Um novo modelo para a agricultura

Um novo modelo para a agricultura

Projeto pioneiro reúne famílias de consumidores e produtores rurais. Os compradores financiam totalmente os custos dos chacareiros e participam desde o planejamento da safra até à colheita dos orgânicos

» Rafael Campos
postado em 09/11/2015 00:00
 (foto: Fotos: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
(foto: Fotos: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)

Todas as semanas, a produção orgânica mantida pela geógrafa Andrea Zimmermann tem 25 destinos certos. São famílias que bancam os custos do que ela cultiva e recebem uma cesta variada, com itens livres de agrotóxicos. A diferença é que ela conhece os futuros consumidores. Todos sabem quais foram os valores envolvidos no trabalho. E todos já foram até a sua lavoura, chegando ao ponto de participarem da colheita. E, na certeza de que ela tem de que esse esforço não será desperdiçado, a agricultura ganha um outro foco, no qual a importância das relações entre as pessoas fica acima das transações monetárias.

Andrea é produtora do projeto Comunidade que Sustenta a Agricultura (CSA), um modelo de organização de consumo que chegou a Brasília há menos de um ano e que tem alterado a forma com que muitas pessoas se relacionam com os alimentos. ;É mudar da cultura do preço para a cultura do apreço. As pessoas têm questionado mais o que estão consumindo e isso não é mais papo de ecochato. É uma opção para viver bem;, garante. Em uma CSA, um grupo de pessoas ; chamadas de coprodutores ; paga um valor fixo mensal ao agricultor para garantia da sua produção.

Com a certeza do investimento, o chacareiro entrega os itens da lavoura diretamente aos co-produtores, eliminando atravessadores. Mas esse relacionamento não termina aí. ;A CSA quer criar uma união entre pessoas que desejam se alimentar bem, se aproximar da terra e viver uma economia que é solidária. Você não lida mais com sua alimentação como item de consumo;, explica Andrea. Dessa forma, o processo não termina no momento em que há o pagamento. A comunidade formada participa ativamente de todos os processos da cadeia produtiva, desde a apresentação das planilhas de custos ao recebimento dos produtos nos pontos de convivência ; como são chamados os locais onde as famílias pegam suas cotas.

;Elas deixam de resolver, simplesmente, o problema de abastecimento da sua despensa e começam a pensar de onde vem o alimento, fazendo uma contribuição efetiva: financiar uma produção orgânica socialmente responsável;, explica a consultura sócioambiental Renata Navega, 28 anos. Ela é uma das precursoras do movimento em Brasília, que começou em março. Atualmente, existem três comunidades em funcionamento no Distrito Federal.


Para ela, a mudança de hábitos que envolve a participação em uma dessas comunidades exige, principalmente, a ideia de que ela não é um clube de compras. ;As pessoas não vão apenas comprar uma cesta de produtos orgânicos. Elas precisam se articular, conversar, se reunir, refletir, se envolver com a família de produtores e defender aquele pedaço de terra.; A arquiteta Tereza Lagioia, 46 anos, lembra que, quando ouviu falar do projeto, pensou inicialmente que aquela relação seria apenas de compra direta com o agricultor. ;Só que é muito mais que isso. Estou financiando quem vai plantar. É uma parceria: nós corremos os mesmos riscos que o agricultor corre. Só que de forma mais sustentável e ecológica.;

Demanda
Produtor responsável pela primeira CSA de Brasília, o agricultor Idalércio Barbetta, 43 anos, acredita que as comunidades vieram suprir uma importante demanda para quem planta orgânicos. ;Nós já temos uma cabeça diferente no sentido de agroecologia e respeito à natureza. Mas faltava uma parte que o CSA veio completar: o produtor não está sozinho. Existe uma torcida de 70 pessoas apostando no meu sucesso.; Para ele, a palavra-chave é satisfação. Ao ficar livre das pressões do mercado para produzir, ele consegue fazer um trabalho melhor e isso é comprovado pela comunidade. ;Na agricultura convencional não existe o reconhecimento do que é o produtor colocar a enxada nas costas e trabalhar de sol a sol. Aqui, tenho a todo momento. Isso dá mais dignidade.;

Mas a escolha de participar de uma CSA tem de ser encarada à luz da mudança de hábitos. ;Já tivemos várias pessoas que não se adaptaram. Por exemplo, é preciso começar a experimentar comidas novas por conta da sazonalidade. Nem sempre vai haver todos os itens;, garante Renata. Assim, muita gente não se sente à vontade para trocar aquele produto que encontra no supermercado por um alimento desconhecido. ;Mas quando você planta durante o ano inteiro e sabe que todos os seus custos estão cobertos, qual a diferença entre o tomate e o espinafre? Eles têm o mesmo valor;, afirma a consultora, lembrando que isso é vantajoso também para o coprodutor: ele fica livre das variações de preços do mercado, tendo a garantia de que sua cota, por um ano, será a mesma.


O que dá a Renata a certeza de que deve continuar a investir nesse modelo é seu efeito nas crianças. Para ela, os pais que fazem parte das CSAs estão dando um novo significado para o alimento, mudando a relação dos filhos com a comida. ;Elas crescem vindo no fim de semana tomar banho de rio na chácara do produtor orgânico que estão ajudando a financiar. Descobrem, de fato, de onde vem o alimento. Quero ver essa geração crescer.;


Saiba mais

Desenvolvimento sustentável

De acordo com o site CSA Brasil, Comunidade que Sustenta a Agricultura é uma prática de desenvolvimento agrário sustentável de escoamento de produtos orgânicos, diretamente do produtor para o consumidor, aproximando essas duas pontas. No modelo, um grupo se compromete a bancar o orçamento de toda a produção de um agricultor por um ano e recebe dele itens com preço fixo, sem a necessidade de supermercados ou feiras. Cada CSA tem seus pontos de convivência, na qual os coprodutores, que coordenam esses locais, pegam os itens semanalmente.

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