Isolado, Cunha sonha com o recesso

Isolado, Cunha sonha com o recesso

Sem o apoio da oposição, o presidente da Câmara se vê numa encruzilhada no processo que pede a cassação do mandato dele. A estratégia é ganhar tempo. Em conversa com tucano, peemedebista diz que PSDB jogou fora a chance do impeachment de Dilma

» PAULO DE TARSO LYRA
postado em 13/11/2015 00:00
 (foto: Dario Oliveira/Código19/Agência O Globo)
(foto: Dario Oliveira/Código19/Agência O Globo)








Cada vez mais irritado com a perda de apoio político, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), conta com o recesso parlamentar de fim de ano para que a temperatura política diminua e ele consiga sobreviver ao vendaval político que enfrenta. Após ficar sem o aval da oposição ; em especial do PSDB, que anunciou nesta semana que pedirá o afastamento dele do cargo antes da conclusão do processo no Conselho de Ética ;, Cunha apoia-se no conjunto de partidos de pequeno e médio porte que assinaram uma nota de apoio a ele na quarta-feira e no temor do governo de que possa acelerar as ações de impeachment da presidente Dilma Rousseff.


;A situação dele é delicada. Afinal, ele não confia que, no momento oportuno, o governo possa lhe dar o apoio necessário para escapar de uma eventual cassação;, afirmou uma liderança do DEM. Parte da bancada petista espera, ansiosamente, que a situação de Cunha se complique. ;O governo não poderá fazer qualquer gesto. Mas esperamos que a pressão das ruas (vindas dos movimentos sociais ligados justamente ao PT) possam ser decisivos para a queda dele.;


Se tenta ganhar tempo político na Casa, com manobras que passam inclusive pela mudança de integrantes do Conselho de Ética da Câmara, Cunha não esconde a irritação com o PSDB. A ira do peemedebista foi descarregada sobre o vice-líder da bancada tucana da Câmara, Nilson Leitão (MT), na manhã de quarta-feira, quando este foi ao gabinete presidencial conversar sobre a instalação da CPI da Funai. Segundo interlocutores presentes à reunião, Cunha chamou o PSDB de ;ingrato; e disse que a oposição jogou fora a oportunidade de ver aberto o processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff. E ainda afirmou que a oposição havia sido ingrata após todos os espaços cedidos a ela na Mesa Diretora da Casa, nas comissões temáticas e nas comissões parlamentares de inquérito (CPIs).


;O Eduardo Cunha reagiu com indignação. Achou um absurdo;, revelou o deputado Paulo Pereira da Silva (SD-SP). Paulinho disse que no almoço de terça-feira com o peemedebista, o PSDB teve uma postura diferente da anunciada nesta quarta. Agora ele já não sabe se Cunha anunciará mesmo nesta semana um novo rito para o processo de impeachment, como havia prometido. ;Acho que foi mal (a ruptura) porque, no meu ponto de vista, abriram mão do impeachment. Jogaram o Cunha no colo do PT;, avaliou Paulinho.

Decisão política

O presidente nacional do PSDB, senado Aécio Neves (MG), afirmou não ver qualquer incongruência na atitude do partido. ;O PSDB agiu com clareza. Esperou as provas e evidências e elas vieram. E tomou uma decisão política. Os nossos acordos com o presidente Eduardo Cunha eram públicos e, por isso, decidimos que não havia mais condições políticas para manter o apoio a ele;, resumiu Aécio.


Quanto ao futuro do processo de impeachment, o presidente nacional do PSDB espera independência por parte do Cunha. ;Espero que ele decida essa questão com base em evidências, não motivado por gestos de apoio político;, declarou. Na verdade, o PSDB já pensa em um plano B de impeachment sem Cunha. A legenda aposta as fichas no processo que tramita no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que pede a impugnação da chapa Dilma-Michel Temer, o que levaria, necessariamente, à realização de novas eleições presidenciais.


Essa saída, se concretizada, seria até melhor para Aécio Neves, já que ele aposta em um eventual recall das eleições de 2014 para eleger-se presidente, caso uma nova disputa eleitoral seja realizada. Segundo apurou o Correio, em conversas com integrantes do TSE próximos ao partido, os tucanos teriam recebido sinalizações de que a questão poderá ser julgada com celeridade no ano que vem.


Isso teria, inclusive, levado o PSDB a desistir de recorrer da decisão do presidente do TSE, ministro Dias Toffoli, de manter a ministra Maria Thereza de Assis Moura como relatora da ação. Em um primeiro momento, os oposicionistas haviam demostrado indignação com a decisão, já que, anteriormente, Maria Thereza havia votado pelo arquivamento do processo contra a chapa que reelegera Dilma Rousseff. Os tucanos, em especial, preferiam que o relator fosse o ministro Gilmar Mendes.






Relator de ção definido
O presidente do Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, José Carlos Araújo (PSD-BA), anunciou o deputado Sandro Alex (PPS-PR) como relator do processo por quebra de decoro parlamentar contra o líder do PSol, Chico Alencar (RJ). Araújo também confirmou o recebimento da representação do PSD contra o deputado Jean Wyllys (PSol-RJ). O Solidariedade protocolou a representação alegando que Alencar usou recursos da Casa para fins eleitorais porque parte de sua campanha à reeleição teria sido financiada por um funcionário de seu gabinete. O partido também alega que Alencar, um dos principais adversários de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), teria supostamente apresentado notas frias de empresa fantasma para ressarcimento com a cota parlamentar. Alex terá 10 dias para apresentar um parecer prévio sobre o caso.





Denúncia de entidade na OEA
Uma associação brasileira que defende os direitos das mulheres denunciou ontem o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) à Organização dos Estados Americanos (OEA) pela autoria do projeto de lei que dificulta o acesso ao aborto legal para vítimas de estupro. O projeto de lei foi aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara em 21 de outubro. Na denúncia que também alveja os outros 11 deputados que assinaram o projeto, o governo brasileiro e os integrantes da CCJ, a entidade chamada Artemis acusa os responsáveis pela aprovação do PL de cometerem ;grave violação aos direitos humanos das mulheres; e de tentarem tirar delas prerrogativas fundamentais. A OEA é um órgão internacional de defesa dos direitos humanos.






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