Gene ofusca distrofia muscular

Gene ofusca distrofia muscular

Brasileiros descobrem, em cães, condição genética que impede o comprometimento dos músculos mesmo quando não há a proteína que os protege. Estudo pode resultar em novas terapias para doenças como a síndrome de Duchenne

» ISABELA DE OLIVEIRA
postado em 13/11/2015 00:00

A cada 3 mil a 5 mil meninos, um sofrerá com a distrofia muscular de Duchenne (DMD), distúrbio genético e degenerativo provocado por mutações no gene que codifica a distrofina, proteína essencial para a manutenção dos músculos. A doença não tem cura e os tratamentos são ineficientes. Por causa disso, a expectativa de vida desses garotos não supera três décadas. O quadro, porém, pode mudar com descobertas de pesquisadores brasileiros. Na revista Cell de hoje, eles relatam o caso de Ringo e Suflair, dois cães da raça golden retrivier com DMD que foram protegidos da progressão da doença por uma alteração no gene Jegged1. O resultado é inédito.

Os autores, da Universidade de São Paulo (USP), estudam distrofias musculares e outras doenças genéticas há décadas. Em 2003, decidiram pesquisar a DMD em golden retrievers, cães que desenvolvem um quadro clínico parecido com o de crianças com a enfermidade. De grande porte e compleição, esses animais têm músculos que suportam carga similar à de humanos. Durante o estudo, os cientistas perceberam Ringo e Suflair ; cães que, apesar da doença genética, apresentavam pouquíssimos sintomas.


"É possível ter um músculo funcional em um animal de grande porte apesar da ausência da proteína distrofina;
Mayana Zatz, pesquisadora da USP


A equipe descobriu que o padrão de ativação ou ;desligamento; de alguns genes de Ringo e Suflair é parecido com o de cães saudáveis, com os quais podiam até ser confundidos. Ringo viveu até os 11 anos e Suflair tem quase uma década de vida saudável. Depois que a USP encontrou os dois cães, pesquisadores liderados por Diane Shelton, da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, descobriram uma geração de labradores que não têm distrofina no músculo, mas também apresentam um quadro benigno. Os cientistas, agora, trabalham juntos.

Efeito celular

Com a Universidade de Harvard e o Broad Institute, ambos nos EUA, a pesquisadora-sênior Mayana Zatz e a equipe liderada por ela detectaram que o Jagged1 ; gene exclusivamente mais expresso em Ringo e Suflair do que nos demais cães da raça com distrofia muscular ; ;mora; em uma região do cromossomo 24. Ele é o único a apresentar expressão diferente de 65 genes localizados, nos outros grupos de cães, no mesmo cromossomo. Além disso, tem uma alteração exclusiva que facilita sua ligação com a miogenina, uma proteína muscular.

;Mostramos, pela primeira vez, que é possível ter um músculo funcional em um animal de grande porte apesar da ausência da proteína distrofina. Isso abre novas perspectivas terapêuticas para Duchenne;, diz Mayana Zatz, coordenadora do Centro de Pesquisa sobre o Genoma Humano e Células-Tronco da USP. Ela pontua que, por enquanto, não dá para dizer quão raro é o Jagged1 alterado nem se ele está presente em humanos.

Já se sabe, porém, que o gene ativa a Notch, uma via bioquímica que desencadeia a multiplicação e o reparo celular. Amparada por Louis Kunkel, da Escola de Medicina de Harvard e um dos descobridores da distrofina e seu papel no desenvolvimento de Duchenne, Natássia Vieira, principal autora do estudo divulgado na Cell, descobriu que a Notch se manifesta exclusivamente em Ringo e Suflair com a divisão celular mais rápida e eficiente.

;Vamos investir nessa descoberta. Com diferentes estratégias, testar, primeiro em modelos animais, quanto o aumento de expressão do Jagged1 consegue melhorar o quadro clínico desses animais e, no futuro, em pacientes com distrofia de Duchenne;, afirma Mayana Zatz. Experimentos em peixe com distrofia manipulados para apresentar a expressão aumentada do Jagged1 mostraram que de 60% a 75% deles eram praticamente idênticos aos animais saudáveis.


Palavra de espec ialista

Resultado inédito

;Imaginávamos que humanos poderiam ter alterações nos genomas para diminuir os sintomas da distrofia, mas nunca vimos isso e em ninguém com expectativa de vida normal, com exceção desses cães. É uma grande descoberta, que pode nos levar a modificares genéticos de distrofia. Alguns indivíduos não são tão afetados e, talvez, tenham um modificador. Mayana Zatz (da USP) tem pacientes irmãos que são discordantes em fenótipos, com um muito mais afetado do que o outro, por exemplo. Agora, estou trabalhando com uma grande farmacêutica em Boston para buscar drogas que aumentem, em pequenas doses, o Jagged1. Então, poderemos testar em modelos de ratos e mostrar se isso funciona neles, e, depois, continuar para testar, potencialmente, em humanos.;

Louis Kunkel, da Escola de Medicina de Harvard, em Boston, e um dos descobridores da distrofina e suas ligações com Duchenne

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