O sonho que nasceu na capital

O sonho que nasceu na capital

Meia conta que ideia de escrever o livro que lança amanhã surgiu na preparação para jogo no Mané, contra o Fla. Ao Correio, atleta explica os problemas do Bom Senso e pressiona CPI por resultados

Gabriela Ribeiro Especial para o Correio
postado em 09/11/2015 00:00



No Brasil ou na Turquia, receio em falar o que vem à cabeça nunca foi o forte do meia Alex. Tanto é que decidiu, depois de se aposentar dos gramados, no fim do ano passado, repartir a história dos quase 20 anos como profissional, em uma biografia que será lançada amanhã. Agora como comentarista esportivo, aprimora as opiniões criteriosas, que foram sua marca pessoal nos últimos anos da carreira como jogador. Em entrevista ao Correio, o ex-jogador mantém uma postura reticente em relação a temas atuais do futebol, como a liga paralela criada entre clubes do Sul, de Minas Gerais e do Rio de Janeiro. ;Ainda não tenho opinião sobre a possível liga, porque algumas coisas precisam ser esclarecidas;, pondera. E não esconde a exaustão com o pragmatismo do futebol, que rendeu um ano sem progressos ao grupo do qual é um dos cabeças, o Bom Senso F.C. ;Acredito que o movimento tenha sido interessante para discutir muitas ideias e que vá continuar promovendo essas discussões, mas ele não tem nenhum poder de execução;, analisa.

Com um tom mais leve, lembrou momentos importantes da carreira. Alex falou sobre memórias no Mané Garrincha e a passagem conturbada pelo Flamengo. ;Hoje em dia, faço o mea-culpa e assumo que joguei mal naquela época, porque acho que poderia ter agido diferente;, assume.

Todos os times em que você
jogou no Brasil fazem parte hoje da Liga Sul-Minas-Rio. Qual é a sua opinião sobre o movimento?
Toda e qualquer liga é bem-vinda, desde que as equipes menores sejam protegidas, as equipes formadoras de atletas. A gente não pode olhar somente para o topo da cadeia. A liga é uma ideia interessante, desde que ela seja tratada como um embrião para uma liga nacional. No Nordeste, a gente tem uma ideia boa do que aconteceu. Várias equipes nordestinas participam. Em relação à chamada Primeira Liga, tenho curiosidade de saber o que vai ser feito com os estaduais. Por isso, não tenho uma opinião formada sobre ela. Talvez uma liga nacional, com algumas divisões. No Bom Senso, a gente ofereceu tanta coisa, tanta discussão, que agora é uma questão de executar o que foi discutido. Pelo que eu vejo nesta formação da Primeira Liga, as equipes menores dos estados vão ficar para trás, por isso é interessante que as federações também se posicionem.

Mas a criação de uma liga
paralela é boa para os atletas?
Depende. Quem vai jogar os estaduais? Não tem uma definição ainda. Por exemplo, o Coritiba. Vai jogar Paranaense ou Liga? O interessante seria que se jogasse a Liga e não se jogasse os estaduais. Os estaduais seriam uma forma de acesso à Liga. Mas temos que esperar uma definição para ver como vai ser. A princípio, não me agrada muito essa história, porque as equipes menores ainda vão brigar com o calendário. Vão jogar dois ou três meses e ficar o resto do ano sem agenda.

O Bom Senso F.C. nasceu em 2013 e conseguiu vitórias significativas, como o direito à pré-temporada. Em 2014, o
movimento foi à Presidência da República. Mas ,neste ano, o Bom Senso parece não ter o mesmo espaço. O que
aconteceu com o movimento?
Não existe próximo passo sem a força sindical. E o sindicato não existe. Enquanto o sindicato não trabalhar da maneira como tem que trabalhar, em termos de movimentação, não tem muito mais o que fazer. O Bom Senso conseguiu se reunir com a CBF, com a Rede Globo, que é a detentora dos direitos, mas é um grupo que não tem poder de execução. Chega um momento em que as barganhas acabam, os argumentos ficam pelo caminho e você tem que executar. Só que isso foge da alçada dos jogadores. Para os atletas, só falta a greve, só que, para fazer greve, você precisa do sindicato, e o sindicato está dentro do sistema. Continuamos, é claro, na expectativa de que quem tem poder de execução, de fato, execute. Acredito que isso passa muito pelos dirigentes de clube, de eles terem a consciência de que precisamos mudar. Antes disso, não tem o que fazer.

Sobre a CPI do Futebol, que se destina a investigar as relações da CBF e do Comitê Organizador
Local da Copa do Mundo, havia uma previsão de que membros do Bom Senso seriam ouvidos no
início de setembro. Vocês foram convidados para dar depoimento na comissão?
Não, ainda não chegou nenhum convite e não tenho a informação de quando haverá um possível depoimento.

E qual é a sua opinião sobre a CPI? Acha que será efetiva, de fato?
Toda discussão é bem-vinda, mas caso alguma coisa seja comprovada, a CPI tem que deixar de ser apenas uma investigação. Não pode ficar só nessa de não penalizar. Não pode ficar no meio do caminho. A impunidade tem que acabar, porque os culpados precisam se sentir pressionados. É importante haver a punição.

Nesta semana, você vai lançar uma biografia. Como surgiu a ideia da obra?
O livro surgiu de uma mera brincadeira. Inclusive, a ideia veio no período que antecedeu o jogo contra o Flamengo no Mané Garrincha, em 2013, quando estávamos em treinamento em Foz do Iguaçu. Um belo dia, o Marcelo Almeida (empresário e político paranaense), amigo do meu fisiologista Raul Oziek, para quem eu vivia contando histórias do futebol turco, disse que me daria o livro de presente. Achei que fosse uma brincadeira, mas a história tomou corpo e virou realidade, até decidirmos ir atrás de um escritor. Tentamos falar com o Ruy Castro, mas ele não pegava mais esse tipo de serviço e indicou o Marcos Eduardo Neves, que topou a ideia. Os detalhes agora estão nas mãos da editora, que, a princípio, marcou lançamentos para São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Tudo isso é uma novidade para mim. Eu achava também que a mesma editora levaria o livro para fora, mas eles venderam os direitos para uma editora na Turquia, que vai cuidar do lançamento para os fãs do Fenerbahçe.

Esse jogo no Mané Garrincha foi seu jogo de número 150 com a camisa do Coritiba. Quais são as suas memórias da ocasião?
As lembranças são as melhores possíveis. Aquele jogo foi no retorno, depois da parada da Copa das Confederações. Nós éramos os primeiros do Campeonato Brasileiro e fizemos uma preparação muito boa no período. Começamos perdendo, depois que o Flamengo fez 2 x 0, mas conseguimos o empate e eu tive a felicidade de fazer um gol naquele jogo. O estádio estava lotadíssimo e foi a primeira experiência em um estádio que seria usado na Copa do Mundo.

Do que você mais sente falta da vida dentro dos gramados?
Eu me preparei para parar, então eu não sinto falta de muita coisa, não. Do dia a dia do futebol, não sinto falta. Do que eu sinto falta mesmo é das amizades que eu fiz. Do resto, não, porque eu já estava preparado.

Você já assumiu várias vezes que não teve uma boa fase no Flamengo. O que você acha

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação