Sete homens para nada mudar

Sete homens para nada mudar

Entre os postulantes à sucessão de Blatter no comando da entidade, há pouca expectativa de real evolução

Maíra Nunes
postado em 09/11/2015 00:00
 (foto: Valeriano Di Domenico/AFP - 2/6/15)
(foto: Valeriano Di Domenico/AFP - 2/6/15)


O palco que marcará o fim do ;reinado; de Joseph Blatter na Fifa, em 26 de fevereiro de 2016, será o mesmo que, há pouco mais de cinco meses, presenciou cenas que mais lembravam um filme hollywoodiano. A trama, passada em Zurique, na Suíça, é daquelas com direito a investigação do FBI, a polícia federal americana, envolvendo manda-chuvas do mais alto escalão. Após quatro mandatos na chefia da entidade máxima do futebol ; e um quinto interrompido por conta dos escândalos ;, Blatter, enfim, largará o osso. Diante dos candidatos a ocuparem o posto, porém, resta pouca expectativa de mudança real.

Depois de anunciar a convocação de uma assembleia extraordinária para eleger um novo presidente ; só três dias após a reeleição em 2 de junho ;, Blatter abriu caminho para muitos interessados à presidência da Fifa. O brasileiro Zico foi um deles, numa candidatura que, talvez, representasse alguma esperança de inovação. O ídolo do Flamengo, no entanto, não conseguiu as cinco cartas de indicação de federações para oficializar a candidatura. Dessa forma, não restaram sul-americanos na disputa. Outro pré-candidato a abandoná-la, este de última hora, foi David Nakhid, ex-jogador da seleção de Trinidad e Tobago.

Seis nomes estão oficializados na corrida eleitoral, além de um bem encaminhado ; é o caso de Michel Platini, presidente da Uefa, que aguarda pelo fim da punição imposta pelo Comitê de Ética da Fifa para homologar a candidatura. A maioria evoca discursos muito semelhantes: restaurar a reputação da entidade diante da maior crise já vivida por ela e promover maior transparência. Mas nada muito palpável. Afinal, os aspirantes à presidência nem sequer precisam apresentar, de forma documentada, as propostas que pretendem implementar durante a gestão.

As experiências com o futebol não chegam a ser necessárias para o compromisso de ;projetar uma Fifa exemplar;, como discursa Platini. O francês é um dos favoritos ao cargo, mesmo com a candidatura ainda não homologada. Ele, porém, só poderá começar a campanha depois de cumprir suspensão de 90 dias, que termina em 5 de janeiro, mas ainda pode ser estendida por mais 45 dias. O motivo: está sendo investigado, com Blatter, pela Procuradoria-Geral da Suíça, por suborno e corrupção na mesma entidade em que, caso eleito, ele pretende que ;volte a ser respeitada pelo povo;.

O outro francês da lista também era próximo de Blatter. Jérôme Champagne trabalhou por 11 anos na Fifa como executivo e conselheiro do presidente afastado. Já o ítalo-suíço Gianni Infantino dividiu o apoio da Uefa com o concorrente Platini. Há ainda os milionários Ali bin Hussein, príncipe da Jordânia, e Salman Bin Ebrahim Al Khalifa, xeque do Barein. Além dos africanos Musa Bility, da Libéria, e Tokyo Sexwale, da África do Sul. De todos eles, apenas o sul-africano, conselheiro da Fifa para assuntos contra o racismo, fugiu das promessas vazias de ;salvar; a entidade.

Figura ativa no combate ao racismo, Sexwale promete tornar a Fifa ;uma força unificadora;. Além da relação com o futebol, estabelecida por meio do comitê organizador da Copa do Mundo de 2010, do qual fez parte em seu país natal, ele mediou a comunicação entre as federações de Israel e Palestina, antigamente rompidas. Amigo próximo de Nelson Mandela por terem ficado presos juntos no período do apartheid, ganhou fama no país a ponto de ser o apresentador do programa televisivo O aprendiz na África do Sul.


Quem são os candidatos à presidência da Fifa

Gianni Infantino
Cargo atual: secretário-geral da UEFA desde 2009
Nacionalidade: suíço
Idade: 45 anos
Discurso: defende a necessidade de reformulação na Fifa, sob o interesse das 209 associações, sejam elas grandes ou pequenas

Há seis anos como secretário-geral da Uefa, Gianni Infantino é conhecido do público por estar à frente dos sorteios da Liga dos Campeões e da Liga Europa. Mas a ligação com o futebol
é mais extensa: começou quando ele começou a trabalhar como advogado da entidade, há uma década e meia. Antes visto como braço direito de Michel Platini na Uefa, agora o suíço terá o francês como adversário na corrida presidencial da Fifa. Mesmo tendo lançado a candidatura no último dia do prazo, Infantino conta com apoio do Comitê Executivo da Uefa e do ex-jogador português Luís Figo, ex-meia do Real Madrid, que chegou
a anunciar candidatura,
mas recuou.

Ali Bin Al Hussein
Cargo atual: vice-presidente da Fifa na Ásia desde 2011
Nacionalidade: jordaniano
Idade: 39 anos
Discurso: fala em uma Fifa transparente para restaurar a reputação da entidade, afetada pela série de escândalos de corrupção

Único adversário de Blatter nas eleições de maio, o príncipe da Jordânia foi quem mais se aproximou de assumir a presidência da Fifa. Al Hussein levou as eleições para o segundo turno, antes de desistir da disputa eleitoral por conta da derrota por
133 votos a 73 na primeira consulta. Aquela, porém, não foi a primeira ocasião em que o príncipe recuou na decisão: ele também desistiu da candidatura em 2011, depois de se ver envolvido em uma série de acusações de corrupção. O candidato mais jovem é visto como modernizador, com dedicação especial ao futebol feminino, por ter centralizado a organização da Copa do Mundo Feminina Sub-17,
na Jordânia.

Jérôme Champagne
Cargo atual: consultor de futebol; ex-diretor de relações internacionais da Fifa
Nacionalidade: francês
Idade: 57 anos
Discurso: planeja combater a desigualdade e implementar tecnologia, além de prometer publicar salários de executivos

Na segunda tentativa à candidatura da Fifa ; na última eleição, não conseguiu apoio suficiente das federações ;, Jérôme Champagne almeja, além de reformular o futebol, combater a desigualdade e implementar tecnologia à modalidade.
O francês entrou na entidade máxima do futebol como dirigente, após assumir o conselho diplomático e ser chefe de protocolo do Comitê Organizador Local da Copa
da França, em 1998. Na atual campanha, afirma ser isento nos casos de corrupção recentes da Fifa, alegando haver saído da entidade em 2010 para trabalhar no Festival Internacional de
Artes Negras de Dakar, no Senegal. Champagne alega
ter apoio de Pelé.

Tokyo Sexwade
Cargo atual: conselheiro da Fifa para assuntos contra o racismo
Nacionalidade: sul-africano
Idade: 62 anos
Discurso: figura ativa no combate ao racismo, tem a intenção de qualificar a Fifa como ;força unificadora;

Ativista contra o racismo, Tokyo

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