piloto, em especial nos prédios da 209 Norte, onde cresci. O meu bloco era o ;D;. O ;G;, depois da banca de revista e do orelhão (um parêntesis aqui: onde eu comprava as figurinhas do Amar É; e passava horas ligando para o Disque Amizade), era da mesma empresa onde meu pai trabalhava, a Portobrás. Havia também o ;I;, o ;J; e o ;K;. Depois, veio o ;C;, o único que chamávamos pelo nome, Málaga. No mais, muito mato, barro e verde, imensos vazios, pistas de bicicross improvisadas, até aparecer a 206. Cenário para grandes aventuras. As imensas pilhas de giz serviram para recados no asfalto; os bueiros, de esconderijo; os arcabouços dos prédios, para as brincadeiras de polícia e ladrão; as ruas internas, para jogar bete. E os pilotis? Serviram para tantas coisas;

Embaixo do bloco, havia a proteção de seu Oswaldo e dona Santinha. Ele era nosso porteiro e morava no apartamento do pilotis ; não era maravilhoso isso? Davam-nos água, bolo e carinho, e alertavam nossos pais sobre os excessos. Hoje, os porteiros são terceirizados e mudam com tanta frequência que mal conseguimos guardar o nome.

As pilastras eram os anteparos dos casais que se formavam. Atrás delas, os beijos apaixonados e os sarros escondidos. Também eram o porto seguro das brincadeiras de pique. Nas portarias, fazíamos nossas festinhas ; na época dos meus pais, chamavam-se tertúlias. A trilha de músicas lentas, para o momento da dança de rosto colado, incluía Careless Whisper, de George Michael, e Knife, com Leonel Richie, clássicos da época. As portarias também serviam aos desfiles, às coreografias e à montagem das casinhas para as bonecas, com panelinhas, fogões, quartinhos e tudo o que tínhamos direito.

Os pilotis eram a proteção contra a chuva e contra os bate-bolas, que chegavam sem aviso com as bolas de meia, areia e vidro, para barbarizar. Sentávamos ali para comermos o quebra-queixo, que sempre passava. Para olharmos ao longe os primeiros meninos a transitarem com suas mobiletes. Para nossos concursos de bambolê. Para fazermos uma roda e brincarmos de verdade ou consequência; também de salada mista. Para a troca de segredos e os pedidos de namoro. Para pular corda, jogar cinco-marias e brincar de elástico. Para calçar os patins, de rodinha, de tênis, de bota; a depender da conta bancária dos pais. Poderia fazer uma lista gigante do que fazíamos ali.

Tantas modinhas, a maioria tão simples. Bastava a turma se reunir para ter o que fazer. Precisávamos de tão pouco. E uma das razões disso era a imensa liberdade de viver uma quadra-parque, ainda que em construção, com livre trânsito de um bloco a outro. Uma experiência arquitetônica que se transformou numa vivência afetiva de grandes turmas, que ainda hoje se reúnem para relembrar os tempos de infância e adolescência. Esta memória, devemos a Lucio Costa, o padroeiro da qualidade de vida brasiliense.



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