A questão feminina

A questão feminina

Com vídeos que ultrapassam um milhão de visualizações, Jout Jout fala de temas do seu cotidiano

» Renata Rios
postado em 09/11/2015 00:00
 (foto: Caio Franco/Divulgação)
(foto: Caio Franco/Divulgação)

Abem-humorada Júlia Tolezano, carioca de 24 anos, mais conhecida como Jout Jout, é formada em jornalismo, mas não é por isso que a moça ganhou fama. Ela encanta o público em vídeos espontâneos no seu canal no YouTube, JoutJout Prazer, que em um ano e meio acumulou mais de 400 mil seguidores. É lá também que ela expõe opiniões e experiências sobre temas como relacionamentos abusivos e assédio. Na última semana, a página da youtuber no Facebook foi retirada do ar devido a supostas denúncias de usuários, mas, logo depois, a rede social corrigiu o problema.


Em entrevista para o Correio, a youtuber ; com muito orgulho ; fala sobre seu canal, e alguns dos temas que ela trata nele, Jout Jout também é enfatica ao afirmar que o aborto é um direito da mulher sobre o corpo e a vida dela e critica a falta de uma educação sobre o feminismo ainda nas escolas.

Você é formada em jornalismo. Chegou a atuar na área?
Não, em jornalismo eu nunca trabalhei; trabalhei em editoras de livros. Era o que eu queria fazer da vida, mas aí também não deu muito certo.

Como você define um youtuber? Você se considera uma?
Eu não sei. Gosto muito dessa palavra, youtuber. É uma profissão ótima: ao mesmo tempo, você não tem chefe e tem vários. É tipo uma coisa que você já faria normalmente, sem ninguém pagar, mas você recebe para isso, o que é maravilhoso.

O canal no YouTube surgiu como?
Tinha medo de críticas e eu queria vencer meu medo disso. Ao mesmo tempo, gostava muito de um canal chamado Daily Grace, que é americano, e ele foi minha inspiração. Consegui vencer esse medo de crítica graças ao canal.

Existe uma cultura de estupro no Brasil. Você concorda com isso?
Eu superconcordo com isso. Como uma pessoa fica à vontade para falar as coisas sobre a Valentina (a criança do MasterChef Júnior que foi alvo de comentários pedófilos nas redes sociais)? Não há dúvida de que vivemos uma cultura do estupro.

Quais as consequências dessa cultura?

Todas aquelas velhas histórias de mulheres se sentindo inferiores, desprotegidas e incapazes. Saio na rua preocupada com isso (com a violência contra a mulher), mas eu não tinha que ter esse tipo de preocupação: ;Putz, talvez role um estupro, melhor eu ir por outra rua;. Isso não podia acontecer.

Quais são as formas e combater isso?
Nossa, muita coisa já mudou, já melhoramos muito, mas ainda tem muita coisa para melhorar, muita! Aos pouquinhos a gente vai vencendo pequenas batalhinhas, mas, de batalha em batalha, quem sabe um dia. Por exemplo, na minha escola, que era particular e cara, nunca foi discutido o feminismo. Não tem como não discutir feminismo. Não tem como não discutir essa igualdade entre homens e mulheres. E a gente não faz isso. São pequenas coisinhas que deviam ser ditas desde criança. É aquela boa e velha história da educação.

No Brasil, um assédio que não e desenvolve para um estupro considerado normal. Como ocê vê isso?
Acho horrendo. Estupro já tá normal. As pessoas falam nas redes sociais: ;Se ficar andando de sainha curta, não vou me controlar mesmo não;. Como a pessoa fala isso, gente? E se a pessoa sente a liberdade, sente que é certo falar isso, tem algo errado.

Você fala em um dos seus vídeos sobre relacionamentos abusivos. Este problema atinge mais as
mulheres? O que leva uma pessoa a se inserir em um relacionamento com essa natureza?

Tem muita mulher abusiva também, mas o que leva uma pessoa a se meter nisso é muito particular de cada caso; às vezes, uma insegurança, medo de ficar sozinha, ou qualquer coisa assim. Mas cada caso é um caso, é muito específico.

Você vê o aborto como uma iberdade da mulher em relação ao corpo dela, ou como um tentado à vida?
Sou supermega a favor. Quem vai definir o que vamos fazer com nosso corpo, nossa vida? Um filho compromete toda a sua vida, inteira, a partir do momento que ele nasce. Então não existe isso, meu Deus, não existe! Você decide o que fazer, decide o que você faz com seu corpo e o que você faz com a sua vida. Independentemente se você foi estuprada ou não, às vezes você não tem condições, não quer, não vai, não é bom para você ter um filho. Como você vai ter um filho, que não vai ser bom para você, e você não vai ser boa para ele?

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